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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Meu Pai João

Meu Pai João

Não acho mais estranho que em alguns momentos me sinta como uma criança cheia de perplexidade, mergulhado em um mundo imaginário, onde a fantasia e os pedaços de mundo que chamamos de realidade bailam, dançam e celebram a vida dançada, sem palavras definidas, entendidas, explicadas.

Em um desses momentos criança ouvia os ecos sonoros muito conhecidos na minha infância. Eles falavam de um novo mundo igual para todos, da fraternidade, companheirismo e que os pães e peixes eram a celebração da comum humanidade em um mundo tonalizado pelo pelos raios avermelhados da manhã.

O vermelho está tão pálido, Pai. Não é aquele que falava com cor de sangue, a seiva da vida e quando derramado tinha sua forma de ser e gritar. Ele se parece com um suco adocicado de groselha que ilude, falseia e engana o nosso paladar. Você dizia que os trabalhadores iriam governar o mundo sob o manto vermelho da solidariedade, mas os vermelhos pálidos de hoje tratam os trabalhadores como meros eleitores agradecidos pelas bolsas cheias de restos de pães e espinha de peixes.

Esses homens que viraram suco de groselha, pai, não são os camaradas do passado que ofertavam suas vidas no altar da igualdade, fraternidade e liberdade. Eles agora se chamam companheiros, vestem ternos caros, viajam de jatinhos, compraram grandes propriedades e são trabalhadores que não são pagos por salários, mas por uma coisa chamada de lucro.

Eles compram tudo, pai. Adoram comprar votos, carros, aviões, casas grandes e imensos pedaços de florestas que são logo pintadas com cores de soja e de boi. Acho que eles apagam o verde das matas e colocam em suas notas esverdeadas. Esses mágicos, pai não eram do seu tempo e foi por isso que nunca me falou deles.

Você sempre me falou da importância dos homens inteligentes que gostam de livros e ensinam a pensar. Mas os homens dos livros de hoje, Pai, obedecem a um homem que gosta de olhar livro de cabeça para baixo com olhos ébrios.

Você me ensinou a pensar com as mãos cheias de terra viva, úmida e com os olhos voltados para para o céu dos sonhos. Que faço com eles em tempos de cores pálidas e desvalidas? Você me dizia que todas as pessoas possuem um lindo arco-Iris em um cantinho protegido dos seus corações e que nenhum feiticeiro cruel poderia apaga-lo.

Sei que a minha aquarela é diminuta para colorir essa imensa tela esmaecida por falsos pintores. No entanto, por mais poderoso que sejam não poderão manter a vida em preto e branco. Um dia vai avermelhar de verdade, Pai. Ou melhor: crescerá com força e intensidade uma aquarela com todas as cores solidarias e fraternas.

Em um dia junino, no dia de São João, você que se chamava João, se foi deixando-me os sonhos de amor fraterno, mas a terra é feita de sonhos, não é Pai? Construímos os sonhos impelidos por uma dor necessária e deles somos seus estofos. Era isso que chamava de dialética?

Naquele dia que fiquei triste, no dia de São João, você foi poupado de assistir uma longa e terrível noite mantida por seus colegas de farda, onde acendiam-se fogueiras para queimar livros e pessoas. Essa farda que amava, tanto e quanto os seus livros e poesias, perdeu o verde das matas, tingindo-se de um negro enlutado das noites tenebrosas que, na Democracia fingida de hoje, serve como manto assustador para os nossos magistrados.

Nesse São João vou olhar para as fogueiras, observando o fogo que ilumina e renova a vida, lugar para assar milhos e não livros e pessoas. Vou ver e ouvir as quadrilhas como apenas dança francesa, abrasileirada pelo choro da sanfona, onde a musica ponteia os passos alegres e ritmados das pessoas e não os dedos ágeis dos larápios, ávidos pelo dinheiro público.

Se entre um estalar das bombas juninas e um rojão que coloria o céu, em um certo dia junino resolveu continuar andando na linha do tempo infinito, ao calor da fogueira da vida ficou sua amada companheira, sustentáculo dos seus sonhos e conhecedora do verdadeiro sentido da palavra Amor. Verdade, Pai, pois se você fazia um enorme esforço para vivênciar o conceito de solidariedade, a sua amada por ser mãe e mulher era a própria encarnação dessa grandeza. Se ela abriu mão de alguns sonhos primaveras, o fez para preservar os seus e proteger os nossos. Se você era um Leão, Pai, a Mãe sempre foi uma Loba que não hesitava em mostrar os dentes em defesa dos integrantes da matilha e de vez em quando uivava para a Lua em busca dos seus sonhos que, não eram somente nossos, mas de comum humanidade.


Obrigado pelos sonhos, Pai.



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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Índio quer cotinha


Índio quer cotinha, se não der pau vai comer




Uma verdadeira palhaçada! Uma trágica comédia, onde a única coisa séria que se ouviu foi o protesto de um índio indignado, vociferando contra os privilégios dados aos "afrodescendentes". O índio enfurecido queria cota e no alto da sua indignação, chamava os Excelentíssimos Ministros de urubus, fato esse que provocou a sua expulsão do recinto.

Acontecimentos como esse, deixa patente a ausência de legitimação, prestigio e respeitabilidade do Poder Judiciário. Até o antigo temor reverencial encontra-se ferido de morte e em seu lugar ficou o puro temor, o medo, a espada que paira sobre as cabeças dos cidadãos. Se os doutos ministros acurassem seus ouvidos, sem sombra de dúvidas, escutariam frases em todos os cantos do Pais, nada lisonjeiras, com tonalidades sarcásticas e integrantes de chacotas, anedotas que fariam as piadas de putarias se parecerem com ingênuas rezas de beatas.

