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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Não

Não 

Ao nascer
Berrei um Não  
E na linha do tempo 
Formo e transformo
Dizendo Não 

Às baionetas que calam caladas
Os afagos dos porretes esclarecidos
Milícias das palavras gatunas
Pardas nos telhados soturnos    
Não! Um sonoro não!

Às mulheres posseiras
Propriedades devolutas
Julietas sem magia
Canto engaiolado
Gaguejo assustado
Um abismado Não 

Se o ovo anuncia
Desdita profecia
Morro em cada dia
Faço do Não 
A magia
Da noite 
O dia

Das ondas quebrantes 
As espumas insistem
Não, elas dizem
Eclodem da dor sentida 
Areia úmida e maresia
Ondas assumidas
Logo mar outra vez



quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Coincidência ou uma repetição trágica?

Coincidência ou uma repetição trágica?


Em um País em forma de bota, local que desfilou o triunfalismo romano, onde atualmente se come pizza e dança-se a tarantela, nasceu e morreu o Juiz Giovanni  Falcone. Se foi em solo romano que o moderno Judiciário teve origem, foi nesse mesmo rincão que as famílias senatoriais patrícias e poderosas plantaram suas vigorosas sementes oligárquicas, uma trágica herança que impediu o florescer autêntico das instituições republicanas, lançando esse milenar território em trágicas e dilacerantes contradições. Em um cenário de um Judiciário trôpego, hesitante, refletindo as mazelas de uma sociedade corrupta e patriarcal, ergueram-se os punhos rijos de uns poucos juízes, dentre eles, Giovanni Falcone. Uma história de beleza e dor, de um lirismo trágico de um Prometeu da esperança, que no negro enlutado da sua morte, renasceu o Fênix da dignidade judiciária.

Se não temos um passado heróico para o reporte histórico, temos as mesmas estruturas apodrecidas por heranças pretéritas, pela corrupção conchavada, por um populismo que exala o odor das ditaduras tirânicas. Por hora, substituímos as baionetas por canetas maliciosas, e nossas mudanças se resumem a isso: um puro populismo sem princípios e enganador!  E nessa peça teatral nefasta, onde o dramático assume, por vezes, os ares de uma comédia bufa, não se permite o improviso subversivo, seja por vaidade ou por senso moral, pois a improvisação traz em seu bojo uma incógnita perigosa para as nossas acomodadas elites. E se o improviso na terra da bota foi denominada de Falcone, em terras brasileiras tem o nome de Sérgio Aldo Moro, um juiz de rosto romano e nome italiano.

Que nome deram ao pequenino Sérgio! Que responsabilidade histórica e tragédia anunciada esse nome traz! Aldo Moro, um líder da Democracia Cristã, um sonhador que tentava fazer um governo de coligação com os comunistas do PCI, visando um desenvolvimento integrado e eficaz, foi barbaramente assassinado por falsos comunistas, sob aplausos secretos da CIA, e um desses terroristas assassinos vive foragido, protegido pelo governo brasileiro. Entretanto, o juiz Sérgio Aldo Moro, apesar das muitas coincidências, não é Giovanni Falcone. Se ambos lutavam contra uma máfia poderosa, foram incompreendidos por alguns dos seus pares, sofreram difamações pelos advogados dos mafiosos, tiveram suas reputações enxovalhadas, o rosto quase bobo de Falcone, contrasta com a face quadrada e dura de Aldo Moro. Lá na Itália, nenhum jurista do porte de um Bandeira de Melo, Dalmo Dallari, Gibson Dipp, tiveram a petulância oportunista de tentar destruir reputações de magistrados, como tentam fazer esses senhores, desprezando a necessária  responsabilidade política e ética. 

