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terça-feira, 6 de março de 2012

Eu te perdôo, Senhor

Eu te perdôo, Senhor





Essa semana comemora-se o Dia Internacional da Mulher. "O dia internacional da mulher é todo dia", dizem, algumas pessoas. "Isso é descriminação! Não existe o dia internacional do homem", afirmam, outras. Polêmicas à parte, queiram ou não queiram seus detratores, o dia existe. Uns dos processos mais eficientes das religiões, mais de perto a Judaica, são os rituais de intervalos repetidos para rememorar acontecimentos que devem ser fixados como, por exemplo, o Natal, a Paixão de Cristo, o Bar Mitzvah, Yon Kippur (o dia do perdão), dentre outros. É que os históricos formuladores dessas religiões sempre levaram em conta as fraquezas humanas e a fragilidade da memória em confronto com a linha do tempo. Então, porque não reavivar a memória em determinados momentos, introduzindo permanentemente os atos de reflexão e o pensar? Melhor seria se fossem reservados uns poucos minutos diários para essa reflexão. Não seria uma boa oração?

Se os religiosos podem criar orações, não vejo obstáculos para que não possa criar a minha. No entanto, devo deixar claro que as mulheres referidas na oração são abstrações, sem qualquer associação com pessoas concretas, inclusive comigo, pois me considero uma pessoa afastada dos ranços machistas, por ter tido a graça das presenças luminosas de mulheres maravilhosas, dentre as quais destaco, minha mãe e minha adorada filha. Vamos orar?

"Meu amantíssimo Deus, ouso dizer nesse dia que não desejo o perdão das mulheres por meus atos de violência e desamor. Quero perdoá-lo! Sei que seria mais honesto da minha parte pedir-lhe perdão por meus atos deploráveis, no entanto, meu Pai, sempre fiz isso, mas nunca mudei. Entra ano e sai ano e continuo solitário, pecador e estou muito cansado.

Se não tens sexo ou possui todos os sexos do firmamento, quero perdoá-lo por aquela história do barro, da costela de Adão e da Cobra. Se o meu Pensar foi dádiva sua, então é divino perceber que tanto os homens e as mulheres se originam do mesmo barro, possuem costelas, e a cobra, longe de ser maldosa, na verdade era um prazer a mais no multicolorido visual do Paraíso. Quero ainda perdoá-lo, Senhor, por não ter dado o mesmo tratamento carinhoso à sua filha Maria, que dispensou ao seu predileto filho, Jesus, pois na hora do calvário foi Maria, e as outras duas Marias que velaram corajosamente o seu pupilo, enquanto os homens apóstolos estavam escondidos.

Meu Deus amado, vou lhe perdoar por minha amada mãe não ter conquistado um espaço social como cidadã e seus direitos fundamentais como pessoa, e mesmo que os obstáculos fossem, naquele momento histórico, intransponíveis, pelo menos me contasse historias de ninar onde as mulheres tivessem relevo. Como poderia ser um homem diferente se não tinha um modelo de mulher diferente em casa? Senhor, hoje percebo que a causa da minha fragilidade e necessidades atuais foi, na época da minha meninice, não ter existido como guia, as fortes mãos maternas. No entanto, as mãos carinhosas de mamãe não sabiam a força que tinham e me davam as algemas para serem usadas em outras mulheres.

Meu amado Senhor, vou lhe perdoar por minha mulher ter sido minha posse e ter abdicado de sua inata liberdade, do seu viço sensual atávico, da sua sexualidade exuberante e desejosa, de ter tentado substituir minha mãe. Ela bem poderia ter me ensinado, mesmo com toda a minha resistência de macho territorial, que as "outras" são mais gostosas porque são livres e que o sexo-prazer não é exclusividade masculina. Poderia ter mostrado-me que a idade não lhe tirou a graça e a sua sexualidade, mas lhe deu outros contornos maduros, em decorrência do seu constante cuidado com o templo da sua alma. Enfim, Senhor, como sempre fui pequeno, imaturo e limitado quanto à grandeza da vida, ela poderia ter me ensinado com todo cuidado pedagógico que o amor não é posse e nem ciúmes, mas carinho, companheirismo e cumplicidade.

Meu Senhor do Universo, lhe perdôo por minha filha por não ter aprendido que seu homem não é seu filho mimado e protegido, mas uma pessoa que por destinação precisa crescer e só conseguirá esse intento, com o seu prestimoso auxilio, pois será ela que lhe mostrará a sua comum humanidade. Perdôo-o, ainda, Senhor, por ela acreditar no amor romântico, fechado em conchas, dois-em-um, obcecado, onde um é a tábua de salvação do outro, que, em um momento, um Romeu apaixonado; em outro, Otelo assassino.

Meu Deus que maravilha o mundo, perdôo-lhe por todas mulheres do mundo que se deixam matar por imbecis machistas que confundem o amor com um ciúme possessivo e doentio, pois quando estão encantadas só vêem o belo sorriso do macho e não os seus dentes. Perdôo-lhe, ainda, pelas suas submissões às chantagens sexuais, aos salários inferiores, às repressões de suas fantasias e às diversas discriminações.


