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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Normas programáticas ou programistas?

Normas programáticas ou programistas?





Estava no shopping em companhia do amigo Zé Rollete (aquele que nasceu na Praça da Bandeira em Milão) quando passou uma garota com um rebolado estudado usalmente para certas ocasiões, deixando-nos um convite para um show daqueles em que a dançarina começa vestida com austeridade vitoriana e termina como Eva, contorcendo-se em uma macieira. Outro amigo que estava presente e adora mostrar-se erudito, não perdeu tempo: "Essa garota é programática", exclamou com um sorriso vincado pelo orgulho. Zé Rollete que não perde um milímetro de oportunidade para chatear o nosso intelectual, disse: "Jumento, programática é uma garota que se chama Norma, anda com uma balança na mão e mora em um local chamado de Constituição. Essa que passou é programista". Nosso poeta não se dando por vencido, fulminou: "Dá no mesmo, otário. Essa que passou também usa uma balança para pesar o dim-dim de certos "garotos" que adoram passar a noite nas boites ouvindo as músicas bregas do José Augusto".

O tempo passou e em determinado dia encontrava-me frente a um televisor, quando apareceu Alexandre Garcia comentando sobre uma possível farra de liminares judiciais e sobre a tendência de jurisdicização da medicina. Segundo o comentarista, os juízes estavam expedindo liminares judiciais para compra de remédios em laboratórios, inclusive para medicamentos em fase experimental, sem a devida autorização da ANVISA. E mais: que determinado juiz tinha forcado a compra de medicamentos para oito pessoas que custaram aos cofres públicos a modéstia quantia de 40 milhões de reais! Que diabo é jurisdicização da medicina? Em primeiro momento tive um sobressalto, imaginando um juiz vestido de branco com um estetoscópio em uma mão e na outra um martelo. Os meus batimentos cardíacos foram para enésima potência, no entanto, respirei fundo e resolvi estudar o assunto com vagar.

Com o transcurso dos estudos, percebi que não corria o risco de me deparar com um juiz ameaçador, munido com um terrível bisturi (pelo menos, por enquanto) mas, no máximo, com um super secretário da saúde togado e mandamental. Ufa, que alivio; dos males o menor!

Por que os juízes estão se dedicando com entusiasmo crescente a uma função de gerenciamento de medicamentos? "Estamos cumprindo os artigos 196 e 197 da Constituição Federal. Se os administradores não obedecem, sentimo-nos na obrigação de subrogar", defendem-se os magistrados. Afinal, qual o conteúdo dessas terríveis normas constitucionais que sobrecarregam os pobres juízes? Vamos verificar:

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Art. 197. São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado.


Em primeiro lugar, assaltou-me uma dúvida: qual é o conceito de Estado definido pela Constituição Federal? O modelo jusnaturalista estruturado em uma dicotomia cidadãos versus órgãos burocráticos de coação ou o modelo hegelo-marxiano de integração dialética das dicotomias? Analisando algumas normas constitucionais em cotejo com o art. 1º e seu parágrafo único, não é forçoso concluir que o conceito de Estado Republicano Democrático brasileiro baseia-se em uma politischer Staat, uma sociedade política como estrutura coesiva e local de integração da coletividade, sob o genético comando dos cidadãos. É claro que por delimitação conceitual está presente em algumas normas constitucionais o conceito de bürgerliche Gesellshaft, local estruturado onde se movem os indivíduos como sujeitos privados em busca das suas realizações de caráter nitidamente privado.

Ora, não fica fácil concluir que esse conceito do Estatal contido no art. 1º remete à frase que o Estado é composto por todos os cidadãos com direitos e deveres? Não é evidente que a responsabilidade estabelecida no art. 196 deverá ser de todos os componentes da Estatalidade, principalmente das empresas médicas e laboratórios de remédios que são consideradas de relevância pública, regulamentadas e fiscalizadas pelo Poder Público, segundo o art. 197? Por que os juízes responsabilizam sempre os contribuintes, os reais pagadores dessa festa de liminares, quando existem empresas trabalhando sob o manto da Estatalidade que poderiam arcar com esses custos? Elas quando operam com permissão, regulamentação e fiscalização do Poder Público, produzindo bens e serviços de relevância pública, assumem as obrigações estatais, inclusive os laços de solidariedade para com a sociedade. Será que os poderosos juízes temem a classe dominante e por esse motivo reduzem propositadamente o conceito constitucional de Estado, definindo-o como Poder Executivo?

Em segundo lugar, não é discutível o caráter programático do art. 196 da Constituição Federal. Salvo alguns equívocos, a finalidade de uma norma programática por sua feição abstrata, vaga, indeterminada e principiológica é estabelecer objetivos, metas e são dirigidas como obrigações imposta à sociedade política. Apesar da grande maioria dos nossos doutrinadores pátrios defenderem a jurisdicização dessas normas, entendo ser elas normas políticas dirigidas a toda sociedade como parâmetro de julgamento político-popular. Infelizmente os nossos juristas que são desprovidos de uma sólida cultura democrática, reproduzem o arquétipo platônico do rei filósofo, defendendo a tese que os magistrados são contemplados por mentes racionais extensivas e consequentemente, devem subrogar à vontade dos atores representativos democráticos. Ou seja: retiram dos representantes populares suas indeclináveis competências legislativas e deliberativas e passam para funcionários públicos togados que, por mais relevantes que sejam, não são agentes políticos eleitos e fiscalizados pelos cidadãos através do voto. Isso não é usurpar?

Essas normas possuem a finalidade precípua de orientação ideológica, demarcando alguns limites espacial a ser preenchido pelo legislador e nunca pelo Judiciário. Não podem os juízes arvorarem-se em supremos guardiões dessas normas, pois "aos legisladores, não menos que aos tribunais, foi confiada a guarda de direitos constitucionais profundamente queridos.” – JUSTICE FRAKFURTER. Se as normas programáticas estabelecem de forma abstrata e vaga as metas e valores a serem alcançados, também não é menos verdade que as referidas normas remetem ao legislador e ao administrador para o preenchimento, esclarecimento e determinação concreta desses preceitos vagos e indeterminados, através de uma ampla prognose que envolve estudos multidisciplinares e um amplo debate com a sociedade.

