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sábado, 27 de junho de 2015

Deus dança...

Deus dança...


Nos primórdios da existência humana, três comportamentos ritualísticos foram essenciais para o desenvolvimento da coletividade humana: o sexo, os encontros  em volta da fogueira e a dança.  O sexo tão instintivo, natural, selvagem e prazeiroso, era a flecha do cupido, o toque do encontro de  Eros, o inicial prazeiroso toque entre o homem e a mulher. Naqueles idos remotos, antes do verbo, o princípio era o sexo, algo gostoso, inocente, o erótico sem culpas ou Édipos, sem o pecado das crenças, segundo as belas palavras de M. Béjart, "o erotismo é a vontade de negar a morte, a afirmação da vida. O erotismo pertence ao sagrado".

Veio o Verbo e com ele, o fogo das fogueiras, iluminando o entendimento entre as pessoas, tentando burlar a noite que avançava. Mal sabiam eles que as fogueiras serviriam para queimar pessoas, livros, calando as vozes do diálogo e dignificando as trevas. No entanto, apesar de tudo, a pureza das fogueiras primordiais, o fogo luminoso do entendimento, resistiu ao tempo, salvaguardado pelo desenvolvimento dialético. A velha fogueira, o centro de acalanto socializador, foi  guardado nas praticas tribais africanas e de maneira acanhada, nos festejos a São João. Onde estão as fogueiras juninas da minha infância, onde em sua volta havia milho, conversa e dança? E o céu junino, sem o tráfego congestionado pelos aviões do forró, era tracejado pelas multicores luzes dos fogos de artifícios?

Entretanto, a dança resistiu, apesar das coreografias ridículas, salpicadas por versos de um romantismo sem amor, das Bandas tipo "mulheres disso e daquilo", composta por mulheres que não conhecem o valor central da mulher no mundo e não passam de meros produtos do mercado sexual. A Quadrilha, herdeira das lindas cadências da dança francesa, associada ao nosso sensualismo brejeiro, hoje não passa de uma coreografia grotesca, um festival de roupas exóticas, uma suposta dança de pessoas fantasiadas de cangaceiros, uma elegia ao mau gosto e a história criminosa de um bandido sociopata.

A dança vale por si só, não sendo instrumento de realização de outros objetivos, a não ser estar em comunhão com o mundo, com o ritmo da existência. Dançando a dois em um xaxado ou em um prodigioso e alucinado tango, estamos em sincronia com o mundo em união com o Todo. Como dizia um velho mestre de Yoga, "a dança também é união. Você é dançarino. Shilva, o senhor do mundo, o grande yogi, tem igualmente o nome de Nataraja, o rei da dança... Você é dançarino, você tem sorte. Que sua dança seja sua yoga, não procure outro".

"Dançar é aprender o movimento dos deuses", disse Kishiro Matsumoto. Entre um rodopio e outro, de repente, um êxtase supremo, de duração ínfima, assim como um gozo do prazer amante, mas de profunda verticalidade em busca da radicalidade do Ser; um shamandi, onde o nada é menos do que nada, um falso vácuo que origina a grande aventura humana. Dançar à vida não é brincar de ser Deus, mas sentir a ideia de Deus como união de todos aqueles que, apesar das inúmeras diferenças, batem os pés no chão da igualdade solidária.

Eu não acredito em um Deus sério, moralista, que distribui punições e não sabe dançar. Prefiro um xaxado muito arretado, o milho pipocando na fogueira, pessoas rindo em sua volta, ao arrependimento penitente das missas ao domingo. Eu só poderia acreditar em um deus que soubesse dançar. E como falava Zaratustra, nas palavras de Nietzsche, "aprendi a andar, desde então, deixo-me correr. Aprendi a voar, desde então não preciso mais que me empurrem para mudar de lugar. Agora sou leve, agora voo... agora um deus dança em mim."

