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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Mitos, verdades e mentiras

Mitos, verdades e mentiras.

O governo anuncia a construção da maior hidroelétrica do mundo na Amazônia, em uma área de aproximadamente de 780 km2, o Parque Nacional do Xingu, que ficará submersa para sempre. O maior crime ecológico da história vai ser perpetuado, em nome da eficácia energética da Nação, uma verdade dita e redita com requintes de farsa e negociatas.

Não se questiona a necessidade da ampliação do sistema de produção elétrica e todos os esforços nesse sentido são louváveis. Entretanto, os países desenvolvidos estão preocupados na implementação de produção energética que sejam de baixo teor ofensivo para a comunidade e o meio ambiente. A produção de energia elétrica por hidroelétricas produz uma energia limpa? A maioria dos países acha que não, e investe pesadamente em energias alternativas com a finalidade de desonerar o sistema total de produção, como é o caso, por exemplo, da China, Alemanha e os EUA. A produção energética por hidroelétricas não só agride o meio ambiente, como não é um sistema de produção linear, oscilando por influências climáticas. Sistemas de média potência produtiva, as energias aeólicas, solares e outras, se não produzem energia de alta potência que visem à produção industrial, no entanto, desafogam o sistema produtivo global, liberando-o para a produção industrial.

Somente existem três modelos de produção de alta potência elétrica, que são: o sistema hidroelétrico, termoelétrico  e nuclear. O termoelétrico, com suas terríveis emissões de CO2 e baseado em combustível não renovado, é o mais nefasto ao planeta Terra. Já o hidroelétrico, o sistema predominante em nosso País, atinge e agride o meio ambiente e oscila com as variações climáticas. O termonuclear é um sistema de produção linear e constante, no entanto, necessita de maiores cuidados com a constante manutenção e com o despejo do lixo atômico. Existe uma propagando massiva contra o sistema termonuclear, enfatizando os perigos dessa tecnologia, com exemplos de desastres que aconteceram. Ora, toda tecnologia adiantada traz no seu bojo maiores perigos, mas não vamos deixar de viajar de avião, trocando-o por carroças, porque o pássaro metálico é mais perigoso. A questão é investir em segurança e manutenção. No que pertine à energia hidrelétrica, vale lembrar quantas barragens se romperam, quantas inundações terríveis acontecem todos os anos, quantas mortes são contabilizadas em decorrência dos efeitos diretos e indiretos do sistema hidroelétrico?    

No Brasil, o governo anunciou um plano ambicioso de energia alternativa, que até o presente momento não passa de meia dúzia de cataventos, comprados a peso de ouro, através de negociações um tanto obscuras. Entretanto, esse feito é comemorado pelos seguidores do governo como o maior avanço na luta contra as emissões do CO2, argumentando que essas terríveis emanações carbônicas estão diminuindo drasticamente! Uma afirmação como essa é no mínimo simplória, burra, para não dizer, cínica e mal intencionada. Parece piada, não? O nosso sistema de produção elétrica quase não usa termoelétricas, e como um punhado de cataventos pode diminuir a emissão dos gases carbônicos? Os cataventos, de forma mágica, vão produzir energia para a crescente frota de automóveis, aqueles carros mais caros do mundo, que o ex-presidente Lula implementou o financiamento com o programa "Meu carro, minha vida", levando ao delírio às Montadoras e Bancos? O 

Urge, no Brasil, que a classe política se conscientize do problema energético, que é mundial, e opte seriamente pelas fontes alternativas. O Brasil é um país tropical, em que o sol nos brinda quase o ano todo com a sua presença, de forma que a energia solar é plenamente viável. O custo das placas pode ser muito bem assumido pelo governo, se aplicar seriamente os recursos públicos. Há, também, a possibilidade de investimento no tocante à energia eólica, ou seja, seguir os passos dos países do primeiro mundo, optando pelas formas alternativas e que não oferecem riscos nem causam dano à natureza e ao ser humano.

Pois é, companheiros. Se o nosso sistema de geração de energia alternativa avança em passos largos, por que a construção dessa mega hidroelétrica? Existe quem afirme que a área inundada servirá para os projetos agropecuários do Lulinha e sua tropa de empresários do campo, e sem falar nas ajudas financeiras às pobres empreiteiras, capitaneadas pela Oderbrecht.