Ora, o art. 3º, I, da Constituição Federal preceitua "construir uma sociedade livre, justa e solidária". Sob que prisma ideológico deve ser interpretada essa frase e quem tem a licença constitucional de fazê-la? Se "todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente" é de evidência cristalina que somente os poderes eleitos poderão efetivá-los, valorando dentro do momento histórico o que a sociedade entende por "sociedade justa e solidaria", por exemplo. É usurpativo quando um Juiz (ou juízes) tenta impor seu ponto de vista ideológico, querendo moldar a estrutura social e Jurídica sob a égide de suas crenças e valores ideológicos.

Apegam-se os juízes à frase "a saúde é direto de todos" do art. 196 da Constituição Federal, entendendo que a palavra "direito" significa um direito concreto e autoaplicavel, tendo como consequência lógica o dever inafastável de efetivá-lo concretamente. Sendo uma norma programática, nenhum dispositivo integrante é autoaplicável, precisando que o legislador e o administrador procedam o preenchimento com uma prognose ampla, definindo qual a política de saúde pública e quais recursos financeiros são necessários para implementar essa norma orientadora, levando-se em conta as limitações econômicas e financeiras. Não é sem importância lembrar que mesmo as normas constitucionais não-programáticas, algumas delas são de eficácia limitada, sendo necessário o legislador efetuar a sua concreção para que tenham eficácia plena exigível.

Da mesma forma, quem deve efetivar concretamente o art. 196 da Constituição são o Legislativo e o Executivo, os poderes eleitos. Somente a Administração, com delegação do Legislativo, pode, através de ampla prognose técnica e científica, definir quais os medicamentos são prioritários para a comunidade, cotejando com os recursos orçamentários disponíveis. Quais os medicamentos, quantos hospitais, quantas escolas e quais os níveis de excelência, essas e outras indagações devem ser respondidas pelas autoridades eleitas, devendo o cidadão eleitor julgar e fiscalizar através do voto. O julgamento é político-popular e não jurídico, pois só julga quem tem o poder de escolher e de vetar democraticamente.

Quando os juízes, por intromissão e usurpação atende uma demanda Juridica de um indivíduo frente aos interesses da comunidade está privatizando o espaço coletivo das demandas públicas, privilegiando uma pessoa e causando prejuízos para as demais. Quando um juiz ordena ao administrador que custeie um tratamento médico para oito pessoas com o uso de medicamentos experimentais que não foram autorizados pela ANVISA, com um custo anual de 40 milhões de reais, está retirando os recursos financeiros que serviriam para comprar remédios importantes para a coletividade. Um juiz liberal para um mercado de saúde neoliberal. Quem ganha com isso? Umas poucas pessoas atendidas pelo "supermédico" togado, os laboratórios de medicamentos, as clínicas privadas de saúde e o ego vaidoso do "superpolítico", o paizão de uma comunidade relativamente incapaz.

Lembro-me do diálogo de Rollete com o Poeta. Ambos parcialmente estão certos. Tanto as normas como as garotas podem ser programáticas ou programistas. As normas serão programáticas quando cumprirem a missão de orientar, delimitar espaços de variações valorativos e ideológicos ou serão programistas quando servirem de objeto de uso para pessoas afirmarem seus egos lascivos, autoritários e possessivos. Uma dama de costumes fácies a serviço de indivíduos libertinos que controlam e manipulam as pessoas.

Ivan Bezerra de Sant Anna - escrevente programático.






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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Saudades da Panair

Saudades da Panair






Ficávamos fascinados olhando para o céu do Brasil vendo os aviões da Panair riscando linhas imaginarias na tela celeste, quase sempre muito azul. Hoje, os velhos DC-3 são peças de museu, mas na época do minha meninice, eles roncavam poderosos, desafiando a lei da gravidade e assustando os perplexos pássaros que até então se achavam os donos hegemônicos do espaço. Se a lei da gravidade não era problema para os poderosos pássaros metálicos, a espada afiada dos militares e a balança empenada do Judiciário foram armas fatais para as suas sobrevivências. A Panair e seus pássaros alados se foram, mas ficaram as lendas das suas grandes asas planadoras que sinalizavam uma nova era de anseios e sonhos.

Os anos de chumbo seguiam-se inexoráveis, modelados pelos militares truculentos e por grupos de jovens audazes que achavam poder competir com um exército bem armado e assessorado pela CIA. Fuzis velhos e meia dúzias de cartuchos não eram páreo para os tanques e a população estava surda para as palavras revolucionarias e guerreiras de alguns garotos, que confundiam ódio, inconformidade, com consciência de classe. Eram os roqueiros armados que tinham suas maneiras de ser e gritar.

Apesar dos pesares, sonhávamos com um mundo melhor e mais fraterno. Se confundíamos algumas vezes os sonhos com a realidade, no entanto, sabíamos o que não queríamos ser. Mesmo com os olhos inebriados pelos desejos, tínhamos a visão clara de quem eram os nossos inimigos e eles, apesar da repressão violenta, das suas horríveis torturas, respeitavam os nossos ideais e a nossa resistência heróica e determinada. Como disse Fernando Gabeira em um belo texto, "Eles viam ideais no meu corpo arrasado pelo tiro e pela cadeia...O PT queria que eu abrisse mão exatamente da minha alma... Os militares jamais pediriam isso... Jamais imaginei que seria grato aos torturadores por não me pedirem a alma..."

Enquanto os aviões militares cruzavam o céu brasileiro, indo e vindo, levando as tropas da repressão, transladando torturadores e assassinos da Operação Condor, invadindo clandestinamente Angola a pedido do Tio Sam, as consciências dos jovens contestadores voavam velozmente em busca de infinitas possibilidades. Bem que os militares tentavam usar a dialética do "tacape/tapeação" para capturar apoios da comunidade jovem, mas até os adeptos do rock ingênuo, os seguidores da Jovem Guarda do Rei Roberto, estavam surdos para seus apelos. Eles queriam "que tudo mais vá pro inferno", inclusive os militares com seus falsos ufanismos patrióticos. Dançando ou guerreando, os jovens não estavam com muito tesão para o lado pragmático da vida, tais como, a "empregabilidade", os cursos acadêmicos reconhecidos e prestigiados, ou por heranças de bens e valores culturais de seus pais. Se eles eram jovens como sempre foram todos os jovens do mundo desde o principio da humanidade, para que apressar o curso do fluxo do tempo? A pressa em ser adultos, diziam, congela o tempo e as mudanças do mundo, pois, na "mesmice", o tempo não flui.