Ivan Bezerra de Sant' Anna

terça-feira, 9 de junho de 2015

Os quebra-santos

Os quebra-santos
 



Na minha meninice, quando se queria chamar uma pessoa de louca ou amoral, dizia-se que ela era um quebra-santo. Salvo engano, tinha um louco que perambulava na cidade que tinha essa alcunha. Coisas do passado, de uma cidade provinciana, embebida pela religiosidade predominantemente católica. Os tempos mudaram, mas o que era apenas uma referência nominal, transformou-se em atos concretos de cunho propagandístico, com os evangélicos quebrando estátuas de santo na frente das câmaras e nas passeatas gay, um festival de quebra-quebra de variadas estátuas santificadas, o que provocou um comentário curioso do amigo Zé do Mercado: "Amigo, o Coliseu voltou".

Esses comportamentos são, no mínimo, curiosos e instigantes. Quanto ao comportamento de algumas seitas evangélicas, a crença alienada, associada com interesses inconfessáveis, talvez explique esses comportamentos intolerantes e desrespeitosos para com os católicos brasileiros, transformando-os em mártires das feras da intolerância, no Coliseu da mídia. Enquanto patrocinam esse macabro festival, os "Bispos" universais e mundiais regalam-se no luxo, financiados por atos de estelionato social, fabricando "milagres" e outros enganos que visam subtrair o pouco dinheiro que resta de uma população de miseráveis.

No entanto, um grupo que sempre foi discriminado pela intolerância homofóbica não poderia patrocinar atos provocativos de intolerância, pois estariam reproduzindo os arquétipos intolerantes e retroalimentado as forças repressores de um passado, do qual foram uma das vítimas preferenciais. Uma contradição absurda! Os rapazes e moças "alegres", embebidos por uma ânsia compulsiva à provocação inconsequente, não conseguiram refletir sobre o exemplo da tolerância do Nazareno e atiraram-lhes pedras ou melhor: criaram uma pantomima de uma crucificação e em vez da lança romana que lhe perfurou o coração, beijos lascivos da intolerância.

Não sou religioso, porém sou um grande admirador de um homem que foi o maior profeta do amor solidário, da cumplicidade igual, da divindade dos atos humanos dignificados pelo fazer. Esse espetáculo lastimável entristeceu-me muito, pois se muitos os negaram ao longo do tempo, inclusive a Igreja Católica com as suas matanças de infiéis, não esperava isso de um grupo que sempre lutou pela tolerância e pela possibilidade de amar sem preconceitos. Foi um desses momentos que ficamos em dúvida pelo destino da humanidade.

Entretanto, deixando de lado os interesses políticos e econômicos do grupos que patrocinam tais atos, os ataques às diversas imagens de Maria, (as estátuas preferenciais dos evangélicos e homossexuais) podem oferecer um curioso perfil psicológico. Esse ódio a Maria, por parte dos evangélicos machistas, talvez explique-se pela pressão da persona feminina, que sempre lhe foi negado o direito à palavra no centro de facilitação do ego, em ocupar um local privilegiado de domínio. Em outras palavras, aqueles desejos secretos homossexuais que atormentam os pobres machistas e que os fazem resistir com violência desmedida. Não é sem propósito que são tão violentos e agressivos com homens que ostentam comportamentos femininos, pois ao contrário da imagem que querem passar, no fundo, eles temem a mulher, sentem a sua superioridade, ficam eternamente apavorados com a compulsão inconsciente dela. Para compensar essa tortura invasora, dizem que seus órgãos sexuais são cacetes, canhões, armas que tentam matar a mulher simbólica. Por isso eles cerram os dentes, gritam, ameaçam  e mesmo que a agridam até a morte, ela não morre, pois sua alma se instala no seu assassino. O que pode parecer como um ato de força e poder, na realidade não passa de um grito de pavor à invasão da mulher reprimida, pois o machismo é a negação do macho e a afirmação inconsciente da mulher.   Se a voz do povo é a voz de Deus, a sabedoria popular constata que esses temíveis machistas "para rebolar basta um um sopro".