Ivan Bezerra de Sant Anna


domingo, 1 de fevereiro de 2015

A grande farsa

A grande farsa

Não era uma decisão difícil, apesar de todas as consequências oriundas do tracejo da pena sobre o papel sentencial. Já decidirá outras sentenças semelhantes, e seus colegas, umas outras tantas, até mais extravagantes do que a que se preparava para decidir. Censurar leis; mandar a administração comprar medicamentos sem indicação orçamentária; colocar paraplégicos nas forças policiais; criar privilégios para pessoas em detrimento das cláusulas constitucionais que proíbem descriminação por raça e credo; são, dentre outras mais cabeludas, decisões interventivas e de caráter legislativo. Afinal, ele sabia que pertencia a uma elite de sábios que tinha a nobre missão de aplicar os princípios programáticos, e não era uma lei fabricada por um bando de corruptos, autorizado por uma população imbecil, que iria impedir que os mais sábios estabelecessem os critérios do verdadeiro critério de justiça. Platão sempre soube essa verdade eterna e essa história de Democracia é uma verdadeira farsa. Manda quem pode, obedece quem tem juízo!

Sabia que os magistrados cometem erros, mas erram como os deuses gregos, que erravam para acertar. Muitas vezes namorava com a depressão, quando certos intelectuais diziam que o Judiciário brasileiro assemelhava-se a um mercado persa, onde quem dá mais, leva. Que leviandade, pensou. No fundo, era um neoliberal que acredita que as colisões de sentenças díspares, leva a um resultado mais justo, em decorrência da mão invisível do mercado jurídico. Com um acesso de riso, imaginou o idiota do Karl Marx declarando que os magistrados obedecem à classe dominante. Coitado do judeu barbudo, se a alma dele se instalasse em um corpo de um brasileiro, perceberia que os magistrados são a própria classe dominante! Votos legitimadores do Poder? Quanta bobagem, para os juízes, mesmo os concursados, basta um ato de nomeação e uma caneta! Nesse ponto, os militares e os juízes são iguais, pois, fuzis e canetas somente diferem pelas circunstâncias, sendo iguais na busca da legitimação pelo procedimento.

Ele estaria cometendo um sacrilégio ao autorizar que um garoto que passou no Enem fosse aceito na Universidade? Estaria cometendo uma violação legal? Ora, seus colegas vivem interferindo nos critérios didáticos das universidade, quando reavaliam os resultados dos concursos, subsumindo-se como super doutores, como foi o caso de uma juíza que foi reprovada nas provas iniciais de mestrado e aprovada por um colega com nome de cantor de Ié-Ié-Ié. E por que não falar de um certo membro da Justiça que um juiz lhe permitiu ter o status de professor com dedicação exclusiva, quando o mesmo já era um dedicado membro do Ministério Público? 

O seu caso era mais simples, pensou. Claro que esse garoto jamais entraria em uma universidade da França ou Alemanha, pois os magistrados desses países saberiam que essa decisão era privativa dos conselhos técnicos e didáticos dessas universidades, e somente em casos excepcionais, para garotos excepcionais, esses referidos conselhos autorizariam. No entanto, ele sabia que o ensino brasileiro era uma grande farsa, e que o Enem era uma verdadeira molecagem, onde não se avalia nada e o objetivo é permitir a entrada de todas as pessoas, utilizando-se de quotas indígenas, de quilombolas e dos "sem terras", com finalidade populista de propiciar grandes lucros ao setor privado da educação. 

Esse garoto era um gênio? Ele sabia que no máximo, o garoto tinha uma boa memória para recordar o que, às duras penas, decorou. Mas quantas pessoas que passaram nessa prova ridícula, poderiam estar cursando uma universidade séria? Possivelmemte, quase nenhuma, refletiu. Então, por que impedir que esse garoto "genial" tenha acesso ao curso de medicina? Uma simples norma pode impedir que um Mozart da medicina possa surgir? Estava achando muito divertido toda essa paródia carnavalesca, e por que não rufar os tambores da bateria e deixar passar o bloco do populismo? E a lei? Ora, a lei é apenas uma lei! Ele sabia que a verdadeira lei sairia da sua sábia caneta, assentada por seus dedos rigorosos e justos. Então, com um leve sorriso matreiro nos lábios, o riso do Poder, ele decretou:

"... E de acordo com as provas e razões acima aduzidas, sentindo o aroma da cebola lacrimante, decreto que o requerente é um gênio precoce e deverá ser matriculado na Universidade Federal de Sergipe.

Cumpra-se. PRI"

Ivan Bezerra de Sant Anna


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O Fracassado

O fracassado

O velho revolucionário fechava os seus olhos que faiscaram como vaga-lumes irrequietos durante um bom tempo. Olhos que eram para os despossuídos e explorados, como duas estrelas gêmeas que possuíam a magia de trazer o céu para o duro chão do mundo. Era um dia frio, irmanado com o flog, tão comum em um dia inglês, nada propício para um grande viagem, mas suas pálpebras pesavam, sentia o cansaço, o peso do mundo. No entanto, fecharia seus olhos serenamente, apesar de tantos livros que ainda deveria escrever e das lutas que deveria travar. Não gritaria contra o destino como Prometeu, seu mito predileto, e nem daria um soco no ar, como fez Beethoven, em noite de tempestade, nos derradeiros momentos de existência mundana.

