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segunda-feira, 17 de março de 2014

Criança que um dia foste
Menina com cheiro de mar
Mulher de contornos suaves
Ancas lindas abastadas
Seios que fazem sonhar

Quantas mãos lhe tocaram
Modelaram o seu andar
Mãos calosas do trabalho
Mãos de acenos obscenos
Umas de doce venenos
Outras que fazem sonhar

Seus filhos edipianos
Com sina de castração
Você mãe e mulher
Qual a escolha?
Que tentação!

O verde que vestia
Quase nada ou pouco resta
O egoísmo dos seus filhos
Salpicados de cimento
Arrancaram a sua veste

Ah, Ara... Que saudades do doce mel dos seus cajus...

ARACAJU

Terra amada!
No simbólico do poeta,
à semelhança daquele tronco sagrado
da mitologia escandinava,
nas tuas areias quentes
e ao sopro das brisas vinda do mar,
plantei as raízes da minha vida

E como o tronco sagrado
que verticalizou para o infinito,
Procurei elevar ad tranças do pensamento
em busca das luzes distantes
espalhadas no firmamento.

Mas; nuvens escuras acasteladas,
nos siderais caminhos,
toldaram o destino da árvore imensa...
E dos galhos gigantes parecendo tentáculos,
as folhas caídas, - versos de minha alma,
são arrastadas pelos ventos
para mesclar de húmus tuas areias...


João Baptista de Sant Anna
Aracaju do grande poeta José Sampaio, companheiro do PCB, amigo do meu Pai.

"CANTO DA CIDADE AMIGA

Aracaju caminhado nas mãos dos arquitetos.
Nas mãos suadas dos carroceiros,
dos poetas,
dos seus artistas,
sentindo no coração
as pancadas dos pés das mulheres da noite.
Criaturas que levam no silencio dos olhos
o rumor desses gritos que morrem trancados dentro do peito.

Nas casas apagadas na sombra
o amor florescendo
que o amor é um milagre infinito.

Já ouvi os poetas de Aracaju.
Vi as suas ruas largas de luxo.
Queria agora caminhar com os ladrões da noite,
atravessar os subúrbios escuros e sujos
para sentir a grande poesia que está perdida.

Apertar cordialmente as mãos dos maloqueiros,
passar a noite de inverno debaixo da ponte ouvindo as suas historias,
para que eu sentisse o coração de Aracaju batendo no silencio da noite

Acariciar a cabacinha suja de areia
desses pequenos desamparados
que fugiram dos bairros diminuídos.

Ouvir as vozes que estão mortas nos seus rostos cavados,
para que eu pudesse ouvir o coração de Aracaju batendo de noite, no silêncio."

sexta-feira, 7 de março de 2014

Democracia das canetas-fuzis


Que determinado Senador proteja os delinquentes menores de dezoito anos, isso é perfeitamente compreensível. Afinal, um homem com seu perfil de capataz de usina de cana, autoritário e protofascista, não se pode esperar muita coisa, a não ser dar proteção aos garotos marginalizados que atualmente são muito solicitados como integrantes de quadrilhas de roubos e assaltos. Para esses caciques políticos, os integrantes da zona marginal  podem ser de grande serventia para compor grupos de provocação política, grupos paramilitares, ou mesmo, bodes expiatórios, como foi o caso do garoto corintiano.

No entanto, lastima-se que uma pessoa, que tenha uma sólida cultura jurídica, afirme que a modificação da menoridade penal é proibida pela Constituição Federal, por se tratar de uma cláusula pétrea. Uma declaração como essa demonstra que a jurisdicização da política avança em passos grandiosos em nosso País. O Poder Judiciário, cada dia que passa, aumenta sua tutela sobre os poderes eleitos, com interpretações abusivas e usurpativas, fragilizando o processo democrático e retirando do povo e dos seus representantes, a capacidade de de governar.


Ora, o Art. 60 da Constituição Federal que estipula as cláusulas pétreas, diz:

§ 4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:

I - a forma federativa de Estado;

II - o voto direto, secreto, universal e periódico;

III - a separação dos Poderes;

IV - os direitos e garantias individuais.

