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sábado, 26 de abril de 2014

A salamandra de uma Sala Manca




Não me causa estranheza o título dado ao Sr. Inácio pela Universidade de Salamanca, instituição que no passado vomitou maldições a Cristóvão Colombo por ousar afirmar que a terra era redonda. Os tempo passou, porém, ao que parece, os ilustres doutores ainda acham que a terra é quadrada, influenciados, quem sabe, pela quadratura do círculo de Pitagora ou por agraciamentos financeiros que permitam manter essa prestigiosa instituição como um museu grandioso de um passado nada grandioso. Afinal, um passado intacto, vale por uma coroação de um asno.

Em tempos que a mídia fábrica os "fenômenos" da vida, os prêmios Nobel duvidosos,  não se pode estranhar que um dos melhores padrinhos do capitalismo neoliberal seja ovacionado pelos bons serviços prestados ao grande capital. Isso talvez explique porque para a grande mídia e as grandes universidades, um homem com cara de capim, com voz relinchante é um santo, o pai da pobreza mundial, enquanto Hugo Chaves, Fidel Castro, o índio boliviano são relegados às labaredas infernais, tais quais espigas de milho assadas em noite junina. No entanto, para os intelectuais petistas essa diferença de tratamento é apenas um mero detalhe, um deslize redondo, um ovinho da salamandra.

Se nenhuma Universidade se propõe dar ao Fidel Castro um título de reconhecimento, devido a existência de um suposto acordo com o Demo, o nosso doutorzinho honoris presenteou o povo cubano com um aeroporto novinho em folha. Um presente de grego, dizem seus desafetos. Vamos com calma, pois Lula não é Ulisses e a Helena envolvida nessa história é somente a Leninha, vocalizada pelo personagem "adorável mestre" da Escolinha do Professor Raimundo. Ora, esse presente é apenas um ovinho de Páscoa, recheada de saborosos e apetitosos bombons, uns docinhos inofensivos, umas sementinhas adocicadas que ficarão plantadas em solo cubano, antes acostumado com o fumo dos aromáticos charutos. Um docinho chamado Oderbrecht que vai construir o aeroporto; um bombom OI Telecom que vai implantar um moderno sistema celular (coitados dos cubanos!); um bifinho brigadeiro da Friboi para acalentar as carentes mesas cubanas; um caramelo Gol Transporte aéreo que vai ter um tratamento preferencial nas linhas aéreas para o continente sul americano, empresa do Capo Dom Constantino, agraciado em nossas plagas com alguns processos judicias, dentre eles, uma acusação de homicídio. E como o povo cubano pagará esse banquete adocicado? Não precisa, pois os docinhos drones sugará aos poucos, lentamente e inexorável, até restar uma anemia crônica, um corpo de mulher insular prostrada, humilhada e prostituída.

Não são uns bombons legais? Todos eles presenteados pelo Honoris Lula, um bichinho bondoso  de coração 30%, um molusco de nove tentáculos poderosos, um surfista das ondas de um lamaçal oceânico. Um verdadeiro doutor! "E o diploma de 2º grau?", serpenteiam as línguas ferozes, tais como os inúmeros fios de cabelo da Medusa. Graus? Para que graus? Sócrates nunca escreveu nada e de quebra, sob o verniz da humildade, proferiu a famosa frase, "sou sei que nada sei". Uma lula socrática, um filósofo do agreste, o Messias dos pobres? Por que não? Somente no Brasil poderia emergir filósofos em forma de salada de variadas frutas e sabores, aperitivos com mix variado, tonificados pela embriagante, "água que passarinho não bebe". Enquanto um certo filósofo clama pelo esquecimento das suas pretéritas linhas graduadas ("esqueçam o que escrevi"), o nosso Honoris sem causa, com a sua língua que tortura as infiéis palavras, um chicote de  dignificado por um Deus espanhol, declara: "lembrem-se do que nunca escrevi". Ele não merece um prêmio Nobel? É uma pena que a Suécia não é a falida Espanha, região onde os ilustres professores universitários precisam de argumentos bolsistas para continuarem afirmando que o ovo de Colombo é falso e na eterna quadratura terrestre, um asno é um Sócrates Honoris Causa.

Ivan Bezerra de Sant Anna



Publicado no site http://www.facebook.com/ibezerra52; http://ibezerra.xpg.com.br e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/

sábado, 19 de abril de 2014

Danadinhoooooooooooooo!