Valeu à pena uma vida de dificuldades financeiras, expulsões de vários países europeus, uma dedicação férrea a uma causa que o fez esquecer que seus filhos passavam dificuldades alimentares? Ao seu leito, com um sorriso que nunca desapareceu do seu rosto, Jenny segurava a sua mão, e, naquele momento, teve a impressão  que esse sorriso resignado lhe  atingia como uma leve bofetada, uma declaração gentil e amorosa do seu fracasso como esposo e pai.

Morreria como um fracassado, ladeado pelo amor de poucas pessoas, as quais não lhes deu a devida atenção merecida? Onde estavam os companheiros, os trabalhadores, pelo quais dedicou quase toda a sua vida? Seria a sina de alguns judeus que ousaram desafiar a ordem preestabelecida, como foi o caso do Nazareno, que morreu agonizando em uma cruz, pobre como Jó, lamentado apenas pelas três Marias? Seria uma maldição lançada contra quem se dedicou à arte do pensar, como foi o caso de Sócrates que viveu na indigência, sustentado por admiradores e amigos?

A sua respiração era inconstante como ondas marítimas que vão e voltam. Ah...as ondas... Essas gigantes marítimas  o fizeram lembrar de outro fracassado que morreu esquecido, depois de ter descoberto a América, um intrépido aventureiro chamado Cristóvão Colombo, que ousou desafiar os mares do medo e do preconceito. 

Não era tão ruim ser um fracassado, pensou. Estava bem acompanhado por fracassados que mudaram o mundo para melhor. Não era um crente e não acreditava em religiões, mas como esquecer Francisco de Assis, um fidalgo rico que preferiu viver na pobreza como um fracassado? Um ato de loucura ou uma sublime imitação do seu Mestre Jesus?

Nesse momento ímpar da sua existência, no crepúsculo magenta do vôo da coruja, sabia que, na maioria das vezes, o pão e o vinho estiveram ausentes da sua mesa, no entanto, em compensação, as palavras eram abundantes e generosas como o sol do amanhecer, e na regência da sua batuta, elas bailavam em frases e parágrafos exuberantes. Escrevera muitas páginas sobre a filosofia dialética, denunciando individualismo possessivo, a exploração das pessoas e a necessidade de um devir harmônico, baseado na solidariedade. Mas era forçoso reconhecer que na sua simplicidade discursiva, o Nazareno foi transcendente, percebendo que o motor da dialética é a busca constante pela igualdade, e quando disse que "os humildes herdarão a terra", não falava em uma sociedade de iguais, de vida comum, um comum(ismo)?

O velho filosofo, depois de um longo suspiro, fechou os olhos, levando a certeza que não fracassou, mas que o seu trabalho, sua luta, apenas lhe despojou das riquezas efêmeras, ensinando-lhe a virtude da humildade igualitária.

Ivan Bezerra de Sant Anna 


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O mundo de Maria

O mundo de Maria

Maria! Maria! Todos elas são Marias, dizem os crentes parciais, filhos diletos de Édipo, comparando-as com a diáfana mãe do Nazareno. No entanto, nem todas geraram deuses, homens geniais, homens que cavalgaram com o espírito do mundo, e as que fizeram, com honrosas exceções, as suas histórias singelas foram apagadas da história, lembradas apenas por suas maternidades ilustres. Maria de Nazareno, esquecida pelas penas que rabiscavam pergaminhos, foi lembrada apenas por um imberbe apóstolo, no momento da Via Crucis,  o trágico acontecimento que os filhos de outras tantas Marias se escondiam por medos demasiadamente humanos. Entretanto, solitárias, solidárias, lá estavam as três Marias, chorando a dor, não de um Deus, mas de um filho, a cria amada, como são todas, de todas as Marias do Mundo.

O que significa a palavra Maria? Um significante sem significado, onde povoam inúmeros predicados, relativizados por vontades arbitrárias, ou um conceito aberto, embalado por uma musica de totalização concreta, uma gênese musical do mundo, escrita e reescrita ao longo da linha do tempo? Com a timidez de um beija-flor, que toca as pétalas de uma rosa, deixo-me levar por três palavras tentadoras de sedução irresistível: Maria, Mulher, Mundo. Essas duas últimas palavras talvez sejam os reais significados que geraram inúmeros predicados, usados e abusados sem parcimônia, por vezes, enaltecendo, horas outras, vilipendiando. Convém, dessa maneira, tentar unir esse universo constelar de significados, tarefa um tanto ingrata, não só pelo imenso trabalho reflexivo, mas, principalmente, pelas surpresas não muito agradáveis que espreitam com olhos leopardianos, a pretensa superioridade masculina. 