Nos tempos da Panair existia a censura, mas, como todos os limites impostos, ela existia para ser violada e desobedecida. Como o Judiciário estava mudo e acovardado, apesar de estar munido dos "grandes princípios jurídicos", só restavam aos jovens seus ideais, a audácia dos navegantes e a paixão dos sonhadores. "Caminhando e cantando, seguindo a canção", entoavam os jovens em uníssono, nas ruas cheias de baionetas, tanques e fuzis. Prisões, torturas, perseguições não importavam, pois, "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Sonhos irrealizados, frustrações, grandes perdas? Não importa! Os jovens com sonhos, sangue e dor cumpriram a dialética da história como atores vivos e pungentes.

Hoje, ninguém se lembra das asas da Panair e se existe alguma lembrança, ela encontra-se na cabeça daquelas pessoas com corpos gastos que insistem em não envelhecer. Excetuando as manifestações de axé, as caminhadas educadas dos Verdes e as passeatas Gays, a ultima lembrança dos jovens nas ruas de Aracaju foi na época do Gov. Valadares, quando os estudantes foram imperiosamente espancados pela polícia do "democrata" Governador. Tenho saudade do ex-udenista, ex-arenista, o Sr. Antônio Carlos Valadares, porque sabíamos onde encontrava-se o mal, o retrocesso e o populismo mentiroso. As fronteiras eram demarcadas e nossas almas estavam intactas...

Jamais imaginei que um vampiro milenar, transvestido em um trabalhador simplório, roubaria as nossas cores, beberia o nosso sangue e sugaria as nossas almas. Hoje, os jovens são como zumbis que vagam nas grandes ruas com sonhos pequenos, com desejos diminutos, com almas prisioneiras e sem fé. Cantam, dançam, consomem e teclam no Face ou em outro aplicativo que logo irá surgir, cada dia mais virtuais e menos reais. Eles não protestam, não gritam, não brigam. "Cada um por sí e Deus por todos", e se eles não inventaram o mundo, por que muda-lo? Pensar em um mundo solidário, na comum humanidade, na fraternidade? Isso não é tarefa para os "jovens, muito jovens" atuais. Essa atividade é para quem dignifica o Pensar, os sonhos e a destinação essencial histórica do Ser Humano. É o trabalho para quem escreve a história e não para quem vive passivamente nas suas páginas. Infelizmente, os "jovens, muito jovens" empenharam suas almas às elites poderosas, criadoras de lacaios que vestem-se e falam como o povo, para confundir socialismo com populismo, hegemonia com autoritarismo aliciador e a liberdade com autonomia individualista para ter e explorar.

Que asas simbolizam os dias atuais? Os dos jatinhos que levam e trazem corruptos? Das pombas com caras de gaviões do Partido "Socialista" dos senhores Valadares e Haddad? Isso tem pouca importância no Brasil Novo. As asas da Panair se foram levando os sonhos para a Terra do Nunca. Ficou uma Republica minada pela corrupção, mantida por um simulacro de democracia, onde os juízes censuram e substituem a vontade popular com os "grandes princípios jurídicos". Local onde reina soberanamente o Capital, um ente simbólico sem rosto ou identidade, mas um agregador de corações e mentes com suas imutáveis regras de competição anárquica.


Ivan Bezerra de Sant Anna






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terça-feira, 3 de julho de 2012

Os novos censores I

Os novos censores I



“Excepciona-se da proteção à pessoa dotada de notoriedade e desde que no exercício de sua atividade, podendo ocorrer a revelação de fatos de interesse público, independentemente de sua anuência. Entende-se que, nesse caso, existe redução espontânea dos limites da privacidade (como ocorre com os políticos, atletas, artistas e outros que se mantêm em contato com o público com maior intensidade)... BITTAR, Carlos Alberto. Os Direitos da Personalidade. 5 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001, p.108.

“Um julgamento não é um comércio livre de idéias e nem constitui o melhor teste da verdade num tribunal o poder de pensar que se será aceito no mercado..."
juiz Frankfurter





Existe uma censura terrível, insidiosa, subterrânea que se infiltra capilarmente nas fundações estruturais da sociedade, causando graves e irreparáveis danos à Democracia. Por mais terrível que seja a censura em um regime político autoritário, no entanto, ele é visível, concentrado, locado em áreas formais das instancias do Poder e por mais que as elites queiram disfarçar e maquiar é impossível não diferençar o que são os órgãos institucionais do Estado autoritário, daqueles outros estabelecidos na Sociedade Civil, núcleos plurais de resistências ao autoritarismo.

Engraçado é que o imponente e arbitrário Judiciário de agora, em um passado não muito distante era muito parecido com uma fazenda de ovelhas comandada pelas espadas militares. Preciso relembrar que Olga Benário foi extraditada para Alemanha nazista com a permissão do STF? Ou que sofrendo pressões dos militares a Corte Suprema colocou na ilegalidade o Partido Comunista Brasileiro? Que milhares de pessoas foram presas e torturadas durante a ditadura militar de 1964, enquanto o Judiciário estabelecia um cômodo silencio dos omissos? Os direitos fundamentais e seus diversos princípios que hoje o judiciário usurpador evoca não eram naturais e essenciais à condição humana e porque não foram aplicados nas épocas dos regimes autoritários? Se as normas pragmáticas e princípios abstratos são sacados indiscriminadamente para censurar o legislador na atualidade, não entendo porque não foram usados nas épocas ditatoriais. Será que a razão Juridica dos nossos juízes é pragmática e circunstancial? Ou essa história que o Poder Judiciário é o guardião da Democracia é uma farsa bem montada pelo sistema jurídico norte-americano? Se formos folhear as páginas da História verificaremos que o judiciário sempre existiu nos regimes autoritários e que a Democracia é decorrência das lutas populares, dos políticos renovadores e jamais foi oriunda de sentenças judiciais.