O que levou o Poder Judiciário a ficar no ultimo lugar na derradeira pesquisa de opinião pública, em relação ao quesito de credibilidade? Vaidades e trapalhadas seriam as palavras que explicariam a ausência de credibilidade, para não falar em outras mais apimentadas e chocantes. O que mais se escuta são historias tenebrosas sobre bens negociados, valores adicionados, troca de favores e outras coisas mais. E nem sem sempre essas historias são oriundas dos canais informais da fofoca, mas de interpretações sobre declarações iradas de algum ministro, como é o caso do Sr. Joaquim Barbosa. E como não ser um campo fértil para as falações, uma composição de ministros que boa parte foi nomeada sem os méritos jurídicos necessários? O que dizer do Sr. Marco Aurélio, da Sra. Carmem Lucia, do Sr. Peluso, do Sr. Fux e outros tantos? Corre em todo o Brasil a informal noticia de que o Sr. Lewandowski foi nomeado por Lula, atendendo a um pedido da sua mulher que, por seu turno, atendeu a um pedido da sua cabeleireira. Se isso for verdade, nada mais resta acontecer no País do populismo. Que absurdo!!!

Ora, na medida que um juiz vira ativista, possivelmente é impulsionado pela tentação de censurar as leis, transforma-las ou cria-las. Em uma democracia não é isso que se espera dos juízes, mas que eles sejam árbitros imparciais e garantam o processo democrático. Se os juízes viram "políticos" qual a instituição republicana que poderá garantir e dirimir os conflitos com imparcialidade? Não me parece correto do ponto de vista democrático que os juízes legislem sorrateiramente, utilizando-se de princípios vagos, abstratos e indeterminados em nome de uma melhor interpretação justa. Isso é usurpação!

Nem todos os dispositivos constitucionais são de monopólio aplicativo do Poder Judiciário. “O controle judicial, sendo ele próprio uma limitação ao governo popular, é parte fundamental do nosso esquema fundamental. Mas aos legisladores, não menos que aos tribunais, foi confiada a guarda de direitos constitucionais profundamente queridos.” – JUSTICE FRAKFURTER. Em Minersville School dist. V. Gobirtis, 310 U. S. 586 (1940). Essa lição foi proferida em meio a crise constitucional americana, quando os juízes da Suprema Corte insistiam em usurpar o Poder Politico Popular. Dizem ser progressistas os juízes que pousam com ares de legisladores. Essa falsa dicotomia "conservador versus progressista" é ideológica e pecaminosa, pois não foram os juízes ativistas que negaram os diretos dos negros, as legislações trabalhistas até a culminação da crise constitucional de 1930? Quem foi verdadeiramente progressista, os juízes ativistas e censuradores ou o legislador federal que estabeleceu novos direitos sociais? Existe algo mais subversivo e progressista do que a Democracia que é o governo do povo? Assim, o juiz que obedece a lei (a carta ordem popular) é progressivo ou conservador?

São com essas indagações que talvez entendamos as vaidades e trapalhadas de nossos juízes. Trapalhadas? Sim, pois é cômica, defasada e trôpega a decisão do STF que considerou as cotas raciais em sintonia com a Constituição Federal. Dias atrás, a Suprema Corte americana considerou inconstitucionais as cotas raciais discriminatórias de acesso às instituições educacionais. Acrescente-se, ainda, que a Constituição Americana não possui uma clausula constitucional explicita e determinada como é o caso do parágrafo IV do art. 3º da CF do Brasil, no entanto, entendeu o colegiado que as referidas cotas de acesso feriam á clausula de igualdade entre as raças.

E quais foram os argumentos jurídicos apresentados por nossos ministros? Jurídicos? Nenhum!

"É uma classificação racial benigna, que não se compara com a discriminação, pois visa fins sociais louváveis", disse, Luis Fux, e com pose de contabilista, arrematou: "existe um défcit histórico, por consequência da escravidão" Em um voto rápido, Barbosa, o único ministro negro da Corte, disse que os críticos das cotas são, normalmente, aqueles "que se beneficiam ou se beneficiaram da discriminação da qual são vítimas os grupos minoritários"

Pelo que parece, essas razões bem que poderiam estar contidas em um livro de história, mas nunca batizadas pelo manto do jurídico, com a finalidade de abrir uma exceção ao §4º do art. 3º da CF. Apesar de a nossa Constituição não ceder espaço para esse tipo de discriminação, vamos tentar um raciocínio absurdo. Discriminação para o bem de quem, Senhores ministros? Do falido ensino público que teria que se adequar para receber os alunos "pretos e pardos" de 2ª classe? Da sociedade produtiva que teria de escolher entre os diplomados "pardos e negros" e diplomados "brancos", sob o critério da competência? Para o bem dos "negros e pardos" que agora os senhores deram um atestado jurídico de inferioridade?

Oh, senhor Barbosa! Que palhaçada! Logo o Senhor, um negro que conseguiu vencer pelos seus méritos, assinar um atestado de inferioridade para os "negros e pardos"! Sei que seu voto foi envergonhado, mas do Senhor, esperava-se mais. E quem são "pardos e negros" nesse País, Senhor Barbosa? Como os caracterizaria, Senhor? Se for pela descendência, toda a população brasileira é "parda e negra". Pelo cabelo ou pelo nariz, Senhor? Existe alguma pele branca nesse País ou apenas uma enorme variação tonal que vai do "menos preto" ao "mais preto", Senhor Barbosa?