Não, mil vezes não! Ele jamais diria essa palavra com a multiplicação infinita da ultima vogal e mesmo que o referido merecesse toda a homenagem do mundo, nunca daria esse vibrato eloqüente porque poderia ressoar múltiplas e inúmeras interpretações, dentre elas, algumas de caráter financeiro.

Luciano do Valle era um profissional de um talento ímpar para a narrativa esportiva, conseguindo ter um estilo limpo, sem rebuscamentos  barrocos, mas de uma voz potente, bonita e inflexionada pela emoção. Luciano não é somente um grande narrador, mas uma escola, um padrão de objetividade e imparcialidade, um caráter vibrante e sobretudo, uma subjetividade emocional, pontuada pela honestidade.

Quem não se lembra da final da Copa do mundo de 1998, quando do "fiasco" (será que foi somente isso?) da Seleção brasileira, Luciano do Valle foi de uma imparcialidade fantástica, demonstrando apreensões, dúvidas e não se furtando de fazer as críticas necessárias para um momento lamentável e triste. Ele sempre foi assim, emocional, vibrante, porém honesto, ao contrário de certos narradores que são pagos para laurear, propagandear e adular.

Luciano fez seu nome como narrador futebolista, entretanto, soube emprestar sua bela e empolgante voz para outros esportes, sabedor que precisava ajudar com seu prestígio outras modalidades desportivas. O Vôlei lhe deve muito, assim como o boxe brasileiro e até as mesas de sinucas mereciam a sua atenção e carinho. Era um homem generoso e essa característica é atestada por inúmeros profissionais que tiveram nele, um gesto incentivador e carinhoso, um companheiro de luta, uma referência de talento e dignidade.

Boa viagem, Luciano do Valle. Você não morreu, pois "a morte é a curva da estrada", como disse o grande poeta luso e nós que ficamos aquém dessa curva, não ficamos órfãos desamparados e no momento da abertura da nossa Copa do Mundo, a sua cadeira não estará vazia, pois estará ocupada por uma escola, por um padrão de competência e dignidade, por seguidores que tudo farão para dignificar sua caminhada.

E não era isso que os gregos chamavam de imortalidade, Luciano?

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A queima do Judeu

O Sr. Proprietário  está de parabéns por essa iniciativa turística e de lazer que é o seu Bar. Uma boa opção para aqueles que gostam de uma boa música.

Mas, por que queimar o Judas, Senhor? Não acha que essa tradição católica carrega em seu bojo um preconceito ao povo judaico, tendo como elemento nuclear uma extrema violência destrutiva, simbolizada pelas chamas destrutivas das fogueiras? Não bastam os milhões de judeus que foram cremados nas fogueiras da Inquisição e nos fornos nazistas?

Cristo, caro amigo, era judeu, apesar do universalismo das suas pregações. Um povo não deve ser estigmatizado porque sua elite religiosa, no caso, os Saduceus, era fundamentalista, avarenta e violenta. Um pobre apóstolo que ganhou trinta dinheiros para entregar Cristo (será verdade?), não pode ser o símbolo representativo do povo judeu. Ademais, meu caro, Jesus vivia dizendo que devia se dar a outra face frente à intolerância, não pelo gesto vaidoso e magnânimo do perdão,  mas por entender que um Judas, por exemplo, vive dentro de nós, assim como outras personas. Não era esse o entendimento do Profeta, quando ao ver um apedrejamento de uma prostituta, disse: "quem não tiver pecados, atire a primeira pedra".