Entretanto, se a mulher já está confortavelmente instalada no centro de facilitação do Ego do homossexual, exercendo um completo domínio autoritário, como se explica esse comportamento agressivo para com as mulheres, simbolizada nessa Passeata com a destruição raivosa da imagem de Maria? É simplório dizer que a mulher é a maior inimiga da mulher, portanto, deve haver uma explicação filosoficamente mais apropriada.

Arrisco uma hipótese que não tem a pretensão à verdade, mas que pode ser um bom material para a reflexão. Quando não temos certeza do que verdadeiramente somos, tememos estar confrontados com a imagem real daquilo que pensamos ser. Por mais que a persona feminina esteja exercendo forte domínio, ela é apenas uma, entre muitas que existem no imaginário, sendo importante para a vivência das fantasias, para indicar a multiplicidade do mundo, mas nunca para exercer um domínio monopolístico do Ego. Aliás, nenhuma persona deve exercê-lo, pois esse local é sempre vazio, de tráfego para todas as personas. Assim, é possível entender a angústia inconsciente que causa a  uma pessoa dominada pela persona feminina, quando confrontado com uma verdadeira mulher. Se fosse a vivência de uma fantasia, vir-se-ia espelhado na imagem da mulher, gerando uma imensa satisfação nessa miragem, elevando a mulher como centro de admiração e respeito. Entretanto, se essa vivência for incrustada no Real, esse confronto gera ódios e em casos mais graves, uma profunda psicose.

 Apesar de não ser afeito à psicanálise, reconheço a importância de citar  aquele que foi considerado o mais brilhante e controvertido pensador dessa vertente psicológica. Lacan referia-se ao Real como um não-todo, local de inúmeras multiplicidades de verdades não-verdadeiras do plano simbólico, local onde reside os imensos mistérios femininos, fora do alcance do simbólico, mas que pode ser sonhado pelo imaginário. Portanto, rapazes "alegres", deixem de pretensões e contentem-se com as fantasias do imaginário, exercendo suas escolhas frente a outras personas, fincando os pés no "querer ser", pois o "pensar que já é", é adentrar no pantanoso campo do Real, com consequências imprevistas e violentas. Não adianta quebrarem a imagem de Maria, pois nunca serão mulheres!

Ivan Bezerra de Sant Anna 





Publicado no site http://www.facebook.com/ibezerra52; http://ibezerra.xpg.com.br e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/




segunda-feira, 1 de junho de 2015

Não somos corruptos; somos sabidos



Não somos corruptos; somos sabidos.

A corrupção da merenda escolar em Sergipe é um a mais que existem no seio da sociedade brasileira. A desonestidade está entranhada no tecido social e faz parte das chamadas "práticas normais" de competição para a sobrevivência econômica. É o "salve-se quem puder", elemento motor do maior grau de individualismo possessivo capitalista. Com poucas exceções, a corrupção só é um mal para os que não estão no esquema, pois em dias atuais, essa prática foi rebatizada com adjetivos mais palatável, tais como, sabedoria, inteligência e outros sinônimos.

Querem um exemplo da normalização da corrupção? No prédio em que moro, foi constatada irregularidades administrativas, com superfaturamento, obras inexistentes e pagamentos para um certo serviço de um advogado, que a síndica sacou no caixa em seu nome. Fui nomeado pela assembleia sub-sindico, com a missão de analizar as irregularidades para a feitura de um relatório. Assim o fiz, apresentando um relatório apontando as irregularidades, sugerindo a rejeição das contas e a impetração de uma ação judicial de prestação de contas. A Assembleia rejeitou as contas da antiga síndica e autorizou a prestação judicial. Que aconteceu depois? A nova síndica nunca entrou com a ação de prestação de contas, alegando que a empresa que administra o condomínio, não queria! Não se espantem! Quando terminou o seu mandato, houve uma eleição e adivinhem quem ganhou? Uma chapa comandada por uma lobista de uma grande empresa de administração de Condomínios, sendo os integrantes ligados à antiga síndica que teve as contas rejeitadas. Essa empresa de serviços condominiais foi a mesma que os seu advogado tinha fornecido recibos falsos para que a síndica sacasse os cheques no caixa. Coitado do meu prédio que tem um nome de um grande compositor! Relatei esse caso, como exemplo de uma pequena fotografia da corrupção de um cenário grandioso.