Qual a disposição Constitucional que estabelece os direitos e garantias individuais?   O Art. 5º em todos seus parágrafos, incisos e letras! Alguma dúvida? Basta olhar  o título II que engloba o art. 5º ao art. 17, com a seguinte nominação: Dos Direitos e Garantias Fundamentais. Ou seja: os direitos e garantias individuais que são protegidos com as algemas das cláusulas pétreas estão no Art. 5º. E a disposição que se encontra no Art. 228 não é uma garantia individual? É sim, mas uma garantia que pode ser modificada por emenda Constitucional, por não se tratar de uma garantia especial contida no Art. 5º, pois se o legislador Constitucional quisesse teria colocado essa garantia no Art. 5º.

Os integrantes do Supremo Tribunal Federal afirmam que os direitos e garantias protegidos por cláusula pétrea não estão somente no Art.5º, mas em outras disposições normativas e princípios. Ora, essa afirmação é uma posição interpretativa, fundamentalmente construtiva, que inova a Carta Constitucional, transformando-a em um texto meramente orientador para o Supremo Tribunal. Pode-se afirmar que vige em nosso País, o famoso preceito americano que tinha aplicação antes da crise dos anos trinta, vocalizado pelos Justices, que diziam: "A Constituição é aquilo que dissemos ser".

Afinal, onde fica o governo do povo, a democracia, se os sábios nomeados pelo Presidente da República dizem e constroem o que querem, em nome de uma Constituição que eles modelam aos sabores das ideologias, das preferências de classe ou de outros interesses inconfessáveis? Quem verdadeiramente faz as leis no Brasil? O povo, através dos seus representantes ou uma velha elite, encastelada no Poder Judiciário? O questionamento sobre a necessidade quanto a diminuição da idade penal não é o real motivo desse artigo, mas a atuação do Parlamento e do Poder Judiciário.   São indagações pertinentes para realmente esclarecer se existe uma democracia ou uma grande farsa que esconde, sob uma cortina teatral, os reais mecanismos do Poder.

Vamos imaginar um desdobramento hipotético dessa questão da idade penal. Vamos supor que o Sr. Senador e seus pares, resolvam honrar o mandato popular que exercem, incluindo interpretar a Constituição como um Poder independente, aprovando a proposta de emenda Constitucional e, por fim, a Câmara dos Deputados, aprovem integralmente o texto. Os ministros do STF possivelmente julgarão inconstitucional, considerando a violação das cláusulas pétreas, atendendo pedidos inominados. O povo quer, mas o STF diz não, o que fazer? Uma Assembleia Nacional Constituinte para criar uma nova Constituição? Um plebiscito? Já ouvimos declarações de alguns Ministros que as cláusulas pétreas não podem ser matéria de uma consulta popular e outras que afirmam não existir na atual Constituição uma norma que permita a convocação de uma Constituinte. Então, o que fazer se os sábios platônicos, instalados em uma Corte Constitucional sem legitimidade popular, dizem não às mudanças? Não é uma total esquizofrenia?

Esse é o mecanismo do Poder real, com ênfase na manipulação da Constituição, efetuada pelos Ministros, colocando, relocando direitos e garantias em locais que eles querem e vendo como profetas que olham para o céu em busca de uma revelação divina, direitos e proibições em princípios vagos, imprecisos e indeterminados. Uma radiografia precisa do verdadeiro Poder nesse País mostra que as elites precisam de um Poder Judiciário usurpador, porque os políticos populistas muitas vezes são pressionados e fazem legislações moderadamente progressistas. Aí entra os préstimos do Judiciário, censurando e cortando tudo o que põe em risco a reprodução sistêmica. E como o Judiciário tenta se legitimar? Muito simples! Umas sentenças de dano moral de valor insignificante, aqui e acolá; decisões populistas que desmoralizam o Parlamento, visando agradar aos incautos revoltados pela corrupção reinante, tudo isso objetivando esconder a proteção que os juízes dão às elites econômicas. Usando o jargão econômico, resumiria assim: sentenças BNDES para os poderosos e para a maioria da população, sentenças bolsas família.

Querem um bom exemplo da hipocrisia populista do Judiciário? Nos tribunais eleitorais, os juízes condenam alguns "gatos pingados" por compra de votos, com a portentosa fundamentação de garantir a Democracia, o que a OAB denomina de "eleições limpas". No entanto, quase todos os políticos se elegem comprando votos com o saldo da corrupção nos negócios públicos e se algum candidato ousar denunciar no horário eleitoral é punido com a perda do tempo e direito de resposta. Em resumo: o Judiciário finge garantir a Democracia e ao mesmo tempo, provoca a sua implosão com suas sentenças censoras e irracionais.