É lamentável o pragmatismo desvairado desses publicistas, quando tentam alvejar institutos jurídicos, aceitos por todo o mundo civilizado, como é o caso da Delação Premiada, em um profundo desrespeito conceitual e ao empirismo jurídico, o que faria o sofista Protágoras se remoer de inveja. O Sr. Falcone, apesar do seu destino trágico, usou a delação premiada do Sr. Tommaso Buscetta  para instruir o processo que levaria para a cadeia toda a cúpula dirigente da máfia siciliana, sem que nenhum jurista de peso ousasse  destruir a credibilidade dos instrumentos jurídicos, necessários para o combate eficaz da criminalidade organizada. Afinal, lá na Terra da Bota, mesmo os grandes advogados que vivem representado os seus clientes criminosos conhecem os limites, a fronteira que separa o digno exercício da profissão do proselitismo, de um populismo irresponsável que tem como consequência a prostituição de todo arcabouço jurídico de uma Nação.

Esses "juristas" não só tentam, como advogados desesperados, transformar os institutos jurídicos em meras mercadorias acessíveis aos variados prazeres e interesses, como pedem o afastamento do Juiz Sérgio Aldo Moro por cometimento de excessos que violam a ampla defesa ou o "due process of law". Claro que existem violações e excessos! Não restam dúvidas que o aparelhamento do STF, a partidarização da OAB pelos dirigentes atuais, comandados pela "eterna eminência parda", o grande mentor da partidarização, é uma grave violação à independência representativa da OAB e um atentado ao ideário republicano. Esse órgão não é uma bancada de advogados pragmáticos a serviço do PT, mas um ente jurídico representativo de toda a categoria, composta de profissionais de variados naipes ideológicos e preferências políticas diversas. Declarações acintosas como as do Sr. Eduardo Miranda são por demais excessivas e indignas para um dirigente da OAB, com caimento melhor para um porteiro de bordel ou na melhor hipótese, para um advogado desesperado "de porta de Delegacia".

Esses são os nossos defensores da Constituição Federal. "Não pulem a cerca", dizem, mas encontram justificações para um "pulinho inocente" em atendimento aos seus desejos lascivos. Entre o democrático e o golpe, o licito e ilícito, o instituto do impeachemt flutua em um pântano das incertezas, esvaziado de qualquer densidade conceitual, e crime de responsabilidade política que devia ser conceituado pelo Parlamento, enquadrado na moldura da culpa in vigiando e da negligência administrativa, transformou-se em "grave lesão à Constituição", segundo as palavras de um ex-ministro do STF. Entre o impeachemt colorido e o possível impeachemt estrelar, existem muitas semelhanças, entre as quais, a presença da Construtora Odebrecht como figurante maior na constelação da corrupção. Quanto às diferenças, jamais se viu algo parecido como o mensalão e o petrolão, duas organizações criminosas que vicejaram dentro de empresas públicas e ministérios, dois processos conspirativo que tingiram de lama às instituições republicanas, e se isso não for uma "grave lesão à Constituição", vamos acender as fogueiras e queimar os livros.




Ivan Bezerra de Sant Anna    

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A criança e a águia

A criança e a águia 

A foto de uma criança morta na praia, vítima de um trágico afogamento, correu os ares do mundo como uma gaivota triste, cantando um monótono estribilho. Parecia estar dormindo, banhado por águas plácidas e acolhedoras de um Atlântico de azul profundo, mas o belo oceano pode ser cruel e traiçoeiro, como todas as forças insondáveis da Natureza.

Entretanto, não foi as mãos do acaso que a colocaram sob os auspícios das forças contraditórias da Natureza, mas o egoísmo possessivo de uma ideologia perversa, temperada por condimentos nacionalistas e religiosos. Não muito longe, milhares de crianças são mortas sob as esteiras de tanques israelitas que hasteiam a bandeira de um povo eleito por Deus, ansiando pela expansão territorial, não importando o custo da empreitada. Que Deus estranho! Talvez agora se explique o Holocausto nazista, as famigeradas Cruzadas, todos em nome de um Deus de um povo eleito, inimigo mortal de um mundo humano e diferenciado.

