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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Miar ou rosnar?



Miar ou rosnar?

Quando se mostra os dentes, sinaliza-se que está feliz ou quer morder. Em ambos os casos, mesmo o mais benéfico, uma boca salpicada de dentes exala o hálito da alto-suficiência, legando aos outros, no máximo, um bom local na platéia.

Quando se rosna, avisa-se que o "senhor do pedaço" não está para conversas com estranhos, pessoas disponíveis e desnecessárias. No entanto, em outros momentos, pode latir, chamando-as de amigas, uma confraria de aplausos, uma platéia divertida. 

Quando se mia - gatos e cachorros podem fazê-lo -, está a dizer que precisa com urgência dos outros, e a humildade desejosa é a semente do verde poético. 

Imagino que nessa foto, o intrépido e caçador "au-au", deparando-se com a verdura exuberante da vegetação solícita, trocou o seu rosnar solitário, por um miar de uma solidária prece.

Ivan Bezerra de Sant Anna 

domingo, 28 de dezembro de 2014

Eugenia

Oi... Gênia!

De uma lamparina pretérita
Com vapores de nuvens sonhadas
Saíste tateando os sonhos 
arrastando um baú de desejos 
que não eram somente teus 
Mas dos dedos da humanidade 
Que lustram  a lamparina 

O amor quedou doente?
Se foi nas brumas do tempo?
Não! Esqueci da delicadeza
De lustrar a lâmpada dos seus desejos

Semente, flor e algodão 
O tempo nos legou a nossa menina 
Ruiva, livre e traquina 
Uma graça de mulher

Nesse dia
Lustro a lamparina 
Com mãos encardidas pelo tempo
Com rugas do aprender
Elas depõem e expoem:
O encanto de uma prece
Um carinho oceânico 
Um amor das brisas do amanhecer
Esse é o meu desejo
Seja feliz, Gênia menina

Ivan Bezerra de Sant Anna

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Natal do Tobias

Natal do Tobias

Não é nostalgia saudosa de um passado, mas são pontadas da memória que insistem e persistem, transformadas e modeladas pelo presente. Lá está a velha Praça da Catedral, que depois de sucessivas reconstruções (cada Prefeito faz uma nova), resta apenas evocando sua história, a irremovível catedral católica. A velha praça já teve de tudo: um zoológico cercado por bambus, com Gansos e cisnes nadando no canal, preguiças que insistiam atrasar o tempo e macacos que faziam sucesso com a meninada com mãos de pipocas. Depois de algum tempo, a velha gruta das onças pardas, cedeu o lugar para a Cascatinha, local de encontro boêmio de todos amantes da noite, onde pontificavam com suas presenças, Bode da Cascatinha, Nega da Madruga, Rui Seixas, Zé Perigo, João Carlos Pé de Valsa e outros, não menos ilustres.

Em épocas natalinas - ao contrário dos anos recentes, onde a praça convive com a escuridão solitária - a praça enchia-se de pessoas de todos os níveis sociais, ao longo de quatro semanas. Cada pessoa caprichava na sua indumentária que, bem ou mal, refletia as suas posses, mas com o cuidado esforçado da novidade, da estréia, mesmo que fosse uma nova calça curta, roupa comum e necessária para demarcar a passagem hierárquica da meninice para a adolescência. Lembro-me que via com certa inveja, o Zé Rolette, ostentando a sua superioridade temporal, vestindo uma calça "boça de sino", de mais de dois palmos de boça, produzindo um certo comentário malicioso que ele tinha "surrupiado" a pantalona da irmã. Para não falar do elegante Marcos Fontes, futuro The Top's, que mesmo suando como uma chaleira furada, vestia uma camisa Bamlon com gola alta, daquelas que os nórdicos usam em seu rigoroso inverno.

Era um festival de disputas musicais, onde ritmos, melodias, formavam uma verdadeira engenhosa cacofonia, somente perturbada pelo apito do carrossel do Tobias que, muito tempo atrás, meu avô Juvenal Batista importou da terra do Tio Sam. Quem não se lembra do velho preto Tobias convidando a todos para uma viagem rodopiante de fantasias? O mais interessante é que esse carrossel, por ter sua origem no sul dos Estados Unidos, o negro Tobias foi concebido para ser apenas uma pessoa engraçada e solícita às crianças brancas que embarcavam na sua aventura giratória. Entretanto, em nossa terra de mulatos, que muito deles se acham brancos, Tobias era o personagem central, acenando e rindo, como se gargalhasse da imbecilidade histórica desses mulatos untados de pó de arroz.  Onde se encontra atualmente o velho Tobias e seus cavalos deslumbrantes? Depois que foi comprado pela administração municipal, foi desmontado, roubado, destroçado pelos desonestos cultores da modernidade, assim como fizeram com os antigos casarões, embebidos de histórias e tradições. Éramos jovens e modernos, e nem por isso deixávamos de gostar do velho Tobias. Vivíamos em uma sociedade que teimava manter seus valores, e a idade quando avançava era a justa medida da responsabilidade e prestígio. Quem podia confiar em um jovem, naquela época? Somente a idade podia trazer confiança, responsabilidade, e a nós restava uma liberdade irresponsável, típica das crianças imaturas, mas não menos vigiada. "Deixem os garotos, pois com a chegada da idade, tudo vai ao seu lugar", diziam, alguns patriarcas tolerantes. Mesmo sem sabermos que os limites devem existir para serem ultrapassados, nós quebrávamos barreiras, ensaiando um tímido grito primal do rock, lendo livros proibidos, e com certo temor, erguíamos o punho esquerdo para o alto, e com o direto, tocávamos uma memorável punheta, ato necessário e saudável, impulsionado pela ausência das mulheres, reprimidas e mantidas à distância.