Que mundo estranho, que teatralidade perigosa, Senhor!  A intolerância, o lúdico se combinam em um Bar e tudo isso por uns míseros trinta dinheiros a mais. Que pena! Porém, os intolerados podem podem suavizar o rosto da intolerância. Quando Jesus estava em uma cruz no Monte Calvário e todos os seus apóstolos tinham desaparecido com receio da perseguição dos Saduceus, houve três pessoas que ficaram ao seu lado, solidárias com a sua dor. O Pai tinha lhe abandonado, mas elas ficaram lá até o seu ultimo suspiro. Maria mãe, Maria apóstola, Maria puta, alvos preferenciais da intolerância machista e religiosa, todas elas Marias, mulheres corajosas e destemidas, a santíssima trindade, o coração pulsante do mundo.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Memórias de minhas putas tristes é um livro singelo, bem escrito, produzido nos anos de maturidade, com a narrativa na primeira pessoa, fato esse que demostra muita segurança de um escritor, com uma paragrafação ritmada, densa e melódica. Um excelente livro, onde a sensualidade mistura-se com a ternura e os sonhos com a realidade.
Dizem que as obras primas são obras simples, porém densas em camadas de significados que permitem a qualquer leitor, o deleite, o caminhar nas trilhas das fantásticas florestas mágicas e cada olhos de leitores diferentes, mundo e panoramas diferentes. Uma obra prima agrada a um leitor mais humilde, tanto quanto, a um leitor mais sofisticado.
Entre Cem anos de solidão, obra de um realismo fantástico, com grande influência dos textos carnavalhizados de François Rebelais, uma obra cheia de metáforas de figuração fantástica, prefiro uma obra singela que não foi construída para demostrar erudição ou aplausos intelectuais, mas um livro onde a forma e o conteúdo se fundem, ora em harmonia, ora em contraponto. Um livro para ser sentido, vivido e rescrito pelo leitor. Esse livro é "Memória das minhas putas tristes", assim como "O velho e o mar", de Ernest Hemingway, um livro de paginação ínfima, mas de uma densidade extrapolativa e transcendental.

Adiós, camarada. Las putas del mundo lamentan su muerte y las campanas de las catedrales de los peajes mundo para ti.

quarta-feira, 26 de março de 2014




João Goulart e Salvador Allende.





Dois Presidentes civis, em dois países subdesenvolvidos, sofridos, explorados e alicerçados pelas baionetas caladas ou não. Uma sina de séculos com a alternância entre a lâmina de aço desnudo ou por uma caneta judicial afiada e cortante. Ambos assumiram o imenso desafio de romper com esse ciclo nefasto, trazendo sonhos e desejos para suas populações subservientes e acostumadas com o trágico determinismo imemorial.

Goulart e Allende foram eleitos democraticamente em países de forte cultura política autoritária e, infelizmente, localizados em uma zona de influência da gigante águia americana que tinha (e tem) um conceito muito elástico de Democracia.  Se isso já era um grande problema, imagine ser eleito por uma conjunção de forças políticas de diversas orientações ideológicas e demandas diferenciadas e divergentes. Evidentemente, governos premidos por essas trágicas circunstâncias, a única saída viável para a governabilidade, mantendo as elites reacionárias em calmaria é o populismo, ou seja: esvaziar ao máximo os conceitos políticos-normativos, equilibrando ou tentando equilibrar, as explosivas demandas díspares.

Entretanto, em uma época onde o sonho socialista era uma nítida promessa viável, o risco de perder zonas de influências e seus interesses econômicos, tirava o sono dos falcões norte-americanos. Eles não podiam ficar de braços cruzados e não ficaram. Boicotes econômicos, paralisações parciais dos agentes econômicos poderosos, fornecedores de bens e serviços, levaram uma gradual insatisfação para os extratos médios da sociedade, possibilitando, dessa maneira, o aparecimento das marchas pela família e dos processos conspiratórios nos quartéis. Acrescente-se a tudo isso, a dificuldade desses governos discutirem uma pauta mínima unificada com os partidos aliados, visando evitar colisões desnecessárias que municiassem o sentimento de explosão social. No Chlie, as guerras nas ruas, as acusações recíprocas entre aliados e no Brasil, os desfiles desafiadores de trabalhadores rurais, armados com foice, comandados por Julião, a quebra da hierarquia militar pelos sargentos e Fuzileiros Navais, apesar do constante alerta de Trancredo Neves, exigindo a punição dos revoltados.

No Brasil, o Presidente Goulart, apesar de alertado, nada fazia, mantendo-se preso a um discurso populista e vazio, tentando equilibrar de forma precária, o voluntarismo desafiador do Sr. Brizola com as demandas patrimonialistas das elites políticas conservadoras, embora algumas facções vestirem o falso manto do desenvolvimento, do tipo, "cinqüenta anos em cinco anos". Enquanto os grupos de esquerda dimensionavam mal suas reais forças, usando ações provocativas, as facções de direta sabiam o que estavam fazendo. Enquanto o golpe militar se formava, não tão silenciosamente, pois como a compra de votos atuais, quase toda a população sabia, menos quem deveria saber.   Por exemplo: se Goulart tivesse ouvido o sério conservador  e democrata, Trancredo Neves, teria punido com rigor a quebra de hierarquia nos quartéis, aproveitado para fazer mudanças no alto comando militar e com isso, desmobilizaria a principal demanda da caserna e ao mesmo tempo, mandaria para reserva alguns militares golpistas.