O caso da corrupção da merenda escolar é um pequeno caso, um pontinho no quadro negro da corrupção. O controle das licitações na construção civil é muito antigo e jamais se faz uma obra sem a escolha da Irmandade do tijolo. Na saúde, foi montada uma nefasta quadrilha que não só superfaturava, mas não entregava os medicamentos. Ela acabou? Claro que não, basta ver a quantidades de processos contra o Sr. Rogério Carvalho, que ostenta altos índices de sinais de enriquecimento.

Para que serve o Tribunal de Contas, alguém pode me dizer? Segundo algumas pessoas muito críticas, para carimbar a corrupção, como dizia no passado, o Sr. Jackson Barreto, quando chamava-o de "Tribunal do Faz de Conta". Ora, o mínimo que esse "Tribunal", com uma enorme e grandiosa  estrutura de inúmeros peritos e técnicos deveria fazer  era comparar as propostas com os preços de mercado para descobrir os casos de preços adulterados. E mais: deveria fiscalizar as execuções das obras e dos serviços, pois com essa prática de não entregar produtos ou entregá-los parcialmente, efetuar obras de baixa qualidade, é uma das maneiras disfarçadas de aumentar os ganhos desonestos.

São Cristóvão foi mais uma vez o cenário exemplificativo das práticas de corrupção, no entanto, é apenas um pequeno exemplo que existe em nosso País. Coitada da nossa cidade histórica! Prostituição, corrupção se irmanam para o controle das instituições, inclusive do Judiciário. É famoso o caso de uma poderosa cafetina que oferece suas meninas para membros do Judiciário, MP e Tribunal de Contas, e com isso, monta um verdadeira empresa de troca de favores. As pessoas falam isso, o que pode ser comprovado pelo escândalo dos Precatórios, onde essa senhora e seus cúmplices compravam precatórios por preços baixos, colocava em nomes da suas meninas, e conseguia subverter a ordem de pagamento junto à diretoria de Precatórios do TJ. Sem falar nas reavaliações das dívidas, que faziam que um precatório de R$ 50.000,00 tivesse um valor final de R$ 1.000.000,00! O que o TJ apurou desse escândalo? Nada! E a OAB como se posicionou? Ela nem soube... KKKK E como eu sei? Muita gente sabe, inclusive as meninas da Cafetina e alguns funcionários do TJ.

Nesse estado de coisas, ainda existe alguém ingênuo que acredite que pode mudar com essas eleições compradas e fraudulentas? E a piada da reforma política da OAB, alguém acredita?

Enquanto isso, de maneira sorrateira, entra cada vez mais imigrantes do Haiti e da África, coincidindo com uma grande aumento de armas militares contrabandeadas pela fronteira. Mera coincidência? O futuro dirá.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Blues

Um blues expressivo, sem filigranas, baseado na expressão profunda de uma nota que antecede a outra, movidas por dedos firmes e ágeis que acariciavam as cordas da sua Gibson.

B B King e o blues, formou um casal indissolúvel que "nem a morte separa". Aliás, nesse momento, ela o homenageia com o toque da finitude, o limite que abre as portas da transcendência, uma tensão dialética sempre vivida, mas pouco compreendida. Como um músico mágico, King sabia que todos os dias, morria e renascia, retornava para encarar a dor imemorial e reescrevia em notas em revoadas, os sons promessas do crepúsculo rubro. Não é essa a magia do blues, um banzo soprado da África, a dor da saudade, pontuada pelo impulso mágico da vida clorofila, do "verde que te quero verde"?