Fico me perguntando se como descendente dos negros devo alguma coisa a eles. Não seria uma confusão Juridica ser credor e devedor ao mesmo tempo? E mesmo que fosse branco ariano como poderia ser penalizado por algo que meus antepassados fizeram? Não seria a aplicação da fábula do lobo e o cordeiro? E ainda existe um pequeno detalhe histórico: não eram as próprias tribos Bantus que, guerreando entre si, aprisionavam e vendiam os seus irmãos de cor para os mercadores?

Mas os nossos ministros pouco estão se importando com a estrutura juridica constitucional. Vaidosos, eles pousam de supercientistas, os sábios platônicos que vêem nas nuvens os princípios reitores da Justiça. Pouco importa que uma norma constitucional defina o casamento como a união de um homem com uma mulher, pois lhes foi ofertado (ninguém sabe por quem) o poder de reescreverem a norma, incluindo "homem com homem" e "mulher com mulher" como casais constitucionalizados. Nova época, novos padres casamenteiros. Em verdade, eles são privilegiados por uma inteligência superior. Enquanto os mortais e limitados entendem que os direitos são históricos e frutos de muita luta política, os nossos Avatares do Judiciário descobriram que esses direitos sempre existiram em algum canto do universo, esperando que uma mente brilhante percebesse seus indícios, entre uma palavra ou outra de um principio abstrato, digno de um Deus abstrato.

Como a população não entende dessas filigranas jurídicas e filosóficas, quando não fica pasma, dá sonoras gargalhadas das trapalhadas dos nossos juízes. Embora quase sempre as trapalhadas judiciais não sejam de bom tom para um governo democrático, não deixa de ser risível. Afinal, existe uma lógica Juridica ou uma confusa enciclopédia de piadas forenses? Seja lá como for, deve-se estar atento para o lembrete de Rui Barbosa que era uma pessoa muita séria e arredia às piadas. Ditadura do Judiciário, mesmo que vestida em mantos carnavalescos, é a pior tragédia para a Democracia, pois não é um governo tirânico de um só homem ou de uma oligarquia, mas uma invasão bárbara de uma horda composta de pessoas confusas, vaidosas e anárquicas.

E lá para as bandas do bananal, "índio quer presente mais bonito". Índio quer auxilio moradia e alimentícia, de preferencia retroativa aos tempos de Pedro Alvares Cabral. Se os juízes ganharam, mesmo a Constituição dizendo Não, por que não ter o mesmo direito, os pobres índios em arribação? Índio quer cotar; índio quer apito, Senhores Ministros, os novos governadores da nação.

Ivan Bezerra de Sant Anna - Data Vênia aposentado sem aposentadoria.


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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Prezado Luís

Prezado Luís:





Não lamento o seu afastamento do mundo dos vivos, pois vivos todos estamos. No entanto, foi prematuro ter se afastado dessa vida entremeada de alegrias, dores, anseios e acasos, por uma mera presunção que tudo podemos, inclusive, cuidar da nossa saúde. Compreendo-o, prezado amigo, pois nunca tive grande admiração por esses senhores que se arrogam vestirem o manto de Deus. Entretanto, com a maturidade alcançada pelos passos dados ao longo do tempo infinito, vejo-os com olhos benevolentes, pois se na atualidade as pessoas alcançam maior longevidade, isso acontece não por obra das crenças, beberagens, chás, dietas vegetarianas, mas pela evolução da ciência médica, aplicada por profissionais sérios.

Fernando Pessoa, em um dos belos poemas, disse que "morrer é só não ser visto", frase poética que concordo plenamente. As pessoas não me enxergam, mas vejo-as com nitidez cristalina. Por esse motivo, fui gratificado pela sua devoção à minha obra intelectual composta de ensaios, poesias e contos que estava prometida ao esquecimento, não fosse a sua determinação e amor por ela. Como hoje a vaidade não é mais um dos meus atributos, percebo claramente que seus esforços e talento estavam além do real valor da minha produção intelectual. Confesso-lhe que escrevia com mais estilo e talento do que eu, dando às frases e parágrafos os tons sublimes da poesia na sua evocação rítmica e melódica e quase sempre tinha um gozo supremo ao percorrer meus olhos sobre elas.

Caro Luís, com a sua submissão devocional à minha obra, você esqueceu da sua produção intelectual que ficou relegada aos escritos jornalísticos e ensaios culturais que, a bem da verdade, ficou devedora do seu real talento. O que realmente produzi? Ensaios filosóficos que tiveram o mérito de introduzir e divulgar a filosofia alemã, mas que estavam ausentes de inovações criativas, tal como fizeram Kant, Hegel e outros. Se minhas poesias eram bem metrificadas e melódicas, faltaram-lhes, entretanto, a pujança emocional e a reflexão sobre as mudanças do mundo. Hoje vejo por que motivo perdi Eugênia Câmara para Castro Alves, poeta baiano que emocionava e impulsionava as pessoas com suas belas frases poéticas. Na minha qualidade de mulato, deveria ter sido o poeta da abolição e não Castro Alves, mas em vez disso, estava publicando um jornal escrito na língua germânica, buscando reconhecimento e aplausos da platéia ariana.

Aplausos você teve muitos, amigo, e talvez esse fato tenha colocado freios à sua produção intelectual. O verdadeiro artista busca em si os aplausos para cada momento artístico construído e não os aplausos externos das pessoas que, na maioria das vezes, são falsos, bajuladores e manipuladores. Esses aplausos lhe levaram ao convívio com pessoas medíocres e a aceitação de um patronato de uma certa família poderosa que se dizia herdeira do mecenato. O seu estratégico e relativo silencio que se manteve durante a ditadura militar que assolou a Nação foi devidamente pago com a moeda faceada com a traição, ofertada pelo Príncipe herdeiro de uma certa dinastia. Humilhado, decaído e desempregado, felizmente, teve uma mão estendida por um pobre e esforçado professor de matemática que se tornou Reitor.