Longe de tudo, uma ave de rapina bate suas asas gananciosa, paira soberana, emite um dilacerante assobio pelo seu temível bico curvo. Para ela não existem os deuses dos povos que guerreiam, mas um só Deus, a divindade do Capital que reina sobre o mundo. Que se matem por seus deuses, criem facções, dividam os países, destruam culturas milenares, pois tudo isso levará ao deus do Capital a um longo e grandioso reinado.   Por gastar suas garras afiadas se pode financiar guerras civis, como, por exemplo, a do Egito, Líbia e Síria? E uma ajudinha do enlouquecido Estado Islâmico é sempre bem recebida, - para isso existe o teatrinho de ódios hipócritas - a exemplo da preciosa ajuda de Abin Laden no Afeganistão comunista. Quanto aos refugiados dessas guerras insanas, isso é problema para Europa. Ela que se vire para alimentar e arranjar empregos para os refugiados, que já a muito tempo fazem esse percurso. E se a França, por exemplo, se tornar um estado islâmico, devido ao aumento constante da população muçulmana? Ah, tudo ao seu devido tempo, pois a única preocupação da portentosa ave é proteger os filhos de David, irmãos diletos e cúmplices, unidos pelo laço da ganância pelo vil metal,


Não foi Netuno que fez adormecer eternamente a desafortunada criança em uma solitária praia. Os deuses gregos, mesmo saboreando humores díspares, são demasiadamente humanos. Se seus olhinhos não mais verão as luzes das estrelas, suas mãos não poderão  acariciar uma flor, seus pés não mais correrão pela mágica relva da vida, isso se deu por exclusiva responsabilidade de uma ideologia egocêntrica, cultuada por aqueles que detém quase toda riqueza do mundo, e vivenciada por nivelados consumidores, despidos de toda a dignidade diversificada do ser humano.

Ivan Bezerra de Sant Anna     

sábado, 29 de agosto de 2015

Machista ou mulher virtual

Machista ou mulher virtual?

Existem certos acontecimentos que nos deixam tristes e com poucas esperanças nesse rebanho de pessoas que denominamos de humanidade. Crueldade, idiotice, cretinice em alto grau, laivos de sociopatia, o que pode explicar o comportamento lamentável de uma pessoa que expõe um momento de intimidade sexual com outra pessoa na rede social? Como entender que um ato de intimidade compartilhada por duas pessoas que buscam o prazer, possa servir de um propósito vil, almejando, tão somente, humilhar um colega de farda, com uma tentativa calhorda de fazer publicidade dos seus méritos de caçador individualista possessivo. Aliás, como demonstrou esse vídeo nefasto, o que se viu foi uma anti-propaganda de um pênis semi-mole, impotente para a grande fêmea que ali estava.

Não culpem essa moça pelo impensado suicídio do seu noivo, pois se existe um responsável, este foi, sem sombras de dúvidas,  esse pobre imbecil, buscando afirmar sua condição de macho precário. Que machismo nefasto! Essa moça apenas queria um momento de prazer diferenciado, como outras tantas mulheres que tentam se desvencilhar das amarras inibidoras do machismo possessivo e egoísta, caminhando nas veredas da ampla sexualidade feminina, uma dádiva do misterioso universo, tão pouco entendido pela pequenez do macho. Taxar esse momento de prazer como uma traicão nefasta é não perceber a enorme  hipocrisia das normas sociais dominantes, e  a grandeza do prazer como um momento de êxtase, um encontro com a totalidade do Ser. A mulher-loba não comete traição; ela uiva para a Lua em busca dos seus sonhos e desejos, e o gozo que conquista, traz o cintilar para os seus olhos, uma luz que ilumina os tortuosos  caminhos da existência. Ama-la, não é tarefa para um macho pequeno e inseguro; é necessário ser muito homem!