E a festa do Natal da praça era esse constante exercício de alegria, liberdade, diversão, que se fazia de tudo, menos rezar, pois tínhamos a saudável intuição que o festejar do nascimento de uma criança era motivo de alegria, não de chorosas rezas. Na praça tudo acontecia, com padrões variados, desde  desfiles de moda, paqueras, namoros, jogos, diversões, discussões acaloradas, até duelos de grupos rivais que resolviam suas diferenças em uma saudável troca de socos. Entretanto, a praça não era tão igualitária quanto as diferenças sociais, pois na área do fundo da catedral, concentravam-se as pessoas humildes, receosas pelo contato próximo com os "bem nascidos", comportamento típico daqueles que infelizmente sabem o seu lugar. Apesar disso, a praça era um espaço heterogêneo de criatividade alegre, ao contrário das festas atuais nas ruas e praças, onde prepondera a homogênea massa, separada por cordões de isolamento dos "bem nascidos", conduzida por um hipnótico Axé ou um forró estilizado, para o crescente lucro de empresários gananciosos e sem escrúpulos.

Perto do Cachorro Quente de Seu João (não tinha Macdonald igual!), era o lugar onde ficava o guarda civil Carlos, um morenão bonachão que usava um cassetete de borracha como enfeite. Gostávamos de conversar com ele, e  de vez em quando, levávamos refrigerantes para ele. Em uma dessas ocasiões, em plena noite de Natal, perguntei se ele não gostaria de passar o Natal com a família, em vez de estar em uma praça. Ele abriu um largo sorriso e disse: "por acaso, Jesus comia peru e tinha casa? Não eram as praças, as ruas, a sua casa, e o povo que o acompanhava, sua família?" Na época, achamos estranhas suas palavras, mas olhando hoje para a praça da catedral, envolta em uma escuridão, atenuada por lâmpadas que tentam compensar a ausência de luz, percebo que o velho Natal do Tobias se foi para sempre, restando um Natal privatizado, isolado, circunscrito a uma mesa com um peru em cima, sob os olhares gulosos de poucas pessoas, denominadas de familiares. Algumas rezam antes do banquete e pedem que Deus esteja presente. Ele possivelmente pode estar, mas como disse o Nazareno, "eu não tenho família. A minha família são todos vocês". Verdade, Mestre, e de preferência, todos reunidos em uma praça, em estado de alegria, ouvindo o apito do Tobias.

Feliz Natal

Ivan Bezerra de Sant Anna


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Vá em paz

Vá em paz, Araripe. Os caminhos são infinitos e os desafios permanentes. Você sempre fez a diferença com coragem e humor, desafiando uma sociedade preconceituosa e hipócrita. Você deixou seus poemas e siga sempre em busca da poesia tão amada, ansiada e fugidia, pois a poesia, caro poeta, é a vida vivida, estofada pelos sonhos e eternamente infinita na sua verticalidade radical. Vai deixar a saudade por sua ausência, e muita alegria no coração daqueles que acreditam no eterno caminhar. Você não vai voltar, mesmo com a torcida dos que acreditam no retorno. Não olhe para trás; abra suas portentosas asas de albatroz, sinta o vento, e dê volteios, piruetas, atravesse as nuvens, brinque com as estrelas e arranque com doçura em busca da poesia.

Nesse momento, poeta, como já disse um camarada das andanças poéticas, os sinos dobram para você, como  lágrimas que tombam, como aplausos que saúdam. Você morreu? Bem, "se a morte é a curva da estrada e morrer é só não ser visto", como disse o grande poeta Pessoa, acalenta-me olhar o mar, lembrando das palavras marítimas do Neruda:

Morro em cada onda cada dia.
Morro cada dia em cada onda.
Mas o dia não morre
nunca.
Não morre.
E a onda?
Não morre.

Obrigado

domingo, 7 de dezembro de 2014

Que saudade da Bahia...

Que saudade da Bahia...