A magia caótica do (des)governo judicial com suas interpretações criativas e crescente poder discricionário dos reis juízes é resumida em uma fórmula lacaniana do significante vazio. Para as Democracias consolidadas que respeitam a soberania popular, o conceito de Justiça significa preferencialmente a lei, a carta ordem da população soberana. Ou seja: o significante possui um claro e determinado significado, um forte conteúdo denotativo, sem arrengas metafóricas e metonímicas. Em nosso País, entretanto, o conceito de Justiça é esvaziado e transformado em um significante vazio, ou na melhor das hipóteses , um significante maleável por princípios vagos e indeterminados. Assim, o princípio de justiça é um significante esvaziado, e por tudo  nele caber, mantém precariamente a equivalência entre demandas díspares, atendendo minimamente às demandas populares e maximizando os interesses das elites poderosas.

Se existe uma instituição inimiga da Democracia brasileira, essa seguramente é o Poder Judiciário. Em épocas de chumbo, das perversas ditaduras brasileiras, o Judiciário se omitiu e por vezes foi cúmplice. Em momentos mais pacíficos, onde os complexos de inferioridade e subserviência irrigam as sementes das vaidades sufocadas, emergiu o Judiciário como superego da sociedade, o pai simbólico, um nanico do Grande Outro, uma trágica presepada autoritária. Outrora, os fuzis; agora, as canetas judiciais. Se para Lenin, a guerra é a política por outros meios, seguramente podemos dizer que o Judiciário brasileiro é a Ditadura por outros meios.

Ivan Bezerra de Sant Anna

segunda-feira, 3 de março de 2014



O Rasgadinho está muito bom e diversificado. Mas é preciso não esquecer que essa manifestação é carnavalesca, cabendo frevo, marchas, samba e outras manifestações afins. No entanto, deve-se evitar artistas que nada possuem de carnavalescas, pois isso desvirtua essa festa maravilhosa. A banda Naoreia estava ótima e cada vez mais carnavalesca. O mesmo não se pode falar de uma tal de Karla Izabela, uma péssima cantora, lendo as letras das músicas, sem presença de palco, sem nenhum recurso vocálico, que nos brindou com um axé indigesto e impróprio para o Rasgadinho. Melhor seria, no seu lugar, a Banda de Medeiros ou Los Guaranis. Devo registrar a ausência de Pessoa e Alceu Valença no Rasgadinho. Um grande pecado!

Outra observação é preciso ser feita. As principais atrações estão se apresentando muito tarde, somando isso aos os atrasos para começar. Por exemplo, depois da tortura que o folião foi submetido, ouvindo Karla Izabela, a apresentação do Spock Frevo só foi começar depois das 02 horas. Um absurdo!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A Floresta




Era uma daquelas florestas tropicais, exuberantes, úmidas, multicolores, prazeirosas para os desavisados pássaros que nelas sobrevoam, um mundo mágico tão a gosto do meu escritor preferido, William Shakespeare. No entanto, cada pensador tem sua maneira de viajar, ou melhor: de retornar, como foi o caso da Odisseia, escrita por Homero. O leitor pode estar pensando que de uma maneira sinuosa, tenho a petulância de me dizer escritor. Longe disso e, desde já, rogo muita  paciência para suportarem a agressão visual da minha escrita trôpega, hesitante e confusa, porém, devo confessar o esmero que tive em cada palavra, vírgulas, frases e parágrafos. No entanto, deixe-me alerta-los: não se iludam por uma possível melodia elegante e ritmada de algumas frases. Sou um verdadeiro caos organizado! A prova viva que a dialética existe. Uma polifonia de vozes em sínteses precárias.

E essa floresta é uma verdadeira polifonia, uma variedade policrômica, articulada por entidades tão estranhas, mas, ao mesmo tempo, imensamente familiares. Cada cultura tem suas florestas e suas entidades fantasmagóricas que nelas habitam. Os Duendes, os gnomos infestam as florestas europeias, enquanto os brincalhões Sacis, as Mulas sem Cabeças, as Caiporas pululam nas nossas quentes e úmidas florestas. Elas sempre estiveram lá, muitas vezes reprimimos os nossos olhares, o nossos pensar, entretanto, de uma forma ou outra, elas se fazem presentes, dialogando conosco, gritando, oprimindo, dependendo do nosso relacionamento para com elas. Às vezes, ocorre-me pensar que essas entidades são as nossas outridades suprimidas do nosso auditório interno de debates. Muitas vezes não facilitamos, não é? Não seriam elas, projeções  das nossas personas?