É com muito pesar que percebo que o Poder Judiciário no Brasil em vez de cumprir a sua honorável e grandiosa missão de Árbitro da democracia, infelizmente, tornou-se seu algoz. Vaidades, ambições políticas, corrupção conciliada com as elites são, dentre outros, elementos explicativos para essa atual situação. A sempre frágil Democracia brasileira constantemente alvejada por grupos conservadores e pela ação de políticos irresponsáveis, depara-se com um inimigo poderoso e eficiente: o Poder Judiciário. Silenciosamente e de forma sorrateira, os integrantes desse Poder meramente formal ocupam o espaço do legislador sob a rota desculpa da omissão legislativa ou da violação de princípios abstratos e indefinidos. O que mais preocupa é que não faltam juristas que aplaudam essas ações, todos eles imbuídos de um platonismo visceral, mas contraditoriamente, hasteando a bandeira socializante. Muitos se dizem dialéticos, porém desconhecem Heráclito, Hegel e Marx e principalmente a premissa maior da filosofia dialética que afirma que as mudanças do mundo se efetivam pela ações conscientes dos homens agregados em grupos políticos.

Em todos os países verdadeiramente democráticos, o Poder Judiciário existe para oferecer aos cidadãos uma jurisdição contenciosa para dirimir conflitos e não para atuar como jurisdição administrativa. Em nosso modelo peculiar de Democracia, em meio às esdrúxulas jurisdições voluntárias e administrativa, existe a jurisdição administrativa eleitoral com inúmeras funções extravagantes, dentre elas, o controle censor do processo eleitoral. Uma verdadeira violação à Democracia! Um juiz eleitoral se entender que um candidato ofendeu ao outro, pode punir com severidade o pretenso ofensor, retirando-lhe o direito de expor suas criticas aos eleitores. Para que então servem esses debates, se os candidatos não possuem liberdade para denunciar e criticar? Como poderão os eleitores adquirirem esclarecimentos se os juízes manipulam os debates sob critérios subjetivos? Na época da ditadura militar os debates eleitorais foram suprimidos e seu lugar foi ocupado por um desfile de fotos com legendas, sob a desculpa de que as informações para os eleitores tinham que ser de maior objetividade. Atualmente, os juízes censores declaram que o espaço eleitoral deve ser usado para o debate de projetos políticos e não para críticas e ofensas. Que Democracia!

Serão deuses, esses juízes, ou argonautas de um lugar mágico e distante? Pelo que sei são apenas funcionários públicos nomeados por concurso que cumprem uma função de relevância social, não mais relevantes do que os professores e médicos, apesar dos altos salários, acrescidos de auxílios "disso e daquilo". Mas que se julgam um extrato superior, isso é indiscutível. Por exemplo, eles tratam o povo que é a gênese do Poder político como relativamente incapaz, um adolescente meio sem juízo que precisa de proteção e orientação. Desta forma, quem tem o real Poder, o juízes protetores ou os protegidos? Todo poder emana do povo ou dos juízes? O mais interessante é quando se trata de coibir a compra dos votos - uma modalidade de "argumentação" usado nos países pobres e subdesenvolvidos - os nossos poderosos juízes são ineficazes, apesar da população saber quais são os políticos eleitos que usaram e usam esse recurso. No entanto, os nossos juízes tão sapientes nada sabem, apesar de toda interferência administrativa que efetuam. Aliás, eles não sabem de nada, pois basta conversar com algumas pessoas, em algum canto de rua qualquer para ser informado das intrincadas práticas de corrupção e seus autores, todos os detalhes técnicos, entretanto, não vemos nenhum deles na cadeia. Não é o momento de definirmos um novo conceito de gênese de Poder em nosso País? Não seria mais realístico que "todo Poder emana das elites e por ela é exercido, de forma direta ou através dos seus representantes, as instituições administrativas, legislativas e judiciais"?

O que se percebe é o constante cerceamento da liberdade de expressão em nosso País. Não bastassem os filtros do mercado editorial e de divulgação, os juízes exercem uma forte censura sob o argumento da proteção à honra, ao direito de privacidade, fazendo uma imensa confusão entre a personalidade privada e a pública. Uma coisa é a privacidade sobre fatos íntimos, sobre a vida familiar, sobre a reserva no domicílio e na correspondência e outra são as ações de uma pessoa pública que dizem respeito à sociedade. Conforme as lições do ilustre jurista Humberto Nogueira Alcalá, uma informação que afete a honra de uma pessoa será lícita e legítima, quando se refere a fatos de relevância pública que questionam a honradez de uma figura pública ou, de uma pessoa privada envolvida em tema de relevância pública e quando existe um interesse legítimo dos membros da sociedade em discutir assuntos que incidam diretamente naquela sociedade. Um cidadão ou um político que acusa um pessoa pública de ter cometido um ato reprovável não está cometendo nenhum ilícito civil ou penal, pois "em tales casos las personas afectadas se deshonran em virtud de sus propios actos". Humberto Nogueira Alcalá. Problemas Contemporâneos de La Libertad de Expresión. 1ª ed. México: Editorial Porrúa, 2004. p. 161.

As teses sobre matérias da ciência sociais são polêmicas por natureza, pois nunca existe uma comprovação segura sobre os fatos sociais e quando se trata de fatos históricos, diversas interpretações se apresentam abrilhantadas pelo critério da razoabilidade. Assim é imensamente reprovável que um juiz pousando de supercientista declare a inveracidade de uma tese histórica em detrimento de outras, ou mesmo que entenda razoável, proíba sua publicação por motivos de repercussões em honras familiares. Um absurdo! Um verdadeiro atentado às ciências históricas! Uma labareda ardente das novas fogueiras da Inquisição judicial.

Lampião transava com homens? Maria Bonita trepava com os cabras? A suposta filha era mesmo filha do capitão? Ora, essas questões nunca poderão ser respondidas com total objetividade e nem por isso deixam de ser indagações históricas. É razoável supor que um juiz por mais versado que seja na História não poderá responder essas questões com objetividade e nem proibir a divulgação das mesmas.

Uma certa vez perguntaram ao Zé do Mercado qual era a cor mais bonita, se vermelho ou preto. "Seu" Zé com sua proverbial sabedoria, respondeu: "Olha, aprendi na escola primaria que preto não é cor, mas ausência das cores. Mas acho que deve levar esse problema para os juízes, pois eles sabem tudo e se não souberem, inventam. É possível que algum juiz diga que as duas são de igual beleza".


Ivan Bezerra de Sant Anna






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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Meu Pai João

Meu Pai João

Não acho mais estranho que em alguns momentos me sinta como uma criança cheia de perplexidade, mergulhado em um mundo imaginário, onde a fantasia e os pedaços de mundo que chamamos de realidade bailam, dançam e celebram a vida dançada, sem palavras definidas, entendidas, explicadas.