Entendo, porém, que devo pedir desculpas, Senhor, e o faço, nesse momento, com imensa alegria. Peço perdão a uma mulher excepcional, Senhor. A mulher que mora no seu reino, em companhia de tantas outras entidades. A mulher que até esse momento forcei o seu silencio, impedindo-a de se manifestar na tribuna democrática do meu Ser. Ela poderia ter me revelado que o lugar central do meu ego é um local que deve ser ocupado por todas as personas e mesmo que algumas delas não tenham o poder de influenciar as minhas atitudes, entretanto, devem ter o direto de serem ouvidas. Poderia me dizer, ainda, que todo macho caçador na sua ânsia de colecionar troféus, o que verdadeiramente almeja é matar simbolicamente a sua mulher interior, e por sua atitude tirânica em relação a ela, tem medo que ela assuma permanentemente o lugar central do seu ego. E com a ausência da mulher interior é impossível amar verdadeiramente as mulheres A repressão gera forças antagônicas irresistíveis, tirânicas, que podem usurpar o espaço dialogal do Ego e subverterem a sexualidade.

Em verdade, Deus meu, ao lhe perdoar, tento gritar para elas que lutem, desbravem a escura floresta da repressão, assumam o comando da libertação existencial, pois os homens jamais irão ajudá-las nessa tarefa porque são "mijadores de cantos". No entanto, ao pedir perdão à sua filha, peço a todas as mulheres do mundo, suplicando que lutem contra a nossa repressão, dando-nos humanidade e liberdade para amar verdadeiramente.

Por fim, meu amado Confessor, se as minhas palavras não lhe agradaram, paciência! Ouso-lhe dizer que não irei lhe pedir perdão, pois sou ou não, feito à sua imagem e semelhança? Enfim, a bem da verdade, você também existe, porque elas existem."


Ivan Bezerra de Sant Anna




Publicado no site http://ibezerra.xpg.com.br e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/






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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Ô, ô, ô, Aurora

Ô, ô, ô, Aurora





Você está perto do palco, pulando, rodopiando, embalado pelo ritmo frenético do frevo Vassourinha. Você pensou: "não é a Banda Spock Frevo, mas, tudo bem. Precisamos dar valor a prata da casa". Mas, você está chateado, pois a banda pernambucana tocou no Pré-Fabi, afogada pelo caudaloso rio do axé, trepada nas costas de um caranguejo morto e eletrificado. Mas, nessa festa tudo pode acontecer. É uma festa das elites e o dinheiro da Loba, com suas tetas generosas, corre solto, tal qual os corruptos "da nossa Pátria tão distraída", dormindo em berços esplendidos. Coitada da bichinha: nunca percebeu "que era subtraída, em numerosas transações".

Você gosta de pular no meio do povão, pois acha que isso é Carnaval, a festa da inversão, da sátira alegre, do humor descontraído, sem as cordas excludentes, e, por conseguinte, sem violências e estiletes cortantes. Até a Policia se comporta com respeito necessário que os foliões merecem. Mas, você está preocupado com a possibilidade de alguma garota aparecer fantasiada de Rita Lee. Nunca se sabe. Não importa o cheiro da erva, porque tudo é alegria e os policiais estão com as expressões "numa boa" e Marijuana, Loura Suada, Maria Pinga são garotas muito apreciadas nas festas de Momo.

"Eh, eh, eh, eh, índio quer apito se não der pau vai comer..."

Você sabe que "ala dos barões famintos, bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do bulevar" não gostam de "colar esquisito", pois "índio quer presente mais bonito". Indio não quer corda, nem camarote: "índio quer apito". Embora não seja um deles, você se contagia com a "indagem", sente-se em harmonia com o povo e chega até acreditar na comunhão cristã. Mas você está triste, nesse momento. Onde se encontra a juventude esclarecida, protestante, com suas roupas simples e alarmantes, seus cabelos de revolta pura e seus livros sobre o negro, a exclusão e a sociedade? Você percebe que eles escrevem, falam, fazem música sobre o povo, mas não se misturam com ele. Talvez isso explique porque esses garotos adoram desfilar nos blocos fechados do Pré-Fabi, todos uniformizados, com uma mão balançando o abadá e com a outra, acenando para as câmeras e para os pais nos camarotes.

Eles compõem o grupo chamado de juventude contida, masterizada, consumista, com rostos alternativos "vá se fuder" e "mamãe eu quero". Eles são do círculo paz e amor, não "com os dedos em V, cabelos ao vento e gente jovem reunida", mas cantando "O meu carnaval é em salvador, tem beijo na bôca aqui impera o amor" do chicleteiro Mel e de tantas outras, igualadas pela mediocridade. Eles sabem que no carnaval paz e amor do axé ou no Pré-Fabi, não podem se misturar com o povo na poeira dos trios, na rabada dos blocos, pois "índio quer presente mais bonito... e se não der, pau vai comer". E agora vai comer mesmo! Como a musa do axé, Ivete Sangalo, resolveu aconselhar a todos os pedófilos jantarem com muita gula as garotinhas, as meninas petistas vermelhinhas que se cuidem e tomem cuidado, principalmente nos camarotes, lugares infestados de lobos maus.