Acho que o meu maior pecado foi não ter sido rebelde o suficiente para honrar a minha inteligência e o devir humano. Faltou-me audácia para encarar os desafios libertadores e humildade para sentir com mais suavidade as dores atrozes de uma queda. Infelizmente, meu prezado amigo, esse foi o nosso maior pecado. A nossa imensa vaidade tornava-nos reféns de pessoas medíocres, bajuladoras, morcegos sugadores de sangue e das elites manipuladoras. Do lugar onde estou, entre uma caminhada e outra, às vezes paro e olho para trás. Recentemente, alguns meses antes do seu passamento, observei que estava empenhado na criação da Sociedade Sergipana de Filosofia, fato esse que me causou grande espanto. "Apesar de escrever divinamente bem, os conhecimentos filosóficos de Luís são muito diminutos", pensei. Verdade, amigo, somente uma grande dose de vaidade pode explicar esse despropositado intento.

Prezado Luís, quem sabe em um dia qualquer, nos caminhos cruzados do tempo infinito, não possa encontra-lo? Será um grande prazer me deliciar com a sua imensa inteligência e alongarmos uma conversa prazeirosa sobre os atributos dos seres humanos. Talvez ajudado por sua mente luminar, entenda finalmente porque Cristo disse que os humildes herdarão a Terra. Vamos corrigir, não é, meu amigo: os inteligentemente humildes.

Tobias Barreto de Menezes

(Texto psicografado por Ivan Bezerra de Sant Anna)




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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Farone



Caro amigo:

Não sei se consegue ler essas "mal traçadas linhas", mas pela força do meu desejo e os imensos mistérios da existência, tudo é possível. Espero que esteja bem, alegre, pilheriando como de costume e que o seu novo caminho seja permeado com os trinados dos pássaros em revoada sob o manto diáfano das manhãs e que os contornos sinuosos das mulheres com os seus colos gentis sejam uma presença constante. Desejo-lhe uma versão do paraíso? Não é bem isso, Farone, mesmo porque não acredito em nenhuma religião e sempre achei a crença uma ferrenha inimiga do Pensar. No entanto, deixo-me acalentar com a idéia de um caminhar sobre uma linha do tempo infinita. Onde vai dar isso? Sei lá. Acho que o importante é a viagem, ou como você sempre dizia: viver é o que importa.

É bem verdade que nunca tive a oportunidade de conversar com você em suas diversas residências. Quando morei no Condomínio Morada do Rio, algumas poucas centenas de metros nos separava, no entanto, as inúmeras farras que lá acontecia eram obstáculos que não ousava transpor. Observava que nos fins de semana uma verdadeira procissão de carros se dirigia para a sua residência, pois os ocupantes dos veículos sabiam que iriam comer e beber gratuitamente. Era um homem generoso, gostava de estar cercado de pessoas e por essa razão assisti com muita tristeza como os seus amigos cachaceiros abandonaram-lhe quando passou por dificuldades financeiras.

Não sei se me considerava um amigo, no entanto, todas as pessoas boas e generosas são meus amigos e você está incluído entre elas. Uma certa vez perguntei-lhe se não tinha alguma mágoa das pessoas que lhe abandonaram. Lembro-me que riu e disse: "Faço porque gosto de fazer e isso me dá um imenso prazer. Tanto faz se as pessoas ficam agradecidas ou não". Assim era Farone quando da sua curta estadia nesse mundo que conhecemos. Gostava de vê-lo brincalhão, irônico, com uma resposta na ponta da língua, entretanto, entristecia-me quando verificava que suas mãos estavam trêmulas, imprecisas e mal podiam segurar um cigarro. A bebida que tanto gostava não iria lhe permitir uma caminhada mais longa sobre a linha tempo cronológica e existencial. Seus "amigos" cachaceiros e algumas pessoas querendo dirimir a dor da sua ausência dizem que você viveu o bastante e com muita densidade.

Será mesmo que viveu o suficiente, amigo? Não tenho duvidas que viveu com muita densidade, no entanto, viveu até a exaustão máxima das suas potencialidades? Você diria que não, pois por mais passos que deu sobre a linha existencial, nunca admitiria tê-los dado o suficiente. Algumas pessoas da sua convivência diária respondem de maneira afirmativa, mas como convivo com a duvida, a filha dileta do Pensar, não possuo uma resposta conclusiva para essa questão. Se recorresse às imagens do passado que mostravam você radiante, cheio de entusiasmo e sob o auspício de um copo sempre cheio, responderia que sim. Mas, ultimamente quando me encontrei algumas vezes com você, sempre acompanhado por suas filhas, com um bondoso sorriso sóbrio nos lábios e com os olhos cheios de esperança na sua sobrevivência, diria que não.

Faltaram os passos da velhice, aquele andar despreocupado sem compromisso com posses e desejos pessoais que só o avançar da idade pode propiciar. Mesmo que a maioria dos idosos não consigam perceber, tenho a mais ferrenha certeza que você conseguiria entender que a idade não lhe tiraria coisa alguma, mas lhe daria ampla liberdade para apreciar a beleza e a dor do mundo como espectador engajado, assim como uma criança observa o vôo do colibri, notando que a somatória dos novos detalhes fazem grandes diferenças. Como sempre teve olhos de criança descobriria que nessa idade devemos ser revolucionários desapegados, espectadores engajados, crianças com olhos curiosos e sonhadores inveterados. Essa faixa de idade nos libera para a imaginação, para o sonho, mas uma maneira de sonhar diferente, mesclando as nossas experiências existenciais contidas em nossos baús com os nossos atuais projetos imaginados. Finalmente, damos uma mão para Dionisio e a outra para Apolo. Uma certa vez estava assistindo um noticiário na televisão, quando a repórter enfocou um protesto público em um certo país. Em certo momento, o repórter disse que a sociedade estava protestando e qual foi a imagem que ele mostrou para exemplificar? Pessoas idosas que gritavam indignadas! Você imagina a força dessa imagem? Se a imagem fossem de jovens gritando, possivelmente os telespectadores pensariam: "isso é coisa da juventude". Mas a imagem de pessoas idosas protestando somente uma idéia ocorre: "a sociedade está revoltada".