Um bom caminho, camarada.


sábado, 18 de abril de 2015

Terceirização: verdade e mito

Terceirização: verdade e mito 




Depois de alguns anos dormindo em alguma gaveta no Congresso Nacional, a população brasileira foi supreendida com a notícia que o projeto lei nº. 4.330 que disciplina o processo de terceirização, tinha sido aprovado pela Câmara de Deputados, inclusive com votos da bancada petista. Se é compreensível que a bancada empresarial, aproveitando-se da fragilidade da Presidente da República, percebeu que era o momento propício para aprovar o referido projeto, não ficou muito claro, entretanto, a participação da maioria da bancada petista nesse episódio. Não porque os ilustres deputados petistas sejam rígidos socialistas, mas porque fizeram de maneira fugidia, à revelia das centrais sindicais.  Aliás, a orientação ideológica que guia o lulismo, não passa de um aglomerado de ideias neoliberais, adoçado por um populismo clientelista, tão a gosto do nosso capitalismo tupiniquim. Quando foi Presidente, o Sr. Lula foi flagrado várias vezes usando o termo "empregalidade", palavra chave, a pérola preciosa do neoliberalismo, usada para explicar e justificar a mobilidade dos empregos, ficando as velhas promessas petistas de estabilidade relativa, o fim da denúncia vazia, relegadas ao lixo da história.

Ora, se o PT e aliados foram os maiores terceirizadores do setor público (a Petrobras é um bom exemplo), desmobilizou o Ministério do Trabalho na sua função fiscalizadora (nunca mais se ouviu falar em concurso para fiscal do trabalho), não extinguiu a denúncia vazia, os deputados petistas votaram no projeto, por que então essa explosão de indignação da Presidente e sua tropa de choque na net e na grande mídia? Contradições, confusões, conflitos no seio petista? Não! Apenas uma hábil e astuta movimentação estratégica que visou dividir, assustar a "reacionária classe média" (palavras bovinas da profa. Marilena Chauí) com a bandeira da extinção gradual do concurso público. Enquanto os planejadores lulistas jogavam com desenvoltura em um tabuleiro de Xadrez, a Direita tradicional e os empresários gananciosos jogavam acanhados em um tabuleiro de Damas. Quanta incompetência!

Já há algum tempo que os estrategistas lulistas tocavam o monótono acorde, enfatizando o caráter reacionário da "classe média", uma afirmação totalmente pragmática, sem nenhum embasamento histórico e científico, mas que iria ser de grande utilidade para os manipuladores petistas. Eles sempre souberam que os extratos médios sociais brasileiros não eram reacionários, mesmo porque tinham sido a base do petismo de outrora e de onde saíram os seus principais líderes e intelectuais. Sabiam que os extratos médios eram confusos e contraditórios - uma característica sociológica de todos os extratos médios do mundo - e essas características seriam valiosa para os seus propósitos, acrescida pela cultura autoritária que permeia os valores culturais brasileiros, quanto à intolerância aos novos e velhos valores e a divergência de ideias e opiniões. Assim, era só esperar que o bloco carnavalesco das múmias paralíticas do Olavo de Carvalho entrasse na avenida, cortejado pelos homofóbicos, liderados por Bolsonaro; cartazes estupidos pedindo a intervenção militar; corruptos conhecidos vociferando contra a corrupção; e estava montado o palco para a desmobilização política da terrível "classe média". Faltava, porém, mais um lance, e com o estímulo de alguns deputados petistas, a avarenta bancada empresarial e a incompetente oposição, deram: a aprovação furtiva do projeto de lei da terceirização! As pessoas, que até então estavam indignadas com a lama da corrupção petista, perplexas, angustiadas, se perguntavam: "Meu Deus, e os empregos, os concursos públicos, como vai ficar tudo isso?" Nesse momento, coloca-se a pedra chave no tabuleiro: "Mamãe Dilma está com vocês. Ela vai vetar a famigerada lei. A culpa disso tudo é do PSDB e aliados".