"Mamãe eu quero, mamãe eu quero... Mamãe eu quero mamar..."

Você gostou quando a excelente orquestra, Los Guaranis, tocou essa marchinha e a menina que mamava uma imitação de pênis acoplada em uma lata de cerveja, também gostou. O povão adorou, agitando-se com muita alegria, pois, afinal, mamar é o primeiro ato prazeiroso da nossa existência. No entanto, existe mamadas e mamatas. O povão aprecia as inúmeras variações da primeira opção, mesmo porque a segunda está fora do seu alcance. Verdade seja dita: duvido que você tenha visto algum apreciador da segunda opção, dançando no meio do povo. Tal impossibilidade se dá em virtude dessas pessoas serem apaixonadas pelo povo somente no momento de pedir o voto, e mesmo assim, mantendo uma distancia respeitosa. Você está pensando em sugerir ao vereador Robson Viana que construa camarotes no Rasgadinho e dessa forma, quem sabe, o Sr. Prefeito poderia se fazer presente, como usualmente acontece no Pré-Fabi. Dessa forma, você poderia gritar com toda força dos seus pulmões cachimbados:

"Hoje vou sambar na rua/ você vai de galeria/ quero que você assista/ na mais fina companhia/ Se você sentir saudade/ por favor não dê na pista/ bata palma com vontade/ faz de conta que é turista"

Sei que você está triste pela ausência do antigo aliado das lutas pelo socialismo, o camarada Edvaldo Nogueira, na época um jovem simples, de sorriso franco que rejeitou o passado cultural alagoano da peixeira e do trabuco, trocando-o pelas palavras concientizadoras. Mas o passado é difícil morrer, pois muitas vezes mata-se o Príncipe, mas deixa-se intacto o princípio. Mas é Carnaval, e nesse momento você saúda algumas pessoas que passam formando um trenzinho. Você não sabe que são, que fazem, como vivem, mas não importa. Nesse instante, são pessoas iguais a você, unidas pela música, cadenciadas pelo ritmo, como deveria ser, como você sempre sonhou o socialismo. O cantor da banda cantarola:

"Meu coração é vermelho (Hei, Hei)/ De vermelho vive o coração (Ê, ô, ê, ô)/ Tudo é garantido após a rosa avermelhar/ Tudo é garantido após o sol vermelhecer"

Você sente uma pontada de tristeza. Já vai amanhecer e com a noite se vai a alegria igual.

Você pensa: o amanhecer também pode ser vermelho.

A banda lança os últimos acordes:

"Se você fosse sincera, ô, ô, ô, Aurora/ veja só que bom que era, ô, ô, ô, Aurora"


Ivan Bezerra de Sant Anna




Publicado no site http://ibezerra.xpg.com.br e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/






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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

... Desculpe o Auê, eu não queria magoar você...

... Desculpe o Auê, eu não queria magoar você...




Oh, menino, quanta confusão! Desculpe chama-lo assim, mas não me acostumei com o nome Governador. Para mim será sempre Deda, aquele menino sonhador, eloqüente, que tinha um brilho cativante nos olhos. Éramos de tendências políticas diferentes, mas gostava da sua leveza, do seu jeito cativante de estar sendo, da sua tolerância às idéias que divergiam. É verdade que às vezes me assustava com a sua vaidade, quando resolvia realçar as cores da sua cauda, mas ninguém é perfeito. Gostávamos muito da Rita Lee, lembra-se? Íamos para as noitadas, que fumacê, não era, menino? Não tínhamos preconceitos, pois isso fazia parte desse tal de Rock-and-Roll.

"É proibido fumar
Diz o aviso que eu li
É proibido fumar
Pois o fogo pode pegar

Mas não adianta o aviso olhar
Pois a brasa aqui agora eu vou mandar
Nem bombeiro pode apagar"

Era assim, menino. Você deve estar lembrado, pois o Poder muda as pessoas, mas não apaga as suas memórias. Caretas, "numa boa", politizados, alienados, todos juntos curtindo Paz e Amor, sob o som da Rita, lembra-se? E quando tocava...

"Meu bem você me dá
Água na boca
Hum! Rum!
Vestindo fantasias
Tirando a roupa
Molhada de suor
De tanto a gente se beijar
De tanto imaginar
Imaginar!
Loucuras..."

Que bom, não era? Sinto-me saudosa quando lembro...

"Olha meu irmão
Vamos passear, vamos voar
Dê a partida, acelere a vida
Vamos amar
Ande depressa
A vida tem algo mais para dar"

Daquela época, quase nada restou, não é menino? Nem mesmo as fantasias dos carnavais que gostávamos, pois hoje lhe vejo em um camarote vip no Pré-Fabi, bebendo whisky na companhia daqueles que outrora eram seus inimigos ideológicos.