Conheço um velho espanhol que adora beber café com conhaque. Os filhos reclamam que ele cada vez mais se torna irreverente, sátiro, irônico e criador de histórias improváveis. "Meu pai atualmente inventa historias fantásticas sobre seu passado que sabemos nunca terem acontecido, pelos menos com o esplendor que ele ornamenta", dizem rindo. O que os seus filhos não percebem é que o velho espanhol em decorrência da idade conquistou sua liberdade para ter olhos de criança e falar sem precisar prestar contas a ninguém. Ao remexer o seu baú existencial ele busca suas experiências vividas para mesclarem-se com seus sonhos, criando histórias que reúne a sua experiência passada com os seus novos anseios. Não são histórias inverídicas, falsas, mas baseadas em um realismo fantástico que mostram novas possibilidades e um novo mundo. Dessa forma, quando ele relata as suas lutas contra o franquismo não está inventando, pois esteve lá e viveu essa época, no entanto seus relatos nos dizem o que ele deveria ter feito se tivesse a coragem e a consciência que tem hoje. Suas historias não só relatam o passado, mas são prognósticos, são parábolas que apontam para o futuro. Uma certa vez, me disse: "Olha, falam que sou um irresponsável por dizer as coisas que digo. Entretanto, eles se enganam. Se não tenho mais responsabilidades com os desejos sexuais, com o consumismo de bens, com apegos às coisas materiais, isso não quer dizer que sou um monge louco ou um budista. Ao contrário, hoje possuo maior responsabilidade para com as pessoas que vivem em comunidade do que tinha antes. O que faço é tentar com minhas palavras despertar essas mentes adormecidas para que elas meditem e reflitam".


Lamento, amigo, por não ter tido essa oportunidade, mas tenho a absoluta certeza que iria aproveitar bem, pois as suas recentes publicações no Facebook levam-me a essa conclusão. No entanto, manter acesos os olhos de criança na fase adulta é um desafio permanente com riscos consideráveis, pois é estar sempre em estado de embriaguez com a vida que muda sem cessar. Muitas vezes embriagamos a nossa mente para não sentir a embriaguez da vida que tenta nos colocar em estado permanente de mudanças e mudar às vezes é muito doloroso. Não estou a lhe criticar, amigo, pois todos temos nossos vícios que, bem ou mal, dão um pouco de suavidade às nossas dores.

Devido aos mistérios do mundo, quem sabe não vai ter tempo de sobra para novas oportunidades? Apesar de não crer nos deuses, rezo por isso, amigo.

Ivan Bezerra de Sant Anna


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terça-feira, 6 de março de 2012

Eu te perdôo, Senhor

Eu te perdôo, Senhor





Essa semana comemora-se o Dia Internacional da Mulher. "O dia internacional da mulher é todo dia", dizem, algumas pessoas. "Isso é descriminação! Não existe o dia internacional do homem", afirmam, outras. Polêmicas à parte, queiram ou não queiram seus detratores, o dia existe. Uns dos processos mais eficientes das religiões, mais de perto a Judaica, são os rituais de intervalos repetidos para rememorar acontecimentos que devem ser fixados como, por exemplo, o Natal, a Paixão de Cristo, o Bar Mitzvah, Yon Kippur (o dia do perdão), dentre outros. É que os históricos formuladores dessas religiões sempre levaram em conta as fraquezas humanas e a fragilidade da memória em confronto com a linha do tempo. Então, porque não reavivar a memória em determinados momentos, introduzindo permanentemente os atos de reflexão e o pensar? Melhor seria se fossem reservados uns poucos minutos diários para essa reflexão. Não seria uma boa oração?

Se os religiosos podem criar orações, não vejo obstáculos para que não possa criar a minha. No entanto, devo deixar claro que as mulheres referidas na oração são abstrações, sem qualquer associação com pessoas concretas, inclusive comigo, pois me considero uma pessoa afastada dos ranços machistas, por ter tido a graça das presenças luminosas de mulheres maravilhosas, dentre as quais destaco, minha mãe e minha adorada filha. Vamos orar?

"Meu amantíssimo Deus, ouso dizer nesse dia que não desejo o perdão das mulheres por meus atos de violência e desamor. Quero perdoá-lo! Sei que seria mais honesto da minha parte pedir-lhe perdão por meus atos deploráveis, no entanto, meu Pai, sempre fiz isso, mas nunca mudei. Entra ano e sai ano e continuo solitário, pecador e estou muito cansado.

Se não tens sexo ou possui todos os sexos do firmamento, quero perdoá-lo por aquela história do barro, da costela de Adão e da Cobra. Se o meu Pensar foi dádiva sua, então é divino perceber que tanto os homens e as mulheres se originam do mesmo barro, possuem costelas, e a cobra, longe de ser maldosa, na verdade era um prazer a mais no multicolorido visual do Paraíso. Quero ainda perdoá-lo, Senhor, por não ter dado o mesmo tratamento carinhoso à sua filha Maria, que dispensou ao seu predileto filho, Jesus, pois na hora do calvário foi Maria, e as outras duas Marias que velaram corajosamente o seu pupilo, enquanto os homens apóstolos estavam escondidos.