Em um desses momentos criança ouvia os ecos sonoros muito conhecidos na minha infância. Eles falavam de um novo mundo igual para todos, da fraternidade, companheirismo e que os pães e peixes eram a celebração da comum humanidade em um mundo tonalizado pelo pelos raios avermelhados da manhã.

O vermelho está tão pálido, Pai. Não é aquele que falava com cor de sangue, a seiva da vida e quando derramado tinha sua forma de ser e gritar. Ele se parece com um suco adocicado de groselha que ilude, falseia e engana o nosso paladar. Você dizia que os trabalhadores iriam governar o mundo sob o manto vermelho da solidariedade, mas os vermelhos pálidos de hoje tratam os trabalhadores como meros eleitores agradecidos pelas bolsas cheias de restos de pães e espinha de peixes.

Esses homens que viraram suco de groselha, pai, não são os camaradas do passado que ofertavam suas vidas no altar da igualdade, fraternidade e liberdade. Eles agora se chamam companheiros, vestem ternos caros, viajam de jatinhos, compraram grandes propriedades e são trabalhadores que não são pagos por salários, mas por uma coisa chamada de lucro.

Eles compram tudo, pai. Adoram comprar votos, carros, aviões, casas grandes e imensos pedaços de florestas que são logo pintadas com cores de soja e de boi. Acho que eles apagam o verde das matas e colocam em suas notas esverdeadas. Esses mágicos, pai não eram do seu tempo e foi por isso que nunca me falou deles.

Você sempre me falou da importância dos homens inteligentes que gostam de livros e ensinam a pensar. Mas os homens dos livros de hoje, Pai, obedecem a um homem que gosta de olhar livro de cabeça para baixo com olhos ébrios.

Você me ensinou a pensar com as mãos cheias de terra viva, úmida e com os olhos voltados para para o céu dos sonhos. Que faço com eles em tempos de cores pálidas e desvalidas? Você me dizia que todas as pessoas possuem um lindo arco-Iris em um cantinho protegido dos seus corações e que nenhum feiticeiro cruel poderia apaga-lo.

Sei que a minha aquarela é diminuta para colorir essa imensa tela esmaecida por falsos pintores. No entanto, por mais poderoso que sejam não poderão manter a vida em preto e branco. Um dia vai avermelhar de verdade, Pai. Ou melhor: crescerá com força e intensidade uma aquarela com todas as cores solidarias e fraternas.

Em um dia junino, no dia de São João, você que se chamava João, se foi deixando-me os sonhos de amor fraterno, mas a terra é feita de sonhos, não é Pai? Construímos os sonhos impelidos por uma dor necessária e deles somos seus estofos. Era isso que chamava de dialética?

Naquele dia que fiquei triste, no dia de São João, você foi poupado de assistir uma longa e terrível noite mantida por seus colegas de farda, onde acendiam-se fogueiras para queimar livros e pessoas. Essa farda que amava, tanto e quanto os seus livros e poesias, perdeu o verde das matas, tingindo-se de um negro enlutado das noites tenebrosas que, na Democracia fingida de hoje, serve como manto assustador para os nossos magistrados.

Nesse São João vou olhar para as fogueiras, observando o fogo que ilumina e renova a vida, lugar para assar milhos e não livros e pessoas. Vou ver e ouvir as quadrilhas como apenas dança francesa, abrasileirada pelo choro da sanfona, onde a musica ponteia os passos alegres e ritmados das pessoas e não os dedos ágeis dos larápios, ávidos pelo dinheiro público.

Se entre um estalar das bombas juninas e um rojão que coloria o céu, em um certo dia junino resolveu continuar andando na linha do tempo infinito, ao calor da fogueira da vida ficou sua amada companheira, sustentáculo dos seus sonhos e conhecedora do verdadeiro sentido da palavra Amor. Verdade, Pai, pois se você fazia um enorme esforço para vivênciar o conceito de solidariedade, a sua amada por ser mãe e mulher era a própria encarnação dessa grandeza. Se ela abriu mão de alguns sonhos primaveras, o fez para preservar os seus e proteger os nossos. Se você era um Leão, Pai, a Mãe sempre foi uma Loba que não hesitava em mostrar os dentes em defesa dos integrantes da matilha e de vez em quando uivava para a Lua em busca dos seus sonhos que, não eram somente nossos, mas de comum humanidade.


Obrigado pelos sonhos, Pai.



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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Índio quer cotinha


Índio quer cotinha, se não der pau vai comer




Uma verdadeira palhaçada! Uma trágica comédia, onde a única coisa séria que se ouviu foi o protesto de um índio indignado, vociferando contra os privilégios dados aos "afrodescendentes". O índio enfurecido queria cota e no alto da sua indignação, chamava os Excelentíssimos Ministros de urubus, fato esse que provocou a sua expulsão do recinto.

Acontecimentos como esse, deixa patente a ausência de legitimação, prestigio e respeitabilidade do Poder Judiciário. Até o antigo temor reverencial encontra-se ferido de morte e em seu lugar ficou o puro temor, o medo, a espada que paira sobre as cabeças dos cidadãos. Se os doutos ministros acurassem seus ouvidos, sem sombra de dúvidas, escutariam frases em todos os cantos do Pais, nada lisonjeiras, com tonalidades sarcásticas e integrantes de chacotas, anedotas que fariam as piadas de putarias se parecerem com ingênuas rezas de beatas.

O que levou o Poder Judiciário a ficar no ultimo lugar na derradeira pesquisa de opinião pública, em relação ao quesito de credibilidade? Vaidades e trapalhadas seriam as palavras que explicariam a ausência de credibilidade, para não falar em outras mais apimentadas e chocantes. O que mais se escuta são historias tenebrosas sobre bens negociados, valores adicionados, troca de favores e outras coisas mais. E nem sem sempre essas historias são oriundas dos canais informais da fofoca, mas de interpretações sobre declarações iradas de algum ministro, como é o caso do Sr. Joaquim Barbosa. E como não ser um campo fértil para as falações, uma composição de ministros que boa parte foi nomeada sem os méritos jurídicos necessários? O que dizer do Sr. Marco Aurélio, da Sra. Carmem Lucia, do Sr. Peluso, do Sr. Fux e outros tantos? Corre em todo o Brasil a informal noticia de que o Sr. Lewandowski foi nomeado por Lula, atendendo a um pedido da sua mulher que, por seu turno, atendeu a um pedido da sua cabeleireira. Se isso for verdade, nada mais resta acontecer no País do populismo. Que absurdo!!!