A Direita tradicional e a extrema Direita do Sr. Olavo Carvalho precisam aprender o novo jogo do neoliberalismo populista, uma nova orientação de direita que o PT é o seu mais digno representante. Por que esse retrógrado anticomunismo, quando se pode auferir grandes lucros pessoais com empréstimos aos países que têm orientação de Esquerda? Ou será que existe alguém ingênuo, ao ponto de acreditar que Lula não levou a sua gorda comissão desses empréstimos? Enquanto o Sr. Olavo de Carvalho e seus "camisas pardas" chamam Lula e seu bando de comunistas "comedores de criancinhas", os lulistas vestem camisas vermelhas e distribuem bolsas "disso e daquilo", enquanto ajudam as grandes empresas e Bancos, auferindo grandes recompensas financeiras. Os seguidores do Bolsonaro e do Olavo ainda não perceberam que o socialismo em nosso País se encontra nas bibliotecas, sob a guarda de poucos intelectuais resistentes, e essa constatação não é recente, pois, certa vez, Carlos Drummond de Andrade, acometido pela descrença, declarou que a única Esquerda organizada era a Associação dos Canhotos Paulistas. Essa turba vestida de camisas rubras, quando não são torcedores do Sergipe, são apenas uma massa de manobra de salafrários, pilantras e corruptos que em nome de uma pluralidade de demandas, dizem que tudo é relativo, manobrando os conceitos, moldando-os segundo seus interesses, criando polos artificiais para a manipulação maniqueísta, e se existe uma realidade objetiva, essa deve ser negada em nome do pluralismo e substituída por sonhos e atitudes performáticas. O Sr. Olavo de Carvalho, mesmo cercado de tantos livros, não percebeu que no pósmodernismo da era petista, tudo existe e nada existe, tudo que é sólido se desmancha na podridão do ar rarefeito, nada é verdade e tudo é Capital insinuantemente dominante, e somente existe uma verdade: não existe verdade! Imaginem, senhores dogmáticos de um passado tenebroso, que estamos no Brasil - "em uma terra que em se plantando tudo dá", como já disse Pero Vaz de Caminha - e aqui não se aplica o famoso dilema existencial do "to be or not to be", mas a versão esquizofrênica do "to be and not to be", o que o nosso atual filosofo brasileiro, aquele que tem um busto perto da Casa Branca, poderá dizer: "nois é e não é, e o que digo, seremos!" Assim, caro professor, cores e camisas são apenas coisas que servem para enfeitar e enganar, e se deseja ter alguma credibilidade, deixe de jogar damas e vá a um tabuleiro de xadrez.

E o nosso tão discutido projeto legislativo da terceirização? Ora, em um País onde as empresas estão altamente terceirizadas, essa "pressa" dos seus defensores somente é justificada pela ganância em relação aos futuros e rentáveis negócios com as empresas estatais. No entanto, acho que deve haver uma lei que normatize o processo de terceirização, mas de uma forma sorrateira e pretensamente astuta, não seria uma boa solução democrática. O resultado dessa pretensa inteligência estratégica foi trágica: a mamãe Dilma virou salvadora da "classe média" concurseira! Não me canso de repetir: quanta burrice! E como não se espera burrice dos espertos, segundo o saudoso Raimundo Faoro, burrice demais pode esconder a astúcia disfarçada. Coisas de um Brasil macunaímico, a terra onde todos gatos são pardos.