Quanto a Allende, o golpe militar brasileiro não lhe serviu de exemplo, pois cometeu erros piores e com um agravante: ele era um socialista, enquanto Goulart era um grande estancieiro esclarecido. Como tinha o exemplo do modelo golpista brasileiro, a primeira coisa a fazer era uma gradual  substituição nos quadros das forças armadas e a criação de um serviço de contra-informação militar da sua confiança. Era necessário alinhar as forças armadas com os propósitos democráticos e isso não foi feito ou, na melhor hipótese, realizado de maneira precária. Não podia confundir um governo democrático com um governo hesitante e fraco. As liberdades e direitos civis devem estar em sintonia com o processo democrático real e quando tais diretos se transformam em casamatas para a corrupção e o aliciamento golpista, a Democracia logo será negada e, por consequência, as liberdades civis sucumbirão. Assim, deveria impor ordem nas ruas, permitindo somente manifestações sem violências, mesmo que isso desagradasse a alguns aliados.  Ele esteve em uma encruzilhada e não soube avançar. Quando as classes produtoras começaram um boicote econômico, a resposta do governo deveria ser firme, intervindo nas empresas, encampando algumas, visando normalizar a entrega de bens e serviços. No entanto, nada foi feito.

O golpe militar foi dado no Brasil e Goulart fugiu para o Uruguai, para preservar sua dignidade política, mas apenas por uma fração de tempo, pois morreria em circunstâncias suspeitas. Allende preferiu morrer, resistindo heroicamente no Palácio Presidencial para elevar a dignidade como valor nacional. Ambos cometeram um grande erro: acreditarem nas frágeis regras democráticas em países de forte cultura autoritária, onde a liberdade é confundida com atos conspiratórios e a Democracia com a fraqueza permissiva dos governantes. Esse é o grande paradoxo do liberalismo nos países que convivem com o populismo: sua pauta normativa é esvaziada e em seu lugar, princípios vagos e indeterminados assumem o norteamento das decisões pragmáticas e contraditórias que acabam destruindo as conquistas liberais. Uma permissiva liberdade abstrata pode trazer em seu bojo a sua própria negação.

Por que a grande mídia financiada pelos cofres norte-americanos odeia tanto o Chavismo? Talvez porque, mesmo cometendo muitos erros, Chavez e seus seguidores aprenderam com os erros dos outros governantes que foram derrubados por golpes de Estado. O próprio Chavez chegou a ser deposto por um golpe fracassado que não logrou êxito, graças às ações firmes de chefes de governo do continente, dentre eles, Fernando Henrique Cardoso.

É importante que esses dignos governantes não sejam confundidos com certos líderes populistas que, usando discursos de esquerda, favorecem com grandes financiamentos públicos as grandes empresas de bens e serviços e parentes próximos, enquanto distribuem esmolas "disso e daquilo". Esses falsos profetas são imunes aos golpes de Estado, pois gerenciam com muita competência os interesses dos extratos dominantes. No entanto, convém não retesar muito a corda da corrupção, pois os gerentes podem ser removidos quando começarem a incomodar e para melhor acomodação das diversas demandas, cabeças oportunistas que se tornam inconfiaveis, podem rolar. Uma lição do mestre Maquiavel.

Ivan Bezerra de Sant Anna



Publicado no site http://www.facebook.com/ibezerra52; http://ibezerra.xpg.com.br e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/




quinta-feira, 20 de março de 2014

Partes

Somos partes
De um mundo partido
Paridos em partes
De quem, ninguém sabe
Mistérios que  chegam
Mistérios que partem

Quando eu me vejo
Não me espanto
Que do mundo que me reparte
Você sou eu
Eu sou você
A melhor parte

segunda-feira, 17 de março de 2014

Criança que um dia foste
Menina com cheiro de mar
Mulher de contornos suaves
Ancas lindas abastadas
Seios que fazem sonhar

Quantas mãos lhe tocaram
Modelaram o seu andar
Mãos calosas do trabalho
Mãos de acenos obscenos
Umas de doce venenos
Outras que fazem sonhar

Seus filhos edipianos
Com sina de castração
Você mãe e mulher
Qual a escolha?
Que tentação!

O verde que vestia
Quase nada ou pouco resta
O egoísmo dos seus filhos
Salpicados de cimento
Arrancaram a sua veste

Ah, Ara... Que saudades do doce mel dos seus cajus...