Meu Deus amado, vou lhe perdoar por minha amada mãe não ter conquistado um espaço social como cidadã e seus direitos fundamentais como pessoa, e mesmo que os obstáculos fossem, naquele momento histórico, intransponíveis, pelo menos me contasse historias de ninar onde as mulheres tivessem relevo. Como poderia ser um homem diferente se não tinha um modelo de mulher diferente em casa? Senhor, hoje percebo que a causa da minha fragilidade e necessidades atuais foi, na época da minha meninice, não ter existido como guia, as fortes mãos maternas. No entanto, as mãos carinhosas de mamãe não sabiam a força que tinham e me davam as algemas para serem usadas em outras mulheres.

Meu amado Senhor, vou lhe perdoar por minha mulher ter sido minha posse e ter abdicado de sua inata liberdade, do seu viço sensual atávico, da sua sexualidade exuberante e desejosa, de ter tentado substituir minha mãe. Ela bem poderia ter me ensinado, mesmo com toda a minha resistência de macho territorial, que as "outras" são mais gostosas porque são livres e que o sexo-prazer não é exclusividade masculina. Poderia ter mostrado-me que a idade não lhe tirou a graça e a sua sexualidade, mas lhe deu outros contornos maduros, em decorrência do seu constante cuidado com o templo da sua alma. Enfim, Senhor, como sempre fui pequeno, imaturo e limitado quanto à grandeza da vida, ela poderia ter me ensinado com todo cuidado pedagógico que o amor não é posse e nem ciúmes, mas carinho, companheirismo e cumplicidade.

Meu Senhor do Universo, lhe perdôo por minha filha por não ter aprendido que seu homem não é seu filho mimado e protegido, mas uma pessoa que por destinação precisa crescer e só conseguirá esse intento, com o seu prestimoso auxilio, pois será ela que lhe mostrará a sua comum humanidade. Perdôo-o, ainda, Senhor, por ela acreditar no amor romântico, fechado em conchas, dois-em-um, obcecado, onde um é a tábua de salvação do outro, que, em um momento, um Romeu apaixonado; em outro, Otelo assassino.

Meu Deus que maravilha o mundo, perdôo-lhe por todas mulheres do mundo que se deixam matar por imbecis machistas que confundem o amor com um ciúme possessivo e doentio, pois quando estão encantadas só vêem o belo sorriso do macho e não os seus dentes. Perdôo-lhe, ainda, pelas suas submissões às chantagens sexuais, aos salários inferiores, às repressões de suas fantasias e às diversas discriminações.


Entendo, porém, que devo pedir desculpas, Senhor, e o faço, nesse momento, com imensa alegria. Peço perdão a uma mulher excepcional, Senhor. A mulher que mora no seu reino, em companhia de tantas outras entidades. A mulher que até esse momento forcei o seu silencio, impedindo-a de se manifestar na tribuna democrática do meu Ser. Ela poderia ter me revelado que o lugar central do meu ego é um local que deve ser ocupado por todas as personas e mesmo que algumas delas não tenham o poder de influenciar as minhas atitudes, entretanto, devem ter o direto de serem ouvidas. Poderia me dizer, ainda, que todo macho caçador na sua ânsia de colecionar troféus, o que verdadeiramente almeja é matar simbolicamente a sua mulher interior, e por sua atitude tirânica em relação a ela, tem medo que ela assuma permanentemente o lugar central do seu ego. E com a ausência da mulher interior é impossível amar verdadeiramente as mulheres A repressão gera forças antagônicas irresistíveis, tirânicas, que podem usurpar o espaço dialogal do Ego e subverterem a sexualidade.

Em verdade, Deus meu, ao lhe perdoar, tento gritar para elas que lutem, desbravem a escura floresta da repressão, assumam o comando da libertação existencial, pois os homens jamais irão ajudá-las nessa tarefa porque são "mijadores de cantos". No entanto, ao pedir perdão à sua filha, peço a todas as mulheres do mundo, suplicando que lutem contra a nossa repressão, dando-nos humanidade e liberdade para amar verdadeiramente.

Por fim, meu amado Confessor, se as minhas palavras não lhe agradaram, paciência! Ouso-lhe dizer que não irei lhe pedir perdão, pois sou ou não, feito à sua imagem e semelhança? Enfim, a bem da verdade, você também existe, porque elas existem."


Ivan Bezerra de Sant Anna




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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Ô, ô, ô, Aurora

Ô, ô, ô, Aurora





Você está perto do palco, pulando, rodopiando, embalado pelo ritmo frenético do frevo Vassourinha. Você pensou: "não é a Banda Spock Frevo, mas, tudo bem. Precisamos dar valor a prata da casa". Mas, você está chateado, pois a banda pernambucana tocou no Pré-Fabi, afogada pelo caudaloso rio do axé, trepada nas costas de um caranguejo morto e eletrificado. Mas, nessa festa tudo pode acontecer. É uma festa das elites e o dinheiro da Loba, com suas tetas generosas, corre solto, tal qual os corruptos "da nossa Pátria tão distraída", dormindo em berços esplendidos. Coitada da bichinha: nunca percebeu "que era subtraída, em numerosas transações".

Você gosta de pular no meio do povão, pois acha que isso é Carnaval, a festa da inversão, da sátira alegre, do humor descontraído, sem as cordas excludentes, e, por conseguinte, sem violências e estiletes cortantes. Até a Policia se comporta com respeito necessário que os foliões merecem. Mas, você está preocupado com a possibilidade de alguma garota aparecer fantasiada de Rita Lee. Nunca se sabe. Não importa o cheiro da erva, porque tudo é alegria e os policiais estão com as expressões "numa boa" e Marijuana, Loura Suada, Maria Pinga são garotas muito apreciadas nas festas de Momo.