Quanto a essa sórdida pessoa do pênis bambolê, um conselho: percebe-se pela flacidez da sua principal arma que uma fêmea em pleno gozo lhe assusta. Ou será que uma vagina desejosa lhe causa um pavor inconsciente? Quem sabe se uma verdadeira mulher não é a sua "verdadeira praia"? Que tal participar das paradas Gay e lá se sentir mais "em casa"? Essas são indagações que você deve responder com honestidade, objetivando a sua real felicidade. Na minha modesta opinião, pobre criatura, você não passa um mísero caçador de troféus das mulheres que mata simbolicamente para tentar resolver o tormentoso dilema com sua persona feminina que tanto lhe apavora. Um verdadeiro homem - o que possivelmente jamais será - dialoga com sua persona feminina, entende os seus desejos e pode, de vez em quando, penetrar na fantasiosa Terra do Nunca. O verdadeiro macho é aquele que a sua mulher interna é caracterizada  pela suave e eterna carência da mulher externa que lhe alimenta de fantasias, amor e humanidade. Tenho a impressão, triste garoto, que já matou virtualmente tantas mulheres para roubar suas almas que já não precisa viver essa complexa dialética existêncial, pois já é a propria mulher. Ou melhor: de um "querer ser" inconsciente para o "pensar ser" arbitrário e dramático, essa será sua permanente psicose que confundirá como uma opção de escolha. 

Esse  dia chegará suavemente sem que perceba; tudo é uma questão de tempo e oportunidade.

Ivan Bezerra de Sant Anna

domingo, 9 de agosto de 2015

Meus irmãos...

Meus irmãos...

Essas foram suas últimas palavras que proferiu ao tombar da tribuna em uma tarde festiva no dia consagrado a São João, o padroeiro das festas juninas que lhe emprestara o nome de chegada e de partida. Se o seu coração resolveu parar de bater, desfalcando a orquestra de zabumbas juninas, ouço, ainda hoje, os ecos sonoros de humanidade que eram germinados pelos seus punhos guerreiros e por seus poemas embebidos pela seiva da vida autêntica.

Era de um tempo em que as cores rubras significavam esperança por um mundo melhor, igualitário e mais fraterno, e não o engodo, o roubo dissimulado das esperanças de um povo sofrido pela exploração. Havia muita dor, mas a esperança da caixa de Pandora era mantida intacta, protegida da ganância dos ladrões  noturnos que negavam a evidência solar, pois na noite, "todos os gatos são pardos". Era uma época de dor e esperança, diferentemente da atual, permeada pelo pós-niilismo dos gatunos esperançosos.

Com mais da metade da minha jornada existêncial transcursa, percebo, finalmente, que não tenho saudade de ti,  por uma simples e sigela razão: você nunca se foi, e se ergo o punho, rascunho palavas, sofro com as dores do mundo, alegro-me com o florescer de um sorriso de uma criança e homenageio diuturnamente à centralidade essencial das mulheres, faço-o, em parte, impulsionado pelas cordas ressoantes do seu coração.

Obrigado, meu irmão, por me fazer enxergar que a verdade não se encontra nas dissonâncias dramáticas do Real e nem nos sonhos idílicos das fantasias imaginadas, mas de mãos dadas com Dionísio e Apolo, no transcurso do dia e a noite, no crepúsculo avermelhado, no caminho que quer caminho.

Ivan Bezerra de Sant' Anna


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Rosa, a filha da Lua

Rosa, apesar de ser minha sogra, - não existe ex-sogra! - temos mais uma coisa em comum: somos filhos da Lua, conclusão inderrogável para aqueles que nascem sob o signo do simpático caranguejo.

Ora, uma rosa é uma rosa, e desconfio que se ostentasse outro nome, não conseguiria deixar de ser Rosa, como disse Julieta ao abobado Romeo, do alto da sacada dos sonhos. Nenhum nome ou sobrenome poderia ter o poder de ofuscar a sua essência, o perfume que irradia, o brilho clorofila dos seus sonhos.

A sua competência conciliatória, a sua dedicação  obstinada ao trabalho, que para muitos era sua característica indelével,  para mim era uma habilidade estratégica, uma renúncia consciente dos seus verdadeiros anseios, um ato de amor por aqueles que tinha o dever de proteger. Quantas vezes, em meio a uma conversa, descobriámos que não respondia porque estava no "mundo da Lua"? Ou que o aparelho de televisão ligado não passava de um bom e prestimoso sonífero?