Afastando as densas folhagens, cipós, bombardeado por mosquitos com complexos de caças bombardeiros MIG, descubro ser, infelizmente, muito tarde para reclamações e que a exuberante luz que reverbera no telhado verde da belíssima floresta, somente existe com uma respeitosa distância da mesma. Rugidos, assobios, gargalhadas, ouvia tudo com uma coragem solar que declina para o poente, enquanto meus parcos pelos que teimavam ficar na minha cabeça, eriçavam desafiantes, entendendo o significado das palavras adrenalina e porco espinho. Quantas vozes e quantos fantasmas! De repente, um longínquo mungido bovino. Silêncio total. Solidariedade no medo.

Qual o motivo de um ruminoso das pastagens causar tanto temor à exuberante floresta? Vendo um macaco com cara de gente pular de galho em galho, de repente, uma luz: nada nos padrões da Apple, mas um pequeno brilho insistente, do tipo, cu de vaga-lume. Sim, deve ser o medo da uniformidade dos monótonos pastos verdes que no passado eram florestas  polifônicas, alegres, livres e pungentes. Pobre corno, senhor dos pastos! Pensa ter a plena posse da uniformidade comestível, acabando sendo alimento de alguém que, mesmo ostentando uma piruca de touro, tem o privilégio de ouvir o Reginaldo Rossi para aplacar a inevitável dor do abandono.

Juro ter visto uma Caipora que passou com um riso faceiro, como estivesse divertindo-se dos meus pensamentos matreiros. Elas são os espíritos das mulheres que ousaram conjugar com integridade o verbo Ser, sendo mortas por mãos assassinas de bovinos possessivos e raivosos. Elas sabem das coisas! Imagino que elas sabem que nas cabeças florestais das pessoas existem inúmeras vozes e todas elas exigindo o direito inalienável de serem ouvidas. Sabem da necessidade do homem vivenciar as inúmeras personas que trafegam no seu imaginário e seria tão bom que de vez em quando deixasse o feminino ensaiar alguns passos de uma milonga, de um tango ou de uma gafieira.  Ao sentir o feminino nas suas entranhas é bem possível que o homem procure na fêmea a cumplicidade, o companheirismo e a concretização totalizante para sua mulher interna, ao contrário daqueles que censuram a feminilidade interior, vendo-as na sua exterioridade, como caça ou alimento. Penso que o riso cínico e sardônico da Caipora é uma gargalhada de vingança, pois quase sempre ela sai da floresta e vai à procura de um desavisado bovino, faz a incorporação, assumindo o total controle do seu centro de vontades e desejos. E o que resta ao pobre chifrudo e quais são suas escolhas, se a mulher-caipora assumiu totalmente o controle? Caçar outros bovinos, na ilusão que é um ato de escolha! Enquanto a caipora caça cornudos, ou touros com complexo de cornitude, divirto-me com a ideia subversiva que os ruminosos "graciosos" são os machistas (os cornos virtuais) por outros meios. É uma pena que nessa floresta não existam lobos, pois com certeza, uivando, diriam: só existe um verdadeiro lobo ao lado da sua loba cúmplice e livre.

Mesmo sabendo que muitas pessoas se perderam no coração da floresta, percebo que o medo me abandonou e posso entrar e sair dela, quando quiser. É quase Natal e minha família me espera para a ceia, mesmo entendendo que esse dia é mais um dia no calendário. No entanto, precisamos ter um dia para homenagear alguém que gostamos. E confesso o meu amor continuado pelo Nazareno e nada mais justo que homenagea-lo na data do seu nascimento. Ele me ensinou que o Deus como Ente supremo, a vontade do mundo, onisciente, julgador e vingador, o Deus hebraico, nunca existiu, a não ser nas projeções da vontade humana e na necessidade de proteção para a inexorável finitude humana. Como Jesus deve ter sofrido com a insistente indagação dos seus seguidores sobre o local onde se encontrava Deus. Ele pacientemente, dizia: "onde estiverem mais de três pessoas, lá estará Ele". E para reforçar essa ideia de comunhão, Deus como um dever-ser à união, realizava a multiplicação dos peixes e dos pães. Morrendo na cruz e verificando que os homens de boa vontade lhe abandonaram, sob os olhares corajosos das três Marias, ainda teve tempo de selar a morte do Deus externo, dizendo: "Pai, por que me abandonaste?" Aqueles que o abandonaram eram as "mais de três pessoas reunidas", o Pai, a quem ele falou nos estertores da morte e que hoje insistem que ele voltará. Pobres ruminosos, amantes da cornitude, destruidores das florestas, Ele, o Nazareno, não voltará por uma simples razão: ele se foi como qualquer mortal e sua obra imortal foi deixar Deus nos corações dos homens.