É difícil dar lucidez a um empresário, pois seus objetivos competitivos são a curtíssimo prazo, e como já observou Karl Marx em páginas belíssimas de O Capital, o próprio empresário perde a dimensão do valor de uso, alienando-se nas teias do valor de troca, em obediência ao Deus ex-machine, o Capital que cumpre a sua interminável sina de se reproduzir em ciclos eternos. Em seu individualismo possessivo e competitivo, não percebem que estão destruindo os elementos basilares do capitalismo e, muitas vezes, torna-se necessário o aparecimento de uma grande crise econômica, acompanhada pelo crescimento de uma verdadeira esquerda, para haver reformas que induzam um novo ciclo de crescimento. A era Roosevelt é um exemplo do que afirmamos, tendo o Estado assumido a tarefa de administrar e fazer reformas profundas que debelassem a crise, apesar da ampla resistência do empresariado. 

Atualmente, depois da enorme crise financeira de 2008, constatou-se que a avidez do capital financeiro produziu inúmeras fraudes, com a única finalidade de auferir enormes ganhos, e quando o sistema desabou, foi o dinheiro do contribuinte que irrigou os cofres dessas empresas desonestas e incompetentes. Pergunta-se: onde se encontra a famosa eficácia do Capital? Percebe-se que os grandes capitalistas industriais e manufatureiros vivem com o dinheiro público, enquanto o capital financeiro vive de especulação, fluindo para os lugares que lhe seja propiciado grande rentabilidade. Nesse cenário, a terceirização internacional está destruindo empregos, desmobilizando o parque produtivo dos países industrializados, inclusive nos EUA. Se a terceirização visa tão somente a redução de custo, em consequência da especialização e economia de escala da terceirizada, tudo bem, mas que isso não se traduza na redução de empregos ou na precarização dos ganhos trabalhistas. 

Entretanto, o que se vê é uma enorme avidez por maiores lucros do Capital, precarizando as conquistas trabalhistas e reduzindo as vagas de empregos. Pergunta-se: se continuar o crescente desemprego, a consequente redução da renda disponível para o consumo, quem vai comprar os serviços e produtos das empresas? Será necessário o Estado gerar esses empregos ou bolsas para irrigar a economia, e se essa for a solução, como financiará essas despesas, uma vez que o empresariado é fortemente contra ao aumento de impostos? Claro que a solução do Lulismo jamais vai ser aceita por países de economia avançada, pois baseia-se em um crescimento astronômico da dívida pública (a dívida interna beira já ao R$ 2,4 trilhões!) o que mais dia ou menos dia, a falência pública será declarada.

E o que fazer? Essa velha indagação leninista somente poderá ser respondida em um verdadeira República, com os canais de comunicações democráticos desobstruídos, através de um amplo diálogo que perpasse os interesses mesquinhos, um projeto de desenvolvimento nacional que envolva empresários e trabalhadores, despidos do populismo dos enganadores, que almejam um acordo sempre precário, mas sempre rediscutido e renovado. 

Mas tudo isso é um sonho, um desejo, uma prece. Moramos em uma falsa República, permeada por ambições, mentiras e engodos. Enquanto todas as atenções estavam voltadas para o obscuro PL 4.330, o STF, na surdina da noite, julgava constitucional a lei nº 9.737/98, sancionada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, que autoriza a Administração Publica repassar a gestão das escolas públicas, universidades estatais, hospitais, unidades de saúde, museus, fundações, empresas públicas, para entidades privadas sem fins lucrativos, tais como Ongs e Organizações Sociais. Existe algo mais nocivo para a moralidade pública e para o instituto do concurso público? O mais interessante é que os Ministros considerados fiéis ao lulismo, votaram na constitucionalidade da referida lei, o que é uma constatação realmente estranha. O que a Presidente vai fazer, já que a digna mandatária é contrária à terceirização? E a CUT, como se manifestará? Ou será mais um jogo de cena, uma pérfida manipulação, sendo o PL  4.330 apenas um falso alvo para desviar os olhares da população, enquanto o STF "aprovava" e presenteava o lulismo com um maravilhoso instrumento de aparelhamento e corrupção da Administração Pública?      

