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quinta-feira, 31 de março de 2016

Lembranças de Abril

Lembranças de Abril


 

As cores de Abril, esse mosaico de uma aquarela difusa como uma pintura abstrata em busca de um autor, são modeladas ao gosto de interesses e ideologias diversas, oscilando vertiginosamente na linha do tempo entre um passado imperfeito, um presente desfeito, um futuro de perfeita névoa. 

Ah, Abril dos sonhos idílicos, dos horrores que persistem, dos amores impossíveis. Abril que nasceram os ditadores Adolf Hitler, Luiz Bonaparte, Getulio Vargas, ou Thomás Jefferson, Leonardo da Vinci, Charles Chaplin, William Shakespeare? Abril da descoberta de uma posse, um Brasil nunca descoberto? Abril dos militares da Revolução Democrática dos Cravos, das legiões infantes comandadas Joaquim da Silva Xavier - o Alferes Tiradentes - ou dos militares reacionários comandados pelo General Castelo Branco?

São muitas recordações e sonhos desfeitos nesse Abril, que em um singular episódio, percebi a perfídia de certos líderes políticos que se aproveitam das lutas populares para pavimentar o torpe caminho dos seus reais interesses. Foi em um Abril lamentável que o Sr. Jackson Barreto pediu a minha devolução da Câmara de Vereadores para a EMURB, empresa que era advogado e tinha sido Chefe da Assessoria Jurídica por alguns anos. Pensei: "mesmo tendo desavenças políticas com o Sr. Prefeito, acho que por um passado de lutas, ele quer minha contribuição técnica". Ledo engano! Ao voltar, percebi que não existia nenhuma mesa para que pudesse realizar meu trabalho, sendo informado pela atual Assessora que iria colocar uma cadeira no corredor para mim. Imaginem essa cena que montaram com requintes de crueldade, visando a minha desmoralização. Protestei, e como prêmio para minha revolta, fui transferido para a garagem da empresa sem direito a uma cadeira! Mas o ódio, a perseguição horrenda ainda não tinha alcançado o sua ribalta grandiosa. Ela chegou acompanhada de um capanga ideológico do Sr. Jackson, alcunhado de Chudo, que foi nomeado Presidente apenas por breves dias, para efetuar a minha demissão e de mais de 35 funcionários que participaram da fundação da Associação Trabalhista da Emurb. 

Ah, as cores de Abril escondem as negritudes de um presente que insiste na mentira enganosa, evitando um mergulho às raízes profundas dos reais problemas do Brasil. Não precisa muito esforço para perceber que o patriarcalismo possessivo e corrupto, o autoritarismo e o populismo são essas chagas perversas que sempre destruíram o tecido social saudável que insistentemente ousa nascer. As únicas revoluções que conhecemos se plasmaram na linguagem e não em uma práxis construtiva. República Nova, Nova República, são mudanças apenas na ordem do adjetivo, mantendo intactas as relações oligárquicas, uma falsa República sem a gloriosa La Marseillaise, "um mudar para que nada mude", como atestava Lampedusa, referindo-se à triste história italiana.

Não importa a "cara de pau" do Sr. Jackson Barreto ao depor perante à Comissão Verdade, fazendo-se de vítima perseguida pela Ditadura Militar, quando se sabe que ele nunca foi preso ou perseguido. Ao contrário, graças ao período negro que foi submetido o País, ele soube muito bem tirar proveito da situação, representando o seu papel favorito: o de Salvador da Pátria. E quantos pilantras se aproveitaram do sofrimento do povo brasileiro, planejando habilidosamente os seus intentos secretos de Poder? Será que ele vai explicar, em nome da verdade, como ficou "bem de vida", quando viu nas poucas árvores das praças aracajuanas, uma floresta amazônica a ser cortada? Ou por quanto se vendeu ao Sr. Albano Franco? Poderia explicar, por exemplo, o que fez com os quinze milhões que recebeu de Lula, duas semanas antes do pleito eleitoral que reelegeu Marcelo Deda, não é verdade? Quem sabe não explique a falência do seu governo, atrasando salários até dos professores da sua aliada Deputada Ana Lúcia? Não, ele nada vai dizer sobre isso, vai apenas fazer cara de choro e denunciar um golpe contra a democracia que, segundo o seu entendimento, é uma simples palavra sem alcance substancial, um vernáculo alicerçado pela compra de votos, pelo aparelhamento dos tribunais superiores e por aliciamentos pecaminosos. Sua lógica é de uma simplicidade aterradora: golpe é tudo aquilo que venha questionar essa quadrilha que está no Poder, mesmo que seu chefe se dê ao desplante de furtar talheres de ouro, baixelas de prata, crucifixo  - coisas que faz um um ladrão de quinta categoria -, pois como diz Zé do Mercado, "quem rouba um santo é capaz de qualquer coisa".