Que invenção é essa, Totonho Leite? Um desfile fora de hora na Ivo do Prado, tentando reviver a famigerada e corrupta festa do Precaju? De onde surgiu essa "maravilhosa" ideia? Será uma reserva estratégica visando reestruturar o Precaju em 2016? Por que não organizou essa "sergipanidade" não época dos festejos do Rei Mono, momento propício para os passos engraçados do Caranguejo ou da manifestação alegre da "mulherada" do Cajurana? Isso não está mais para "baianada" do que para "sergipanidade"?

 Oh... caro Totonho, o mangue está morrendo por morte matada e você pensando ganhar dinheiro dos despojos do pobre finado caranguejo. Veja o mangue da 13 de Julho! Existe uma campanha criminosa por parte das empreiteiras da construção civil, visando a total destruição do mangue, com o uso de produtos químicos, apesar da negativa do secretário do meio ambiente, conhecido no meio empresarial como "Bendita Geni". E o que nosso ilustre "verde" - agora também cultuador do cangaço - está fazendo? Correndo atrás do Prefeito e das empreiteiras para financiar a sua declaração de amor por Sergipe, embalada pelo Axé baiano. Aliás, o Sr. Prefeito não deveria estar gastando os recursos públicos em um carnaval privado, fora de hora, que visa tão somente gerar lucros para os seus organizadores, e possivelmente será o velho Precaju baiano com outro nome. Chamo isso de reserva estratégica: em 2015, Totonho e seus blocos "sergipanos"; e em 2016, os velhos blocos da baianada, todos rebatizados e convertidos, comandados pela dupla cangaceira, Fabi e Totonho.

Tudo vai dar certo, Totonho do Mangue, pois os empresários construtores são muito bonzinhos e adoram bons negócios, haja vista, os grande negócios com Paulo César Farias, em épocas coloridas; as construções das arenas mais caras do mundo, na época da Copa; e, recentemente, a participação laboriosa da Oderbrecht e suas aliadas no portentoso escândalo do Petrolão, sem falar, é claro, as eternas negociatas com a CEF, onde o órgão financiador assume o "mico" e as empresas construtoras, o lucro, pois esse é o novo modelo socializante do Capital neoliberal: socializar os prejuízos e privatizar os lucros!

Sabe, Totonho, agora entendo o seu amor declarado pelo Cangaçeiros, impregnados de perfumes e o azedo cheiro de suor. Afinal, esse mundo da folia Axé, mangue e construções não difere muito do romântico universo dos fuzis, punhais, coronéis, cangaceiros e xaxados. Você bem que poderia ajudar a criar um novo bloco para a festa da "sergipanidade", intitulado, Os Cangaceiros, e nele estariam presentes as temáticas do saque, conchavos, grilhagens, assaltos e outros. E quem representariam Lampião, Corrisco, Volta Seca e Maria Bonita? Bem, candidatos não faltam, né, Totonho do Agreste?  

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O Urubu

O Urubu

Hoje é um desses dias que reputo de extraordinário. Estava no apartamento, quando de repente, mais do que de repente, pousou uma grande ave negra. Bem que podia ser uma pomba, um gavião, mas logo um urubu? E o bicho, com as asas murchas, lançava-me um olhar pedinte e suplicante. O que é que essa gávea ave quer, pensei. Lembrei-me que estava preparando um bacalhau à Gomes de Sá e isso poderia ser o motivo para essa visita inesperada. Divertidamente, pensei: essa pretinha gosta tanto de um bacalhau português, que é bem capaz de ir à segunda divisão em busca do seu grande amor. Nesse momento, senti uma grande ternura pela agourenta ave.

Nesse instante, essa imagem urubalina fez-se poesia! Acreditam? Minha memória evocava lembranças da antiga avenida Simão Dias, local onde morávamos, como também o poeta Sampaio, amigo dileto de meu pai. Ah, o poeta Sampaio... Que figura humana maravilhosa! Era o poeta dos despossuídos, dos humildes, das putas, dos molequeiros e de todos os infelizes. Talvez por isso, o urubu fosse uma fonte inspiradora, uma imagem triste e livre do devir humano. E talvez em um desse dias pesarosos, disse:

URUBU

Baste que se levante a mão
na sua direção
prá que o urubu
arranque vôo violento
tal o pensamento
que ele tem da humanidade.

E isto ele pensa
como para se vingar
do horror que a sua figura inspira.

No eterno luto das suas penas,
prá mostrar que tem alma branca,
ele descreve no espaço
os seus poemas incríveis
que o homem plagiou com os aviões.

E de lá do coração da distancia,
o homem em baixo,
um ponto miserável,
tal como se lhe afigura,

menor do que ele,
o urubu risca gargalhada de vôo
no rosto do infinito,
e sente que suas asas
são maiores que o pensamento humano.

E desce,
pousa no telhado,
Corre os olhos em torno,
inquieto, desconfiado,
como um grande que temesse
o ódio dos infelizes.