Ora, na medida que um juiz vira ativista, possivelmente é impulsionado pela tentação de censurar as leis, transforma-las ou cria-las. Em uma democracia não é isso que se espera dos juízes, mas que eles sejam árbitros imparciais e garantam o processo democrático. Se os juízes viram "políticos" qual a instituição republicana que poderá garantir e dirimir os conflitos com imparcialidade? Não me parece correto do ponto de vista democrático que os juízes legislem sorrateiramente, utilizando-se de princípios vagos, abstratos e indeterminados em nome de uma melhor interpretação justa. Isso é usurpação!

Nem todos os dispositivos constitucionais são de monopólio aplicativo do Poder Judiciário. “O controle judicial, sendo ele próprio uma limitação ao governo popular, é parte fundamental do nosso esquema fundamental. Mas aos legisladores, não menos que aos tribunais, foi confiada a guarda de direitos constitucionais profundamente queridos.” – JUSTICE FRAKFURTER. Em Minersville School dist. V. Gobirtis, 310 U. S. 586 (1940). Essa lição foi proferida em meio a crise constitucional americana, quando os juízes da Suprema Corte insistiam em usurpar o Poder Politico Popular. Dizem ser progressistas os juízes que pousam com ares de legisladores. Essa falsa dicotomia "conservador versus progressista" é ideológica e pecaminosa, pois não foram os juízes ativistas que negaram os diretos dos negros, as legislações trabalhistas até a culminação da crise constitucional de 1930? Quem foi verdadeiramente progressista, os juízes ativistas e censuradores ou o legislador federal que estabeleceu novos direitos sociais? Existe algo mais subversivo e progressista do que a Democracia que é o governo do povo? Assim, o juiz que obedece a lei (a carta ordem popular) é progressivo ou conservador?

São com essas indagações que talvez entendamos as vaidades e trapalhadas de nossos juízes. Trapalhadas? Sim, pois é cômica, defasada e trôpega a decisão do STF que considerou as cotas raciais em sintonia com a Constituição Federal. Dias atrás, a Suprema Corte americana considerou inconstitucionais as cotas raciais discriminatórias de acesso às instituições educacionais. Acrescente-se, ainda, que a Constituição Americana não possui uma clausula constitucional explicita e determinada como é o caso do parágrafo IV do art. 3º da CF do Brasil, no entanto, entendeu o colegiado que as referidas cotas de acesso feriam á clausula de igualdade entre as raças.

E quais foram os argumentos jurídicos apresentados por nossos ministros? Jurídicos? Nenhum!

"É uma classificação racial benigna, que não se compara com a discriminação, pois visa fins sociais louváveis", disse, Luis Fux, e com pose de contabilista, arrematou: "existe um défcit histórico, por consequência da escravidão" Em um voto rápido, Barbosa, o único ministro negro da Corte, disse que os críticos das cotas são, normalmente, aqueles "que se beneficiam ou se beneficiaram da discriminação da qual são vítimas os grupos minoritários"

Pelo que parece, essas razões bem que poderiam estar contidas em um livro de história, mas nunca batizadas pelo manto do jurídico, com a finalidade de abrir uma exceção ao §4º do art. 3º da CF. Apesar de a nossa Constituição não ceder espaço para esse tipo de discriminação, vamos tentar um raciocínio absurdo. Discriminação para o bem de quem, Senhores ministros? Do falido ensino público que teria que se adequar para receber os alunos "pretos e pardos" de 2ª classe? Da sociedade produtiva que teria de escolher entre os diplomados "pardos e negros" e diplomados "brancos", sob o critério da competência? Para o bem dos "negros e pardos" que agora os senhores deram um atestado jurídico de inferioridade?

Oh, senhor Barbosa! Que palhaçada! Logo o Senhor, um negro que conseguiu vencer pelos seus méritos, assinar um atestado de inferioridade para os "negros e pardos"! Sei que seu voto foi envergonhado, mas do Senhor, esperava-se mais. E quem são "pardos e negros" nesse País, Senhor Barbosa? Como os caracterizaria, Senhor? Se for pela descendência, toda a população brasileira é "parda e negra". Pelo cabelo ou pelo nariz, Senhor? Existe alguma pele branca nesse País ou apenas uma enorme variação tonal que vai do "menos preto" ao "mais preto", Senhor Barbosa?

Fico me perguntando se como descendente dos negros devo alguma coisa a eles. Não seria uma confusão Juridica ser credor e devedor ao mesmo tempo? E mesmo que fosse branco ariano como poderia ser penalizado por algo que meus antepassados fizeram? Não seria a aplicação da fábula do lobo e o cordeiro? E ainda existe um pequeno detalhe histórico: não eram as próprias tribos Bantus que, guerreando entre si, aprisionavam e vendiam os seus irmãos de cor para os mercadores?

Mas os nossos ministros pouco estão se importando com a estrutura juridica constitucional. Vaidosos, eles pousam de supercientistas, os sábios platônicos que vêem nas nuvens os princípios reitores da Justiça. Pouco importa que uma norma constitucional defina o casamento como a união de um homem com uma mulher, pois lhes foi ofertado (ninguém sabe por quem) o poder de reescreverem a norma, incluindo "homem com homem" e "mulher com mulher" como casais constitucionalizados. Nova época, novos padres casamenteiros. Em verdade, eles são privilegiados por uma inteligência superior. Enquanto os mortais e limitados entendem que os direitos são históricos e frutos de muita luta política, os nossos Avatares do Judiciário descobriram que esses direitos sempre existiram em algum canto do universo, esperando que uma mente brilhante percebesse seus indícios, entre uma palavra ou outra de um principio abstrato, digno de um Deus abstrato.

Como a população não entende dessas filigranas jurídicas e filosóficas, quando não fica pasma, dá sonoras gargalhadas das trapalhadas dos nossos juízes. Embora quase sempre as trapalhadas judiciais não sejam de bom tom para um governo democrático, não deixa de ser risível. Afinal, existe uma lógica Juridica ou uma confusa enciclopédia de piadas forenses? Seja lá como for, deve-se estar atento para o lembrete de Rui Barbosa que era uma pessoa muita séria e arredia às piadas. Ditadura do Judiciário, mesmo que vestida em mantos carnavalescos, é a pior tragédia para a Democracia, pois não é um governo tirânico de um só homem ou de uma oligarquia, mas uma invasão bárbara de uma horda composta de pessoas confusas, vaidosas e anárquicas.