Convenhamos que não é nada fácil perceber que mijamos nos cantos, marcamos territórios, capturamos as fêmeas para a nossa posse, e tudo isso para disfarçar a nossa inferioridade, encoberta por um ego individualista e possessivo. Não importa quantos livros escrevemos, quantas guerras ganhamos, quantos territórios conquistamos, pois nunca seremos o útero do mundo, a solidariedade exuberante, a maternidade como uma revolução permanente. Uma valoroso filho de Aquiles, envergando sua coragem desmedida e vaidosa, não passa de um ratinho assustado, frente a uma singela filha de Maria, que encontra no dever solidário para com os outros, uma coragem inaudita e desprovida de ambição. Um vaidoso poeta com seus poemas rebuscados de melodias rítmicas, que anseia, busca e troveja, depara-se com um vazio a ser preenchido, uma lacuna intransponível à transcendência, pois seus olhos ambiciosos não percebem uma singela verdade, de sinuosa sensualidade e de liberdade incontida: os poemas são meros e maravilhosos simulacros que tentam plagiar a vida, mas são  nos tambores cardíacos da solidariedade, nos vôos livres das bruxas, no olhar longínquo das águias, nos uivos lunares das lobas-mulheres, que a poesia se encontra.

Nesse dia, Maria Ivanda, que marca 86 anos do seu percurso na linha ditosa do tempo, não cantarei sua coragem, a força da loba que mostrava os caninos em defesa dos seus filhos queridos; não falarei da mulher que rompeu limites, que para muitos eram intransponíveis, mas que para você era um dever da sua alma guerreira; não direi nada sobre a mestra que devotou a sua vida aos seus alunos, dando-lhes esperança e ensinando-os a dúvida reflexiva, mãe carinhosa da filosofia. Cantarei, isto sim, uma prece de agradecimento a quem me mostrou por atitudes e gestos que as palavras solidariedade, fraternidade e igualdade são gentis, sensuais e sedutoras, e porque não dizer, fêmeas e femininas, as eternas promessas do devir humano. Quando me ocorria os medos, as inseguranças e os presságios, lá estava você, como uma onda gigantesca, um maravilhoso volume marítimo, avançando contra as formações rochosas dos preconceitos e dos medos. Esse é o mundo que me ensinou a ver. Esse é o mundo de Maria, de todas as Marias, de Maria Ivanda, a quem fez por merecê-lo, por seu amor, honra, coragem e dignidade.

Um grande beijo 

Ivan Bezerra de Sant Anna.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Miar ou rosnar?



Miar ou rosnar?

Quando se mostra os dentes, sinaliza-se que está feliz ou quer morder. Em ambos os casos, mesmo o mais benéfico, uma boca salpicada de dentes exala o hálito da alto-suficiência, legando aos outros, no máximo, um bom local na platéia.

Quando se rosna, avisa-se que o "senhor do pedaço" não está para conversas com estranhos, pessoas disponíveis e desnecessárias. No entanto, em outros momentos, pode latir, chamando-as de amigas, uma confraria de aplausos, uma platéia divertida. 

Quando se mia - gatos e cachorros podem fazê-lo -, está a dizer que precisa com urgência dos outros, e a humildade desejosa é a semente do verde poético. 

Imagino que nessa foto, o intrépido e caçador "au-au", deparando-se com a verdura exuberante da vegetação solícita, trocou o seu rosnar solitário, por um miar de uma solidária prece.

Ivan Bezerra de Sant Anna 

domingo, 28 de dezembro de 2014

Eugenia

Oi... Gênia!

De uma lamparina pretérita
Com vapores de nuvens sonhadas
Saíste tateando os sonhos 
arrastando um baú de desejos 
que não eram somente teus 
Mas dos dedos da humanidade 
Que lustram  a lamparina 

O amor quedou doente?
Se foi nas brumas do tempo?
Não! Esqueci da delicadeza
De lustrar a lâmpada dos seus desejos

Semente, flor e algodão 
O tempo nos legou a nossa menina 
Ruiva, livre e traquina 
Uma graça de mulher

Nesse dia
Lustro a lamparina 
Com mãos encardidas pelo tempo
Com rugas do aprender
Elas depõem e expoem:
O encanto de uma prece
Um carinho oceânico 
Um amor das brisas do amanhecer
Esse é o meu desejo
Seja feliz, Gênia menina

Ivan Bezerra de Sant Anna