Com a palavra, a excelentíssima Presidente da República...

Ivan Bezerra de Sant' Anna



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quinta-feira, 26 de março de 2015

Lara

Lara 



Quando você nasceu, ecoava ainda, reverberando nas paredes do tempo, uma música de letra simples, como as flores silvestres que insistem e persistem sobreviverem sob os contrastes que fustigam a generosa terra. Era o canto do galo de campina, que anunciava um novo alvorecer, solfejando as flores, o caminho, a hora de saber e do fazer. Quantos jovens tombaram seguindo a canção, filha. Queríamos apenas sentir o hálito das flores, o vento acariciante da liberdade, a reza cúmplice da igualdade. Mas o egoísmo possessivo, sem rosto, de um tempo sem tempo, zumbis guardiães de um mal fluido, evanescente, sempre banalizado, incrustado no sorriso do lucro, no pranto das baionetas, ofertava-nos as trevas sombrias e o silêncio pacífico dos túmulos.

Esquecemos da Coruja de Minerva que alça vôo ao Crepúsculo, minha pequena, e o galo e a coruja precisam cantar em contraponto fugático e dialético, para que o conhecimento e a verdade avancem. Percebo agora, no limiar da minha caminhada crespuscular, entre os pios das corujas e os vôos rasantes dos morcegos, que existe uma lacuna, um abismo desafiador, entre o "querer ser" e o "pensar que já é", sendo que o primeiro é sublime e o segundo é o anúncio da tragédia, o eterno retorno às situações preconstituídas. E essa petulância vaidosa não fez que enxergássemos que tínhamos limites por estarmos inseridos como expectadores engajados, agentes e pensadores, prognósticos sonhadores e ao mesmo tempo, depositários de um passado escondido nas escuras e confusas brumas do inconsciente.  E o pior, amada filhinha, encorajados por um determinismo histórico, esquecemos as reflexões do profeta da racionalidade dialetica, dentre as quais, de que o Galo Gaulês anuncia o começo da luta de classe e não o festejo de uma vitória antecipada, pois em uma luta existe um adversário que vai defender os seus interesses com todos os recursos inimagináveis, não sendo incomum descobrirmos  que ele é uma persona poderosa em nosso Ser. Por isso, é importante desconfiarmos do nosso ódio nas pelejas de classe, pois nas nossas lutas internas, esse ódio pode revelar um caso conflituoso de amor.

Nesse seu caminhar na linha do tempo, confesso que você ultrapassou aos meus mais grandiosos prognósticos, com surpresas dissonantes que se não harmonizavam com meus acordes existenciais, no entanto, levaram-me às reflexões sobre as novas formatações da musicalidade da vida. É a velha e boa dialética, e quando não prostituída pelos pragmatismos maquiavélicos, é uma excelente companheira para toda a vida. Obrigado pelos novos ensinamentos, entre eles, que a dúvida é a matriz da filosofia, pulverizadora das certezas burras e dogmáticas, no entanto, sem cairmos na tentação das verdades relativas, oficiados por intelectuais que insistem na afirmação da não existência da verdade, mas de verdades subjetivas que devem ser harmonizadas no banquete do individualismo possessivo, da exploração e do lucro.

Por fim, nessa época das acusações cruzadas, das corrupções pragmáticas, das competições mais cruéis pelo Poder, obrigado por me ensinar com seu exemplo existencial, que os fins nunca justificam os meios, e quando isso acontece, os objetivos se perdem no nebuloso tempo, restando somente as areias movediças do pântano do passado, sepultando sonhos e fazendo sair da tumba, os vampiros sedentos de sangue.

Agora, entendo o Nazareno, querida menina, quando falou que não tinha família. Sou mais do que seu pai, um amigo fraterno, seu cúmplice dos desafios da vida que insiste e persiste pelos estofos dos sonhos.

Um grande beijo

Ivan Bezerra de Sant Anna 


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