"Eh, eh, eh, eh, índio quer apito se não der pau vai comer..."

Você sabe que "ala dos barões famintos, bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do bulevar" não gostam de "colar esquisito", pois "índio quer presente mais bonito". Indio não quer corda, nem camarote: "índio quer apito". Embora não seja um deles, você se contagia com a "indagem", sente-se em harmonia com o povo e chega até acreditar na comunhão cristã. Mas você está triste, nesse momento. Onde se encontra a juventude esclarecida, protestante, com suas roupas simples e alarmantes, seus cabelos de revolta pura e seus livros sobre o negro, a exclusão e a sociedade? Você percebe que eles escrevem, falam, fazem música sobre o povo, mas não se misturam com ele. Talvez isso explique porque esses garotos adoram desfilar nos blocos fechados do Pré-Fabi, todos uniformizados, com uma mão balançando o abadá e com a outra, acenando para as câmeras e para os pais nos camarotes.

Eles compõem o grupo chamado de juventude contida, masterizada, consumista, com rostos alternativos "vá se fuder" e "mamãe eu quero". Eles são do círculo paz e amor, não "com os dedos em V, cabelos ao vento e gente jovem reunida", mas cantando "O meu carnaval é em salvador, tem beijo na bôca aqui impera o amor" do chicleteiro Mel e de tantas outras, igualadas pela mediocridade. Eles sabem que no carnaval paz e amor do axé ou no Pré-Fabi, não podem se misturar com o povo na poeira dos trios, na rabada dos blocos, pois "índio quer presente mais bonito... e se não der, pau vai comer". E agora vai comer mesmo! Como a musa do axé, Ivete Sangalo, resolveu aconselhar a todos os pedófilos jantarem com muita gula as garotinhas, as meninas petistas vermelhinhas que se cuidem e tomem cuidado, principalmente nos camarotes, lugares infestados de lobos maus.

"Mamãe eu quero, mamãe eu quero... Mamãe eu quero mamar..."

Você gostou quando a excelente orquestra, Los Guaranis, tocou essa marchinha e a menina que mamava uma imitação de pênis acoplada em uma lata de cerveja, também gostou. O povão adorou, agitando-se com muita alegria, pois, afinal, mamar é o primeiro ato prazeiroso da nossa existência. No entanto, existe mamadas e mamatas. O povão aprecia as inúmeras variações da primeira opção, mesmo porque a segunda está fora do seu alcance. Verdade seja dita: duvido que você tenha visto algum apreciador da segunda opção, dançando no meio do povo. Tal impossibilidade se dá em virtude dessas pessoas serem apaixonadas pelo povo somente no momento de pedir o voto, e mesmo assim, mantendo uma distancia respeitosa. Você está pensando em sugerir ao vereador Robson Viana que construa camarotes no Rasgadinho e dessa forma, quem sabe, o Sr. Prefeito poderia se fazer presente, como usualmente acontece no Pré-Fabi. Dessa forma, você poderia gritar com toda força dos seus pulmões cachimbados:

"Hoje vou sambar na rua/ você vai de galeria/ quero que você assista/ na mais fina companhia/ Se você sentir saudade/ por favor não dê na pista/ bata palma com vontade/ faz de conta que é turista"

Sei que você está triste pela ausência do antigo aliado das lutas pelo socialismo, o camarada Edvaldo Nogueira, na época um jovem simples, de sorriso franco que rejeitou o passado cultural alagoano da peixeira e do trabuco, trocando-o pelas palavras concientizadoras. Mas o passado é difícil morrer, pois muitas vezes mata-se o Príncipe, mas deixa-se intacto o princípio. Mas é Carnaval, e nesse momento você saúda algumas pessoas que passam formando um trenzinho. Você não sabe que são, que fazem, como vivem, mas não importa. Nesse instante, são pessoas iguais a você, unidas pela música, cadenciadas pelo ritmo, como deveria ser, como você sempre sonhou o socialismo. O cantor da banda cantarola:

"Meu coração é vermelho (Hei, Hei)/ De vermelho vive o coração (Ê, ô, ê, ô)/ Tudo é garantido após a rosa avermelhar/ Tudo é garantido após o sol vermelhecer"

Você sente uma pontada de tristeza. Já vai amanhecer e com a noite se vai a alegria igual.

Você pensa: o amanhecer também pode ser vermelho.

A banda lança os últimos acordes:

"Se você fosse sincera, ô, ô, ô, Aurora/ veja só que bom que era, ô, ô, ô, Aurora"


Ivan Bezerra de Sant Anna




Publicado no site http://ibezerra.xpg.com.br e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/






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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

... Desculpe o Auê, eu não queria magoar você...

... Desculpe o Auê, eu não queria magoar você...




Oh, menino, quanta confusão! Desculpe chama-lo assim, mas não me acostumei com o nome Governador. Para mim será sempre Deda, aquele menino sonhador, eloqüente, que tinha um brilho cativante nos olhos. Éramos de tendências políticas diferentes, mas gostava da sua leveza, do seu jeito cativante de estar sendo, da sua tolerância às idéias que divergiam. É verdade que às vezes me assustava com a sua vaidade, quando resolvia realçar as cores da sua cauda, mas ninguém é perfeito. Gostávamos muito da Rita Lee, lembra-se? Íamos para as noitadas, que fumacê, não era, menino? Não tínhamos preconceitos, pois isso fazia parte desse tal de Rock-and-Roll.