Feliz Natal.

Ivan Bezerra de Sant Anna


Publicado no site http://www.facebook.com/ibezerra52; http://ibezerra.xpg.com.br e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/

domingo, 8 de dezembro de 2013

O casamento e o tempo

O tempo não é cruel ou maravilhoso. O tempo é o tempo, apenas. Não possui finalidade, objetivo, apenas flui sob o bater ritmado da natureza. No entanto, sem ele tudo restaria imóvel, congelado, um único momento de verticalidade infinita, a eternidade inexistente para consciência que só toma rumo com o fluir do tempo.

Se o tempo cronológico flui contado e inexorável, o existencial é composto de vivências, momentos  de intensidade infinita, formando um complexo amalgamado, sem ordem sequencial. Dessa forma, sonhar voltar ao passado é perder a dimensão da magia do vivido, uma ilusão que esquece que o passado nunca se foi, mas já está incrustado em nosso Ser, queiramos ou não.

Estou feliz com a idade que tenho, pois é um referencial do meu intenso vivido, das inúmeras fases, das dores, das conquistas, dos amores e, principalmente, observar em uma pessoa muito especial, as diferentes fases do meu viver é do meu amor por ela, todas diferentes, por isso mesmo, uma magia crescente do amor. Sem o natural tempo, não poderia dizer: "uma diferença que nunca perdeu o mistério, mas sempre lhe amei, Lara".

Em seu casamento, ao longo do trajeto que me dirigia ao seu lado para o local de celebração, lugar onde esperava o meu filho adotivo, Toni, pensava sobre aquele momento. Lá estavam as pessoas presentes e pressentia a presença ausente de outras tantas muito queridas e entre elas, meu Pai que olhava para minha mãe e possivelmente, pensava: "velhinha, parabéns pelos 84 anos de dignidade".

Lá estavam alguns poucos parentes e amigos que ousavam desafiar o tempo do esquecimento, pois outras tantas ficaram em momentos passados, mas deixaram perpetuada em nossos viver, as suas existências. Assim, não fique triste, minha filha por elas não estarem presentes, inclusive aquelas que foram importantes na sua meninice, atestada por fotografias amareladas pelo tempo. Elas, por diversas razões, sucumbiram ao tempo, um primo perto, outros primos mais distantes, um caro amigo, tios queridos de outrora, todos eles que envocam uma parte maravilhosa de sua vida. Não existe nada a perdoar, mas de agradecer o que um dia eles foram para você.

É a cada passo que dava ao seu lado, sob os olhares dos amigos que brigam contra o tempo, ao som da transcendental música dos Beatles, pensava: "onde estavam os primos que carinhosamente me chamavam de Tio? Onde estavam alguns tios queridos? E os amigos convidados que gostaria de vê-los? Onde estava um filho que nunca me dignificou com a palavra Pai? Entre as crianças, não vi a minha neta que nunca vi". Bem, não é consolo, mas se desapareceram da minha existência, elas, de certa forma, estavam representadas pelos amigos resistentes, pelas alegres crianças, dentre elas, a bela daminha Yasmim.

E viva o tempo! O tempo que reafirmará sempre o nosso amor, minha filha. Um dia, um belo dia na beira mar e ao pôr do sol, estará casando meu neto, ao lado dos parentes e amigos resistentes e saberá que estarei presente, mesmo que invisível, pois o tempo me legará outros caminhos.

Lembra da sua música que fez quando pequenina? Essa coleção de frases, um plágio da verdadeira poesia, tenta retratar o quanto sua música faz parte da minha existência.

Menina Ruiva


Menina ruiva
Uiva o tempo
Existes porque existo
Existo no seu andar

Onde vais?
Como chegar?
Não importa
Ruiva menina
Contento-me o caminhar

Ruivinha mimo
Que mulherão!
Caia o queixo, caranguejo
O que me diz de um passeião?

Espumas, ondas, marolas
Rios, oceanos ou marés
importa amanhecer vermelho
Seu ruivo sonho andar
Ventos, velas, viagem
Navegar
Navegar
Mulher ruiva menina
com quatro patas no ar

Um grande beijo