"- Por que whisky sim? Por que Cannabis não?
- Cuidado com polícia
Cuidado com ladrão
Não seja condenado a votar em canastrão
Obrigado não
Obrigado não"

De onde eu estou, menino, dá para ver tudo. Vi a Policia ostensivamente prendendo os garotos, fazendo revistas em busca da marijuana, semeando o medo e promovendo a tristeza. Menino, essa festa não era um Pré-Fabi, onde as cordas da exclusão incita as estocadas de estiletes e o roubo. Era a festa de despedida dos palcos da maior roqueira brasileira e como você acha que ela iria se comportar?

"Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Não provoque!
É Cor de Rosa Choque"

A sua Policia sem preparo para policiar eventos dessa natureza, provocou, menino. Claro que a Atalaia Nova não é mais aquele paraíso que conhecíamos e que tudo levava a crer que se transformaria em uma Praia do Forte. Mas para que tanto preconceito com bairros humildes como a Terra Dura, Aloque ou mesmo a Atalaia Nova? Aliás, dizem por aí que a Policia está sem comando e quem manda é uma tal de Associação que promove passeatas, enfermidades coletivas para não trabalhar e outras coisinhas mais. Cuidado, menino, um governo democrático não pode ser confundido com um governo fraco e a quebra da hierarquia militar sempre foi um poderoso adubo para os movimentos golpistas. Onde se encontra o menino que conheci?

"Hoje mesmo eu te vi
Pensei que fosse o seu pai
Que decepção
Eu fiquei triste de ver
A sua vida começando pelo lado errado
E você está acreditando mesmo
Que gente fina é outra coisa
Mas gente fina é outra coisa"

Que horror! Será?

"O ovo frito, o caviar e o cozido
A buchada e o cabrito
O cinzento e o colorido
A ditadura e o oprimido
O prometido e não cumprido
E o programa do partido
Tudo vira bosta..."

Meu Deus!!! Será que os versos da Rita são proféticos?

"Por que você diz que vai fazer e não faz
Assim não da mais
E eu não posso deixar
Se alguém coisa esta errada eu preciso falar
A verdade
A verdade"

Cuidado, menino. A vida é cheia de surpresas, de imprevistos e ás vezes é como andássemos bêbados em uma corda bamba. Você vive cercado de bajuladores, oportunistas e de inimigos por todos os lados. Será que seu Vice quando assumir vai lhe garantir uma eleição folgada para o Senado? Ele diz que sim, mas você o conhece bem ao ponto de saber que a sua ambição em ser Governador pode leva-lo à pratica do voto camarão. E quem Amorim vai dar maior preferencia, a você ou ao irmão? E possivelmente, você não vai ter aquela ajudazinha financeira de Lula na ultima hora que lhe possibilitou ganhar do Negão, segundo alardeia pelos cantos da cidade, Jackson Barreto. Que sinuca de bico, menino. Abra os olhos, senão...

"Hei você!
Gigolô de opinião
Primo do Papa João
Vai acabar sua mamata
A sua vida é uma farsa"

Alô, se ligue, garoto. A vida não é só dinheiro e poder. Do lugar onde me encontro posso lhe falar isso com muita segurança. Vejo que o alagoano Edvaldo progrediu muito. Lembro-me dele tentando tocar bateria em um conjunto de rock, enquanto você fazia um filme em sua super 8, ao mesmo tempo que tentava me explicar as técnicas da filmagem. Depois ele virou zabumbeiro e na atualidade, construtor. Geralmente é nisso que dá a luta de classe impulsionada pelo ressentimento, pois o ódio e amor são almas gêmeas e a burguesia tem seus encantos. Acho que você seria mais feliz se tivesse optado pelo cinema e quem sabe se não teria sido premiado com o Oscar? Acho que você está pensando que estou louca, não? Você sempre dizia isso quando eu insistia em uma hipótese que não lhe agradava.

"Sim! Sou muito louca
Não vou me curar
Já não sou a única
Que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz!
E não é feliz!
Eu sou feliz!..."

Sabe o que você deveria fazer?

"Num programa de índio
Vá rodar um cachimbo
Que é pra paz não dançar na tribo"

Tchau, baby. Estou zarpando. Grana e poder? Tô fora! Quer saber de uma coisa?

"Sou nova demais pra velhos comícios
Sou velha demais pra novos vícios"


Texto de Heloísa Matos, psicografado por Ivan Bezerra de Sant Anna.







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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O caju rufião

O caju rufião





Rufianismo, politicagem, corrupção, servilismo cultural são palavras que talvez traduzam os reais objetivos dessa caricatura de carnaval chamada de Pré-Caju. Se a idéia foi concebida pelos grupos musicais baianos ávidos pela conquista de novos mercados, o seu campo germinador foi uma empresa de empreendimentos culturais denominada de Augustu's, sediada em um terreno quase doado pela EMURB, na época da intervenção municipal do democrático Governador Valadares. Afastando a hipótese de corrupção, possivelmente essa doação foi fruto de um desses momentos de extremada bondade do Sr. Governador.