Esses falsos choramingos para uma Comissão Verdade que nasceu para não ser verdadeira, mas para ser usada como um instrumento que assuste aos que vão às ruas buscando a verdadeira democracia. O real objetivo dessa Comissão não é questionar as causas profundas que levaram ao golpe militar de 1964, as raízes que datam da ditadura Vargas que em nada se diferenciou dos militares de 64, igual até o nacionalismo "ame ou deixe-o". Quem mais torturou ou matou comunistas? Garanto que é um disputa dura, pois entre o Sr. Filinto Muller e o Sr. Fleury, a competição é acirrada. E quanto aos civis que planejaram com os militares e o Departamento de Estado dos EUA, ou aqueles que aderiram ao golpe por oportunismo, como foi o caso do Sr. Juscelino, Ulisses Guimarães e tantos outros que viam da deposição do Presidente Jango um fácil caminho para as eleições Presidenciais de 1965? 

Essas coisas não podem ser ditas na Comissão Verdade, pois como se vai explicar toda essa elite que participou da Ditadura militar no Governo Lula? Como se pode entender a participação do Sr. José Alencar na vice-presidência, uma vez que ele e tantos outros empresários, financiava as operações terroristas e paramilitares do Delegado Fleury, chegando ao desplante de assistir às sessões de tortura? Talvez agora esteja explicado porque essa Comissão nasceu tardiamente, depois do governo Lula, quando as ruas questionavam a corrupção, o patrimonialismo feroz dos políticos, insatisfeitas com essa "democracia do dinheiro".

A Democracia, como assim emergiu  na Grécia, nasce e vive nas ruas. Se os acordos normativos são ilusórios e não atendem às demandas populares, a Democracia se retira do palácio das normas e se instala ferozmente nas ruas, onde sonhos idílicos se confrontam com o terror das demandas irreconciliáveis, um denso Real de esperanças e traumas. 

Nunca temi os militares nas ruas irmanados com o povo, pois seria negar o papel progressistas dos militares na Inconfidência Mineira do Alferes Tiradentes, no grito do Ipiranga, na deposição de D. Pedro I, na proclamação da República, no tenentismo da Coluna Prestes, na deposição do ditador Vargas, no corajoso comando do Marechal Lott em defesa da legalidade. Temo, isto sim, os militares irmanados com as elites corruptas, subjugados pela corrupção, defendendo uma farsa democrática custeada pelo suborno e pelo populismo autoritário, esquecendo-se do grandioso papel histórico em todas as verdadeiras revoluções, inclusive a Revolução democrática dos Capitães de Abril em Portugal.

Se as urnas são falseadas, os políticos são comprados, a Corte Constitucional é covil de corruptos, o Estado de Direito Democrático é sinônimo de Estado Pragmático de Interesses,  que falem as ruas!



Ivan Bezerra de Sant' Anna


Publicado no site http://www.facebook.com/ibezerra52;  e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/




domingo, 20 de março de 2016

Marx comenta

De onde vem a corrupção?    Tá reclamando do Lula, ladrão?  
Dos corruptos, Fernando Henrique, Aécio, Cunha, Dilma, Arruda, Sarney, Collor, Renan, Palocci, 
Delubio, Roseanne Sarney, Jucá, 
Kassab, Dos mais 300 picaretas do Congresso?

Brasileiro Reclama de Quê?

O Brasileiro é assim:

1. - Saqueia cargas de veículos acidentados nas estradas.

2. - Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas.

3. - Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração.

4. - Troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, e até dentadura.

5. - Fala no celular enquanto dirige.

6. -Trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento.

7. - Pára em filas duplas, triplas em frente às escolas.

8. - Viola a lei do silêncio.

9. - Dirige após consumir bebida alcoólica.

10. - Fura filas  nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas.

11. - Espalha mesas, churrasqueira nas calçadas.

12. - Pega atestados médicos    sem estar doente, só para faltar ao trabalho.

13. - Faz  " gato "  de luz, de água e de tv a cabo.

14. - Registra imóveis no cartório num valor abaixo do comprado, muitas vezes irrisórios, só para pagar menos impostos.

15. - Compra recibo para abater na declaração do imposto de renda para pagar menos imposto.

16. - Muda a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas.

17. - Quando viaja a serviço   pela empresa, se o almoço custou 10 pede nota fiscal de 20.

18. - Comercializa objetos doados nessas campanhas de catástrofes.

19. - Estaciona em vagas exclusivas para deficientes.

20. - Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado.

21. - Compra produtos pirata com a plena consciência de que são piratas.

22. - Substitui o catalisador do carro por um que só tem a casca.

23. - Diminui a idade do filho para que este passe por baixo da roleta do ônibus, sem pagar passagem.

24. - Emplaca o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA.

25. - Freqüenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho.

26. - Leva das empresas onde trabalha, pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis.... Como se isso não fosse roubo.

27. - Comercializa os vales-transporte e vales-refeição que recebe das empresas onde trabalha.

28. - Falsifica tudo, tudo mesmo... Só não falsifica aquilo que ainda não foi inventado.

29. - Quando volta do exterior, nunca diz a verdade quando o fiscal aduaneiro pergunta o que traz na bagagem.

30. - Quando encontra algum objeto perdido, na maioria das vezes não devolve.

E quer que os políticos sejam honestos...

Escandaliza- se com a farra das passagens aéreas...

Esses políticos que aí estão saíram do meio desse mesmo povo ou não?

Brasileiro reclama de quê, afinal?

E é a mais pura verdade, isso que é o pior! Então sugiro adotarmos uma mudança de comportamento, começando por nós mesmos, onde for necessário!

Vamos dar o bom exemplo!

Espalhe essa idéia!

Agora, como penitência, em vez de rezar 300 "Ave Maria" e 200 "Pai Nosso", comece mudar suas atitudes, seja solidário, pratique a desobediência  civil, ajude a fechar essa casa de tolerância que é o STF, vá para as ruas pedir uma verdadeira Assembléia Constituinte,  e deixe de ser um calhorda oportunista.

"Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos e esquece-se da urgência de deixarmos filhos
 melhores (educados, honestos, dignos, éticos, responsáveis) para o nosso planeta, através dos nossos exemplos..."

quinta-feira, 17 de março de 2016

Saudades da praça

Saudades da praça.

Como dizia uma simplória música do tempo do Zé Rollete, "hoje eu acordei com saudade de você", meu amigo Karl Marx. Talvez essa saudade aguda tenha sido por causa do sonho em que você me falava algumas coisas, como se quisesse que eu fosse seu canal de comunicação com os vivos, dentre muitos outros. Ora, meu caro amigo, um sonho é um sonho e nada mais, pois assim penso. Um sonho premonitório, mediúnico? Sabe, amigo, não sou um homem afeito a essas coisas do além, e pelo que me consta, você também. Jamais me imaginei representando um papel de profeta ou mesmo de  sub-profeta, revelando as palavras divinas, pois sempre desconfiei  que essas palavras poderiam ser minhas, usadas como recurso da minha vilania manhosa ou, na melhor das hipóteses, um surto intermitente de esquizofrenia. 

No entanto, meu caro filosofo, não sou um homem que desconhece os avanços da ciência parapsicológica, dando-me ao prazer do benefício da dúvida, esse instituto grandioso, solenemente homenageado por Sócrates, a eterna gênese da Filosofia. Assim, vou levar a público todos os sonhos em que me revela alguma coisa, mesmo enfatizando que os sonhos são apenas sonhos. Darei o pretensioso título de "Marx comenta" com o intuito mexer com as cabeças dogmáticas ou cínicas, uma espécie de choque com o agulhão da arraia, esperançoso com o aparecimento da maiêutica, a parteira do conhecimento.