E quem é verdadeiramente Rosa?  A linda e faceira morena que ostentava o sobrenome Nascimento, herança do bom e sorridente João, livreiro sonhador que albergava os pensadores de um novo mundo, dentre eles, Jorge Amado? Ou Rosa Freire, sobrenome dignificado pelas lutas escarlates do grande intelectual Franco Freire? Desconfio que por mais grandiosos que sejam esses sobrenomes, Rosa lhes deu uma dignidade impar que jamais tiveram. Algo sutil, luminoso, muito raro em tempos inconclusos: a tolerância libertária!

"Rosa morena
Pra onde vai morena rosa?
Com essa rosa no cabelo
E esse andar de mulher prosa?"

Ah, poeta, isso nem a Lua sabe...

Ivan Bezerra de Sant Anna


sábado, 11 de julho de 2015

Rosalvo, o Bocão

Rosalvo, o Bocão


Em meio a um inverno peculiar, um julho onde se conflita uma brisa resfriada com a teimosia do sol, morreu Rosalvo Alexandre, o Bocão. Não existe um bom dia para se morrer, e embora seja imperativo, a nossa marca da finitude que deixamos em mãos do acaso ceifador, fiquei feliz que tenha sido em um dia que ainda se escutava o ressoar das sanfonas juninas.

Em meio a tantos lamentos, poesias revolucionárias ofertadas, lágrimas verdadeiras e louvações hipócritas, reflito com carinho sobre os bons  momentos vividos ao lado do ex-companheiro do PCB, o Partidão, como se referia o nosso Rosalvo, com uma voz "suave" que se ouvia a quilômetros de distância. Se existiam marcas registradas, essas eram seu vozeirão de alto-falante de quermesse, seu constante entusiasmo e sua competência imensa para o trabalho de organização do Partido. Defeitos? Inúmeros e incontáveis que, mesmo com muita boa vontade, não poderia contá-los com os dedos das mãos. Mas que não os têm? Alguém atiraria a primeira pedra?

No dia que choveram ovos no Maluf - esse mesmo que hoje é companheiro dos esquerdinhas - a grande mídia alardeou que a população aracajuana espontaneamente demostrava seu repúdio a um legítimo herdeiro da Ditadura Militar. Poucos sabem que essa espontaneidade deve-se aos companheiros Rosalvo Alexandre e Marcelo Bomfim, que passaram as horas precedentes ao evento, lotando ônibus com pessoas e carregando muitas caixas de ovos espontâneos. Essa era a sua principal marca, e confesso que na hora que começou a chover ovos revoltados, pensei ter ouvido uma voz de comando que faria um doce gatinho virar um felino predador.

Rosalvo era a própria contradição que sempre renunciou ao abrigo de uma síntese, mesmo que precária. Era um retrato representativo de um povo que por momentos é dócil e amoroso, por outros, barraqueiro e indomável, mas sem nunca renunciar à ternura. Sua voz de pássaro Ferreiro que se ouvia à distância, incomodava a muitos, porém acalentava e protegia o sono de outras pessoas, tal qual os estridentes apitos dos guardas noturnos da minha infância. Não era grande nem pequeno, bom ou mal, virtuoso ou devasso: era simplesmente Rosalvo Alexandre, o Bocão.

Pensei em visitá-lo, mesmo sabendo quanto estávamos distanciados por nossas escolhas, mas fui egoísta e covarde. Peço perdão por essa falta lastimável, no entanto, ficava triste só em pensar que seu corpo não mais lhe obedecia como antes e sua voz minguava a cada dia passante, um simples arremedo, um sussurro de lamento, tênue assobio dos ventos crepusculares.

Poderia lhe dizer, "vá em paz, companheiro", mas faltaria com a verdade sentida. Você sempre foi o filho dileto do Deus Dionísio, a própria natureza encarnada, a força dos punhos, a suavidade do afago; a tempestade que varre, as brisas que acariciam; o voluntarismo cego, o sonho de uma crença.

Continue cantando, Ferreiro.

Ivan Bezerra de Sant Anna.