Como passe de magica, a empresa falida Corsal se transformou em um próspero empreendimento de produção de eventos sob o comando do Sr. Lourival, tendo como garoto propaganda, o sorridente Fabiano Oliveira. Sorriso para cá, sorriso para lá, o garotinho cheio de baianidade foi conquistando corações e mentes, principalmente, o precioso acesso aos cofres públicos. Pode-se questionar a importância desse evento para a cidade de Aracaju, se somos quintal da Bahia, ou mesmo, o afastamento das características básicas do Carnaval, tais como, a irreverência, as inversões dos papeis sociais, a comicidade que provoca o riso subversivo, mas, nunca a saúde financeira das empresas dos irmãos do Pré-Caju.

Se essa imitação barata de festa carnavalhesca está anêmica, o mesmo não se pode dizer dos fluxos arteriais financeiros que irrigam abundantemente o negocio abençoado dos irmãos Pré-Caju. Vermelho, muito vermelho! Se outros Prefeitos e Governadores foram atenciosos, os atuais governantes primam pela generosidade. Apesar de ser um evento de administração privada que visa o lucro, os nossos governantes abrem os cofres públicos, movimentam todos os serviços estatais em prol desse evento, fecham parcialmente uma das principais avenidas da cidade, causando imenso transtorno para o trânsito e para os pedestres. Isso sem falar nos quinze milhões de reais transferidos do Ministério do Turismo para ASBT nesses últimos três anos, entidade administrada pelos irmãos Oliveira.

Na próxima semana, a festa acontece. Blocos destilam com seus foliões uniformizados, cantando musicas bobas pasteurizadas, dançando em um ritmo de quarta feira de cinzas e isolados por batalhões de seguranças. Se o carnaval era do povo, nessa versão falsificada, pertence às elites que se acomodam nos camarotes, servidas de boas comidas e bebidas, e, se for o caso, fazem uso de acompanhantes lindas e cheirosas. No vácuo dos trios elétricos, na poeira dos blocos encontram-se as pessoas comum que em outros carnavais brilhavam, protestavam, ironizavam, satirizavam. Mas isso é coisa dos carnavais passados, pois o do presente só lhes permitem a rabada dos trios e a embriaguez das bebidas baratas. Lá de cima, os dois reis momos olham prazerosamente. Não é sem motivo essa alegria. Enfim, nessa festa, todos gastam e eles ganham.

Ivan Bezerra de Sant Anna






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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Será o mesmo?

Será o mesmo?





Existem certas coisas que só se explicam pela magia, ou, como pode ser o caso, pela safadeza e embromação. No entanto, no Brasil tudo é possível, levando-se em conta algumas particularidades do nosso País, tais como, um Judiciário que legisla, negociando como se estivesse em um mercado persa. Estou sendo radical? Acho que não, pois bastaria que o Judiciário aplicasse a lei que estaríamos protegidos de certos tipos de pessoas que enganam e tripudiam da sociedade.

Entretanto, custo acreditar que o candidato à Prefeito do Município da Barra dos Coqueiros pelo Partido Socialista seja o mesmo que alguns anos atrás era conhecido por Montalvão, o publicitário. Me contaram, mas não acreditei. Não pode ser! Deve haver algum engano. O socialista senador, o Sr. Valadares, jamais permitiria que o Sr. Montalvão, o publicitário, candidatasse à algum cargo eletivo pelo Partido que controla, sob pena de ter sua imagem de político honesto devidamente arranhada. Mas, quem se dizia democrático e mandou a Policia encher Edvaldo Nogueira e Marcelo Deda de porrada quando era Governador, tudo é possível.

Que cinismo! Não tenho outra palavra para definir o comportamento agressivo em prol da moralidade pública do suposto candidato do PSB, que não seja essa. Se for a mesma pessoa, (Deus queira que não seja!) a população da Barra dos Coqueiros está assistindo, ou melhor, ouvindo pela Radio Comunitária uma comédia grotesca que bem poderia ser intitulada com o justo nome de "Engana tolo".

O Sr. Montalvão quando no exercício da arte publicitaria, ajudava aos empresários e políticos na implementação da venda dos seus produtos. No entanto, se era habilidoso em criar ilusões consumista, era muito mais competente na arte de aplicar golpes nos credores e fornecedores. Por três vezes, o Sr. Montalvão, na calada da noite, desaparecia como por encanto, deixando para trás um amontoado de dívidas, credores angustiados e um forte cheiro de estelionato. Desde que efetuou o seu primeiro golpe, o homem do chapéu de Panamá adotou a tática de se esconder no Estado de Pernambuco por algum tempo, para depois voltar "de fininho" ostentando um sorriso angelical, com a cara de "santo de presépio". Se estou falando isso é porque quando era diretor da Univídeo fui umas das suas vitimas, na ocasião em que o Sr. Montalvão deu seu último golpe no mercado.