E lá para as bandas do bananal, "índio quer presente mais bonito". Índio quer auxilio moradia e alimentícia, de preferencia retroativa aos tempos de Pedro Alvares Cabral. Se os juízes ganharam, mesmo a Constituição dizendo Não, por que não ter o mesmo direito, os pobres índios em arribação? Índio quer cotar; índio quer apito, Senhores Ministros, os novos governadores da nação.

Ivan Bezerra de Sant Anna - Data Vênia aposentado sem aposentadoria.


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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Prezado Luís

Prezado Luís:





Não lamento o seu afastamento do mundo dos vivos, pois vivos todos estamos. No entanto, foi prematuro ter se afastado dessa vida entremeada de alegrias, dores, anseios e acasos, por uma mera presunção que tudo podemos, inclusive, cuidar da nossa saúde. Compreendo-o, prezado amigo, pois nunca tive grande admiração por esses senhores que se arrogam vestirem o manto de Deus. Entretanto, com a maturidade alcançada pelos passos dados ao longo do tempo infinito, vejo-os com olhos benevolentes, pois se na atualidade as pessoas alcançam maior longevidade, isso acontece não por obra das crenças, beberagens, chás, dietas vegetarianas, mas pela evolução da ciência médica, aplicada por profissionais sérios.

Fernando Pessoa, em um dos belos poemas, disse que "morrer é só não ser visto", frase poética que concordo plenamente. As pessoas não me enxergam, mas vejo-as com nitidez cristalina. Por esse motivo, fui gratificado pela sua devoção à minha obra intelectual composta de ensaios, poesias e contos que estava prometida ao esquecimento, não fosse a sua determinação e amor por ela. Como hoje a vaidade não é mais um dos meus atributos, percebo claramente que seus esforços e talento estavam além do real valor da minha produção intelectual. Confesso-lhe que escrevia com mais estilo e talento do que eu, dando às frases e parágrafos os tons sublimes da poesia na sua evocação rítmica e melódica e quase sempre tinha um gozo supremo ao percorrer meus olhos sobre elas.

Caro Luís, com a sua submissão devocional à minha obra, você esqueceu da sua produção intelectual que ficou relegada aos escritos jornalísticos e ensaios culturais que, a bem da verdade, ficou devedora do seu real talento. O que realmente produzi? Ensaios filosóficos que tiveram o mérito de introduzir e divulgar a filosofia alemã, mas que estavam ausentes de inovações criativas, tal como fizeram Kant, Hegel e outros. Se minhas poesias eram bem metrificadas e melódicas, faltaram-lhes, entretanto, a pujança emocional e a reflexão sobre as mudanças do mundo. Hoje vejo por que motivo perdi Eugênia Câmara para Castro Alves, poeta baiano que emocionava e impulsionava as pessoas com suas belas frases poéticas. Na minha qualidade de mulato, deveria ter sido o poeta da abolição e não Castro Alves, mas em vez disso, estava publicando um jornal escrito na língua germânica, buscando reconhecimento e aplausos da platéia ariana.

Aplausos você teve muitos, amigo, e talvez esse fato tenha colocado freios à sua produção intelectual. O verdadeiro artista busca em si os aplausos para cada momento artístico construído e não os aplausos externos das pessoas que, na maioria das vezes, são falsos, bajuladores e manipuladores. Esses aplausos lhe levaram ao convívio com pessoas medíocres e a aceitação de um patronato de uma certa família poderosa que se dizia herdeira do mecenato. O seu estratégico e relativo silencio que se manteve durante a ditadura militar que assolou a Nação foi devidamente pago com a moeda faceada com a traição, ofertada pelo Príncipe herdeiro de uma certa dinastia. Humilhado, decaído e desempregado, felizmente, teve uma mão estendida por um pobre e esforçado professor de matemática que se tornou Reitor.

Acho que o meu maior pecado foi não ter sido rebelde o suficiente para honrar a minha inteligência e o devir humano. Faltou-me audácia para encarar os desafios libertadores e humildade para sentir com mais suavidade as dores atrozes de uma queda. Infelizmente, meu prezado amigo, esse foi o nosso maior pecado. A nossa imensa vaidade tornava-nos reféns de pessoas medíocres, bajuladoras, morcegos sugadores de sangue e das elites manipuladoras. Do lugar onde estou, entre uma caminhada e outra, às vezes paro e olho para trás. Recentemente, alguns meses antes do seu passamento, observei que estava empenhado na criação da Sociedade Sergipana de Filosofia, fato esse que me causou grande espanto. "Apesar de escrever divinamente bem, os conhecimentos filosóficos de Luís são muito diminutos", pensei. Verdade, amigo, somente uma grande dose de vaidade pode explicar esse despropositado intento.

Prezado Luís, quem sabe em um dia qualquer, nos caminhos cruzados do tempo infinito, não possa encontra-lo? Será um grande prazer me deliciar com a sua imensa inteligência e alongarmos uma conversa prazeirosa sobre os atributos dos seres humanos. Talvez ajudado por sua mente luminar, entenda finalmente porque Cristo disse que os humildes herdarão a Terra. Vamos corrigir, não é, meu amigo: os inteligentemente humildes.

Tobias Barreto de Menezes

(Texto psicografado por Ivan Bezerra de Sant Anna)




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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Farone



Caro amigo:

Não sei se consegue ler essas "mal traçadas linhas", mas pela força do meu desejo e os imensos mistérios da existência, tudo é possível. Espero que esteja bem, alegre, pilheriando como de costume e que o seu novo caminho seja permeado com os trinados dos pássaros em revoada sob o manto diáfano das manhãs e que os contornos sinuosos das mulheres com os seus colos gentis sejam uma presença constante. Desejo-lhe uma versão do paraíso? Não é bem isso, Farone, mesmo porque não acredito em nenhuma religião e sempre achei a crença uma ferrenha inimiga do Pensar. No entanto, deixo-me acalentar com a idéia de um caminhar sobre uma linha do tempo infinita. Onde vai dar isso? Sei lá. Acho que o importante é a viagem, ou como você sempre dizia: viver é o que importa.