"É proibido fumar
Diz o aviso que eu li
É proibido fumar
Pois o fogo pode pegar

Mas não adianta o aviso olhar
Pois a brasa aqui agora eu vou mandar
Nem bombeiro pode apagar"

Era assim, menino. Você deve estar lembrado, pois o Poder muda as pessoas, mas não apaga as suas memórias. Caretas, "numa boa", politizados, alienados, todos juntos curtindo Paz e Amor, sob o som da Rita, lembra-se? E quando tocava...

"Meu bem você me dá
Água na boca
Hum! Rum!
Vestindo fantasias
Tirando a roupa
Molhada de suor
De tanto a gente se beijar
De tanto imaginar
Imaginar!
Loucuras..."

Que bom, não era? Sinto-me saudosa quando lembro...

"Olha meu irmão
Vamos passear, vamos voar
Dê a partida, acelere a vida
Vamos amar
Ande depressa
A vida tem algo mais para dar"

Daquela época, quase nada restou, não é menino? Nem mesmo as fantasias dos carnavais que gostávamos, pois hoje lhe vejo em um camarote vip no Pré-Fabi, bebendo whisky na companhia daqueles que outrora eram seus inimigos ideológicos.

"- Por que whisky sim? Por que Cannabis não?
- Cuidado com polícia
Cuidado com ladrão
Não seja condenado a votar em canastrão
Obrigado não
Obrigado não"

De onde eu estou, menino, dá para ver tudo. Vi a Policia ostensivamente prendendo os garotos, fazendo revistas em busca da marijuana, semeando o medo e promovendo a tristeza. Menino, essa festa não era um Pré-Fabi, onde as cordas da exclusão incita as estocadas de estiletes e o roubo. Era a festa de despedida dos palcos da maior roqueira brasileira e como você acha que ela iria se comportar?

"Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Não provoque!
É Cor de Rosa Choque"

A sua Policia sem preparo para policiar eventos dessa natureza, provocou, menino. Claro que a Atalaia Nova não é mais aquele paraíso que conhecíamos e que tudo levava a crer que se transformaria em uma Praia do Forte. Mas para que tanto preconceito com bairros humildes como a Terra Dura, Aloque ou mesmo a Atalaia Nova? Aliás, dizem por aí que a Policia está sem comando e quem manda é uma tal de Associação que promove passeatas, enfermidades coletivas para não trabalhar e outras coisinhas mais. Cuidado, menino, um governo democrático não pode ser confundido com um governo fraco e a quebra da hierarquia militar sempre foi um poderoso adubo para os movimentos golpistas. Onde se encontra o menino que conheci?

"Hoje mesmo eu te vi
Pensei que fosse o seu pai
Que decepção
Eu fiquei triste de ver
A sua vida começando pelo lado errado
E você está acreditando mesmo
Que gente fina é outra coisa
Mas gente fina é outra coisa"

Que horror! Será?

"O ovo frito, o caviar e o cozido
A buchada e o cabrito
O cinzento e o colorido
A ditadura e o oprimido
O prometido e não cumprido
E o programa do partido
Tudo vira bosta..."

Meu Deus!!! Será que os versos da Rita são proféticos?

"Por que você diz que vai fazer e não faz
Assim não da mais
E eu não posso deixar
Se alguém coisa esta errada eu preciso falar
A verdade
A verdade"

Cuidado, menino. A vida é cheia de surpresas, de imprevistos e ás vezes é como andássemos bêbados em uma corda bamba. Você vive cercado de bajuladores, oportunistas e de inimigos por todos os lados. Será que seu Vice quando assumir vai lhe garantir uma eleição folgada para o Senado? Ele diz que sim, mas você o conhece bem ao ponto de saber que a sua ambição em ser Governador pode leva-lo à pratica do voto camarão. E quem Amorim vai dar maior preferencia, a você ou ao irmão? E possivelmente, você não vai ter aquela ajudazinha financeira de Lula na ultima hora que lhe possibilitou ganhar do Negão, segundo alardeia pelos cantos da cidade, Jackson Barreto. Que sinuca de bico, menino. Abra os olhos, senão...

"Hei você!
Gigolô de opinião
Primo do Papa João
Vai acabar sua mamata
A sua vida é uma farsa"

Alô, se ligue, garoto. A vida não é só dinheiro e poder. Do lugar onde me encontro posso lhe falar isso com muita segurança. Vejo que o alagoano Edvaldo progrediu muito. Lembro-me dele tentando tocar bateria em um conjunto de rock, enquanto você fazia um filme em sua super 8, ao mesmo tempo que tentava me explicar as técnicas da filmagem. Depois ele virou zabumbeiro e na atualidade, construtor. Geralmente é nisso que dá a luta de classe impulsionada pelo ressentimento, pois o ódio e amor são almas gêmeas e a burguesia tem seus encantos. Acho que você seria mais feliz se tivesse optado pelo cinema e quem sabe se não teria sido premiado com o Oscar? Acho que você está pensando que estou louca, não? Você sempre dizia isso quando eu insistia em uma hipótese que não lhe agradava.

"Sim! Sou muito louca
Não vou me curar
Já não sou a única
Que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz!
E não é feliz!
Eu sou feliz!..."

Sabe o que você deveria fazer?

"Num programa de índio
Vá rodar um cachimbo
Que é pra paz não dançar na tribo"

Tchau, baby. Estou zarpando. Grana e poder? Tô fora! Quer saber de uma coisa?

"Sou nova demais pra velhos comícios
Sou velha demais pra novos vícios"


Texto de Heloísa Matos, psicografado por Ivan Bezerra de Sant Anna.







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