Último golpe? Bom, se o Montalvão do PSB for o mesmo Montalvão publicitário, pode haver a possibilidade de um novo golpe, pois "quem foi Rei, sempre é majestade". Assim, em uma bela madrugada, os moradores da Barra dos Coqueiros podem ser surpreendidos com a descoberta que a cadeira do Prefeito está tão vazia quanto o cofre da Prefeitura. E quem avisa amigo é, espero que os eleitores desse município não levem em conta as farofadas desse farsante, isto é: se um for o outro. Em caso de duvidas, o eleitor da Ilha deve estar atento para um detalhe de grande importância: o Montalvão publicitário é baixinho, de cor branca e pode estar usando barba e um chapéu de Panamá.

Ivan Bezerra de Sant Anna









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sábado, 24 de dezembro de 2011

O menino do mundo

Menino do mundo




Tantos anos se passaram, mas para mim é como se fosse hoje. Na minha idade a lembrança é como o meu cachorrinho Lalau que brinca de se esconder, indo e vindo quando quer, mas, volta e meia ele está ao meu lado com um olhar de político evangélico. É um bom cachorro, mas cheio de vontade, malcriado, igualzinho ao finado meu marido, José. De uns tempo para cá, Lalau tem sido minha única companhia nessas brenhas em que vivo isolada. O lugar é tão danado que colocaram o nome de Rasgo da Vilma em homenagem a uma libertina famosa que viveu e fez fama na região. No entanto, gosto do lugar, das suas cores selvagens, do calor do dia e do frio da noite, não me sinto sozinha, mas abraçada pelas pessoas ausentes, pelos fantasmas que sempre estão presentes. Ah, ia me esquecendo do cavalo Rolete. Etâ, cavalinho marrento! O danado que tem mais idade do que piolhos "bolsistas"que passeiam nas cabeças dos meninos da região, no entanto, ao ver uma égua nova o desgraçado fica todo sibite, relinchando de um lado para o outro. Só vejo tamanha alegria quando ele escuta na feira da cidade as músicas de Amado Batista.

Como estava falando, a minha memória ia ficando rebelde na medida em que cresciam os meus cabelos brancos, porém, o que vou contar, lembro-me como se fosse hoje. José, meu marido, era muito mais velho do que eu, mas, na época, uma menina distinta que estava beirando aos dezessete anos não podia escolher marido. Isso era tarefa dos pais que não abriam mão dessa escolha, consequentemente, determinavam como seria a felicidade das suas inestimáveis filhas. José era um homem tosco, quase analfabeto, mas era um bom homem. Possuía um coração de ouro e tentava me agradar de todas as maneiras, sem falar na sua generosidade reconhecida por com todos os necessitados. Eu possui a sorte de ter um tia solteirona que era professora que me ensinou a arte da boa escrita e passear com muito prazer nos livros emprestados, doados ou surrupiados. No entanto, com tanta cultura, nunca consegui presentear José com um filho que tanto queria. Coisas da natureza.

Fazia três meses que me encontrava hospedada no sítio de uma tia que morava no Sul, pois estava me restabelecendo de uma enfermidade e José achou por bem que viajasse para lá. "O clima vai lhe fazer bem", falou, ordenando-me que partisse. Um dia, bem cedinho, ouvimos um choro insistente de uma criança que descobrimos ser proveniente do estábulo. Era um recém nascido lindo e vermelhinho de tanto chorar. Meu coração raciocinou sem atropelo e voltei para a companhia de José com o rebento no colo. "Mulher você é doida de pedra", me recepcionou, José, com seu rosto de caatinga e sorriso de mel. Logo que desci da marinete, foi a vez dos olhares populares do tipo "foi ter o filho fora", para logo após mudarem para olhares "quem foi o pai", e antes que aparecesse um "mau olhado", disparei: "Foi um milagre; obra do Espírito Santo".

O moleque foi batizado com o nome de Messias de Araújo, nome que José insistiu com muito vigor, apesar de ter preferido um mais charmoso, originado das minhas leituras. Messias cresceu com doçura e firmeza, ajudando a José nos trabalhos do campo e a noite aprendia a ler e escrever ouvindo as minhas histórias. Sempre ouvi o ditado popular que um abandonado sempre abandona as pessoas, no entanto, Messias nunca se sentiu abandonado e nunca abandonou ninguém. Desde de pequeno acreditava ser uma pessoa especial, constatação essa que não o fazia abrir em leque as suas penas e inchar o peito como um pavão, mas ter um crescente peso da responsabilidade para com os outros, como um Guará alfa em relação a sua matilha. Foi essa especialidade que o fez crescer o cabelo, colocar barba, usar uma bolsa de couro à tiracolo, devorar avidamente livros com capas vermelhas e chamar todas as pessoas de camaradas. Mas, nem todas as pessoas gostavam de ser chamadas por esse nome, como, por exemplo, os coronéis da região, o juiz, o promotor, o padre e os políticos importantes da região. Camarada como sinônimo de amigo, eles ainda suportavam, mas quando essa palavra se associava à frase "a terra é para todos", a jagunçada dos poderosos caía de pau, matando até os passarinhos de cabeça vermelha.