É bem verdade que nunca tive a oportunidade de conversar com você em suas diversas residências. Quando morei no Condomínio Morada do Rio, algumas poucas centenas de metros nos separava, no entanto, as inúmeras farras que lá acontecia eram obstáculos que não ousava transpor. Observava que nos fins de semana uma verdadeira procissão de carros se dirigia para a sua residência, pois os ocupantes dos veículos sabiam que iriam comer e beber gratuitamente. Era um homem generoso, gostava de estar cercado de pessoas e por essa razão assisti com muita tristeza como os seus amigos cachaceiros abandonaram-lhe quando passou por dificuldades financeiras.

Não sei se me considerava um amigo, no entanto, todas as pessoas boas e generosas são meus amigos e você está incluído entre elas. Uma certa vez perguntei-lhe se não tinha alguma mágoa das pessoas que lhe abandonaram. Lembro-me que riu e disse: "Faço porque gosto de fazer e isso me dá um imenso prazer. Tanto faz se as pessoas ficam agradecidas ou não". Assim era Farone quando da sua curta estadia nesse mundo que conhecemos. Gostava de vê-lo brincalhão, irônico, com uma resposta na ponta da língua, entretanto, entristecia-me quando verificava que suas mãos estavam trêmulas, imprecisas e mal podiam segurar um cigarro. A bebida que tanto gostava não iria lhe permitir uma caminhada mais longa sobre a linha tempo cronológica e existencial. Seus "amigos" cachaceiros e algumas pessoas querendo dirimir a dor da sua ausência dizem que você viveu o bastante e com muita densidade.

Será mesmo que viveu o suficiente, amigo? Não tenho duvidas que viveu com muita densidade, no entanto, viveu até a exaustão máxima das suas potencialidades? Você diria que não, pois por mais passos que deu sobre a linha existencial, nunca admitiria tê-los dado o suficiente. Algumas pessoas da sua convivência diária respondem de maneira afirmativa, mas como convivo com a duvida, a filha dileta do Pensar, não possuo uma resposta conclusiva para essa questão. Se recorresse às imagens do passado que mostravam você radiante, cheio de entusiasmo e sob o auspício de um copo sempre cheio, responderia que sim. Mas, ultimamente quando me encontrei algumas vezes com você, sempre acompanhado por suas filhas, com um bondoso sorriso sóbrio nos lábios e com os olhos cheios de esperança na sua sobrevivência, diria que não.

Faltaram os passos da velhice, aquele andar despreocupado sem compromisso com posses e desejos pessoais que só o avançar da idade pode propiciar. Mesmo que a maioria dos idosos não consigam perceber, tenho a mais ferrenha certeza que você conseguiria entender que a idade não lhe tiraria coisa alguma, mas lhe daria ampla liberdade para apreciar a beleza e a dor do mundo como espectador engajado, assim como uma criança observa o vôo do colibri, notando que a somatória dos novos detalhes fazem grandes diferenças. Como sempre teve olhos de criança descobriria que nessa idade devemos ser revolucionários desapegados, espectadores engajados, crianças com olhos curiosos e sonhadores inveterados. Essa faixa de idade nos libera para a imaginação, para o sonho, mas uma maneira de sonhar diferente, mesclando as nossas experiências existenciais contidas em nossos baús com os nossos atuais projetos imaginados. Finalmente, damos uma mão para Dionisio e a outra para Apolo. Uma certa vez estava assistindo um noticiário na televisão, quando a repórter enfocou um protesto público em um certo país. Em certo momento, o repórter disse que a sociedade estava protestando e qual foi a imagem que ele mostrou para exemplificar? Pessoas idosas que gritavam indignadas! Você imagina a força dessa imagem? Se a imagem fossem de jovens gritando, possivelmente os telespectadores pensariam: "isso é coisa da juventude". Mas a imagem de pessoas idosas protestando somente uma idéia ocorre: "a sociedade está revoltada".

Conheço um velho espanhol que adora beber café com conhaque. Os filhos reclamam que ele cada vez mais se torna irreverente, sátiro, irônico e criador de histórias improváveis. "Meu pai atualmente inventa historias fantásticas sobre seu passado que sabemos nunca terem acontecido, pelos menos com o esplendor que ele ornamenta", dizem rindo. O que os seus filhos não percebem é que o velho espanhol em decorrência da idade conquistou sua liberdade para ter olhos de criança e falar sem precisar prestar contas a ninguém. Ao remexer o seu baú existencial ele busca suas experiências vividas para mesclarem-se com seus sonhos, criando histórias que reúne a sua experiência passada com os seus novos anseios. Não são histórias inverídicas, falsas, mas baseadas em um realismo fantástico que mostram novas possibilidades e um novo mundo. Dessa forma, quando ele relata as suas lutas contra o franquismo não está inventando, pois esteve lá e viveu essa época, no entanto seus relatos nos dizem o que ele deveria ter feito se tivesse a coragem e a consciência que tem hoje. Suas historias não só relatam o passado, mas são prognósticos, são parábolas que apontam para o futuro. Uma certa vez, me disse: "Olha, falam que sou um irresponsável por dizer as coisas que digo. Entretanto, eles se enganam. Se não tenho mais responsabilidades com os desejos sexuais, com o consumismo de bens, com apegos às coisas materiais, isso não quer dizer que sou um monge louco ou um budista. Ao contrário, hoje possuo maior responsabilidade para com as pessoas que vivem em comunidade do que tinha antes. O que faço é tentar com minhas palavras despertar essas mentes adormecidas para que elas meditem e reflitam".


Lamento, amigo, por não ter tido essa oportunidade, mas tenho a absoluta certeza que iria aproveitar bem, pois as suas recentes publicações no Facebook levam-me a essa conclusão. No entanto, manter acesos os olhos de criança na fase adulta é um desafio permanente com riscos consideráveis, pois é estar sempre em estado de embriaguez com a vida que muda sem cessar. Muitas vezes embriagamos a nossa mente para não sentir a embriaguez da vida que tenta nos colocar em estado permanente de mudanças e mudar às vezes é muito doloroso. Não estou a lhe criticar, amigo, pois todos temos nossos vícios que, bem ou mal, dão um pouco de suavidade às nossas dores.

Devido aos mistérios do mundo, quem sabe não vai ter tempo de sobra para novas oportunidades? Apesar de não crer nos deuses, rezo por isso, amigo.

Ivan Bezerra de Sant Anna


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