Um dia fui à feira com José e encontramos com o juiz e o promotor que estavam comemorando o recebimento de um vultosa quantia, uma tal de verba indenizatória que as más línguas chocalhavam dizendo ser dinheiro surrupiado do povo. Eles estavam com bom humor e quase embriagados, mas não perderam tempo; ameaçaram Messias. José que de manso não tinha nada, disse: "Diga aos coronéis que José não tem medo de nenhum macho vivente". Eles conheciam o passado de José e ficaram em silêncio. Uma semana após, o silêncio foi quebrado por uma saraivada de tiros. Enterramos José na sombra de um Jequitibá, na terra que ele tanto gostava e que sempre afirmava que um dia descansaria abraçado por ela. Meu bom José descansou, pois de uma forma ou de outra, todos descansam.

Messias depois desse trágico acontecimento nunca mais descansou. O pároco da região cansado e assustado pediu para ser removido e o seu lugar foi ocupado por Frei Antônio que gostava de repetir as frases de Cristo e imitá-lo na sua preferência pelos despossuidos. Como as beatas de sacristia eram ligadas às esposas dos homens poderosos, defendiam com muita garra que essas histórias de rico não entrar no reino do céu e o milagre da multiplicação dos pães e peixes só tinham vigência na Galileia. Assim, como moravam em outro local e em outra época, resolveram invadir a sede da Igreja em nome de Deus e expulsaram o padre satanás. A Arquidiocese protestou junto ao Judiciário que prontamente negou o pedido liminar de reintegração e com toda a velocidade de um cágado, começou a instruir o processo. Frei Antônio que estava sem eira nem beira, resolveu que sua casa devia ser intinerante, um dia na casa de um, outro dia na casa de outro, fato esse que elevou o religioso para o patamar de Pastor de todas as almas pobres e viventes. O tiro tinha saído pela culatra, pois a maioria da população se reunia nas missas das catacumbas, enquanto apenas meia dúzia de pessoas iam à sede a Igreja ouvir as lamúrias odiosas das beatas carpideiras.

Messias ajudado por Frei Antônio tornou-se uma liderança incontestável do crescente sindicato rural que, cada dia que passava aumentava seu prestígio na região, tendo sua fama alcançado outras searas e rincões. Os poderosos sabiam que deviam fazer alguma coisa e fizeram. Trabalhadores eram espancados, algumas casas eram queimadas e duas importantes lideranças sindicais foram mortas na calada da noite. Messias vivia se escondendo como um camaleão de caatinga, mas o meu coração de mãe cada dia que passava ficava mais apertado. Não tinha laços sangüíneos com Messias; tínhamos afinidades dos corações e um sabia quando o outro estava deixando de bater.

Em um dia obscuro que a lembrança embaça, o coração do meu menino parou de bater. Juntei o que restava do seu corpo com a intenção de enterrá-lo na sombra do Jeuquitibá, junto com seu pai José. Entretanto, percebi que seu lugar era o Monte Grande, lugar onde deu o último suspiro. Messias não era nosso; era do mundo. Nunca disse a ninguém onde ele estava enterrado porque queria evitar que fosse canonizado pelos crentes desesperados e com isso aparecessem as romarias e o pior: falassem palavras que nunca disse e matassem outras pessoas em seu nome.

Hoje é natal e isso me faz lembrar o menino do estábulo que coloquei nos meus braços. José gostava do Natal e ficava com a cara de Papai Noel do agreste toda vez que dava um presente a Messias que lhe abraçava com entusiasmo. Meus queridos se foram e estou terminado a minha caminhada por esse mundo de Deus. Espero encontrá-los seja lá onde for. mesmo que seja para um breve aceno e um olhar infinito de amor. Já consegui perdoar os seus algozes, pois, no fundo, eram tão pequenos. Eles não sabiam o que faziam em decorrência de terem grandes egos inflados pelo egoísmo e pequena dimensão da comunhão divina. Nesse natal percebi com clareza uma coisa: sempre vai existir um menino da manjedoura que vai lutar pelos humildes e morrer por mãos ávidas pela posse, movidas por corações egoístas. Messias era irmão de coração do menino da manjedoura e ambos eram meninos do mundo.

Boa caminhada, meu filho

Feliz Natal

Ivan Bezerra de Sant Anna


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Aladim




Aladim




Agora que você se foi, acho que posso alinhar algumas palavras que antes saltitavam devido às emoções que galopavam como cavalos selvagens em uma pradaria. Sei que você não me ouve e quando estava vivo, me escutava ao seu modo, saboreando a melodia, o rítmo e as entonações das palavras, .demonstrando o seu contentamento se lambendo, da mesma maneira que fazia quando lhe mostrava um osso. Acho que foi por isso que duas horas antes de você ir embora, preferi lhe presentear com uma música tocada ao violão, instrumento musical que adorava ouvir e quase sempre, deitava e fechava os olhos. Mas desta vez, você não fechou os olhos, mantendo-os abertos e fixados em mim. o que me provocou uma tristeza infinita.

Sabe por que fiquei triste naquele momento, Aladim? Porque sabia onde ia lhe levar e você nem desconfiava para onde estava indo, nem mesmo quando lhe coloquei naquela mesa que iria se tornar o seu último leito, você pressentiu. Mas era necessário, amigo. Essa doença implacável não tem cura e, infelizmente, está se alastrando como uma praga nos últimos oitos anos governados por políticos demagogos e populistas. Você se lembra daquele dia que estávamos passeando quando apareceu um bando de pessoas com camisas de um vermelho desbotado e que você começou a latir? Foram eles os seus algozes, os que não lhes permitiram ter uma velhice tranquila e exalar o seu último suspiro com o sentimento do dever cumprido. Mas a dor de ter lhe levado para os braços da morte vai estar comigo para sempre.

Acho que apesar de tudo, você teve uma boa vida. Lembra-se como você gostava de correr atrás das lagartixas, ou saltar verticalmente para pegar os cajus que ficavam nos galhos mais baixos? Tenho que me desculpar com você por uma coisa: nunca o levei para navegar no mar, apesar de recentemente fazer planos de levá-lo em um passeio de barco quando você melhorasse, mas, como você piorava a cada dia que passava, percebi que o mar que iria navegar era outro. Enfim, amigo, tudo é oceano.

As pessoas dizem que os cachorros são os melhores amigos do homem, porque são fiéis, dedicados e obedientes. Nunca concordei com isso. pois acho que o melhor amigo do homem deveria ser o próprio homem. Você sempre foi um cachorro diferente, cheio de vontades, desobediente quase sempre, rosnava quando estava insatisfeito e não foram poucas as vezes que me mostrou os dentes agressivos. No entanto, adorava me seguir para onde fosse e quase sempre presenteava-me com aquele olhar demorado e comprido de incontáveis quilômetros de ternura. Acho que foi por essas características que gostava tanto de você. Pensando melhor, amigo, acho que nem o melhor espelho do mundo refletiria melhor a minha imagem!

Estou muito triste, amigão, principalmente, quando vejo sua casa improvisada embaixo do microondas cheia de ossos que roía e guardava. Vou lhe confessar uma coisa: coloquei o seu nome Aladim pensando no gênio da garrafa, no entanto, nunca tive oportunidade de lhe fazer os três pedidos. Para que, não é? Você não iria me escutar e mesmo que isso acontecesse por obra mágica, da maneira que era voluntarioso, nunca teria a certeza que iria ser atendido. No entanto, Aladim, você me deu um dos maiores presentes do mundo, apesar de nunca ter tido plena consciência desse feito. Você me ensinou na prática a importância do Amor Findo, aquele que falava nos seus Sermões, o Pe. Antônio Vieira. Eu sei que não gostava muito dos religiosos e quase sempre rosnava quando pressentia a presença de alguns deles por perto. Se não me falta à memória, lembro-me daquele dia que estávamos passeando na praça da Catedral quando você ficou assustado com as gritarias histéricas oriundas de um palanque improvisado, o que lhe fez latir incessantemente. No entanto, recordo-me de uma senhora idosa que me cumprimentou com a frase "Jesus esteja convosco" e você se lambeu e balançou o rabo de contentamento.. Tive impressão naquele momento que o nome Jesus lhe soava bem, apesar de não suportar as gritarias daqueles que usam o nome dele em vão..

Sabe, Patuka, (gostava de lhe chamar assim, lembra-se?) você me permitiu com sua fragilidade doentia ter uma experiência plena de um Amor que não necessita de reconhecimentos ou de retornos. Porque dando se conquista e não recebe o amor, pois se o contrário fosse, seria apenas um negócio, não é verdade? Vou confessar-lhe uma coisa: todo o trabalho que me deu, como dar seus remédios na hora certa, ter que voltar para casa para não deixa-lo sozinho, não poder viajar, limpar as suas imensas e copiosas mijadas por todo o apartamento, no começo eram fardos muito pesados e sonhava com o dia que pudesse me afastar deles. Ao longo do tempo, descobri que me doar dava-me imenso prazer e nesse momento sinto uma grande falta desses encargos. O que não daria para estar limpando as suas cagadas e mijadas gloriosas...

Acho que isso é o Amor Findo, Patuskão. Tenho que ter eterna gratidão por ter me proporcionado essa experiência que vai me permitir vivenciar um amor diferente e muito mais abrangente em relação às pessoas e ao meu grande amor, minha filha princesinha. Sabe, houve épocas que deveria ter dado a minha filha muito mais que lhe proporcionei, mas o medo das águas oceânicas fez com que uma pequena ilha se parecesse com um continente. Por fim, quero desejar-lhe uma coisa: apesar de não acreditar nessas coisas de retorno ou reencarnações, mas se por ínfima possibilidade acontecer, desejo-lhe que volte como um lobo, não precisa ser o alfa, mas um simples lobo cercado por laços de solidariedade dos seus irmãos lobos e lobas. E se por um desses infindáveis mistérios da existência se deparar comigo, apenas me olhe nos olhos como sempre fez, levante a cabeça para o firmamento azul, me saúde com um uivo dos que são livres e se vá.

Que os deuses dos lobos lhe proteja!

Ivan Bezerra de Sant Anna


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