Um abraço fraterno, caro amigo.

Ivan Bezerra de Sant Anna


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Vá em paz, Mestre

É um dos casos que podemos afirmar que a personalidade empírica se extingue, mas fica a personalidade artística, irretocável e de singularidade única. Umberto Eco foi um pensador profundo, um estudioso em semiologia, sempre apresentando ideias inovadoras que levavam à reflexão aos sinuosos caminhos da interpretação. Entre suas muitas obras, destaco a instigante viaje aos meandros das intrincadas antinomias kantianas, em sua portentosa obra, Kant e o ornitorrinco, onde passeia com brilho e inteligência sobre as estruturas formais do conhecimento na apreensão dos fenômenos em tensão dialética com o experimental e o performático.

Se na literatura não foi um Dostoiévski ,  Lev Tolstói, Balzac, Thomás Mann, Cervantes, Goethe, Shakespeare, Gabriel Garcia Lorca, Machado de Assis e outros tantos, no entanto, com o seu maravilhoso romance, O Nome da Rosa, galgou os degraus do Panteão dos gênios. Uma obra filosófica, histórica, semiótica, tecida por um enredo brilhante, se torna nas mãos modeladoras e criativas de Eco, um gostoso passeio pelas diversas camadas de significações, um delicioso romance policial da idade média, uma busca pelo labirinto da biblioteca guardada pelo cego Borges que termina com uma bela surpresa: um livro sobre o humor irônico de Aristoteles, talvez o mais subversivo livro já escrito, capaz de destruir as verdades pretensamente imutáveis.

Vá em paz, mestre, pois você cumpriu com maestria e dignidade o desafio de uma vida autêntica.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Pobre Carnaval...

Pobre Carnaval... 



Virou moda em nosso País, a demonização das festividades carnavalescas, transformando-as em um corretivo cautelar para todas as mazelas dos nossos prestimosos administradores. Depois de passarem o ano gastando irresponsavelmente, financiando vaquejadas e festas de Padroeiras, em alguns casos, desviando os recursos públicos para os seus bolsos, exclamam,  para os aplausos dos incautos: "não vamos gastar o dinheiro público nas festas do Momo, pois estamos falidos". Aplausos, aplausos e aplausos! "Que político sensato", dizem as massas, extasiadas pela brisa amena do populismo que esconde com eficácia as causas da penúria administrativa.

Certos ou não, os administradores municipais podem exercer esse processo de escolha pelos critérios de conveniência e oportunidade, elementos conceituais de exclusiva competência do Poder executivo. Creio que na maioria dos casos, essa escolha de não realizar gastos de festas é positivamente correta, excetuando-se os casos em que a desculpa de pagar gastos essenciais é apenas um biombo para esconder as reais intenções, como pagar empreiteiros, por exemplo. Seja de uma forma ou de outra, essa decisão é de exclusiva competência do administrador, não podendo haver interferências externas, mesmo eivadas das melhores intenções e do mais alto sentimento de justiça, pois somente o povo pode julgar o administrador, quando investido das suas funções de escolha política.

Seguindo esse percurso democrático, aplausos para a Juíza Ana Bernadete que cassou uma liminar de um juiz que impôs  restrições à realização do festejo do Rasgadinho. A motivação decisória da juíza é irreparável, bem articulada, e enfatizando o respeito à separação dos poderes, não bem observada pelo apressado magistrado, ansioso para pegar carona nessa populista competição momodestrutiva.

Já a decisão do Presidente do TCE, apesar das suas boas intenções, foi altamente desastrosa, violando o princípio da separação dos poderes. Ora, as administrações municipais estão em dívidas com os servidores da Educação? Tudo bem! Então vamos saber as causas desses terríveis delitos. Os Prefeitos estavam reservando os recursos exigidos pela Constituição para a Educação? Não estavam? Então caberia ao TCE tomar medidas eficazes para apurar responsabilidades, restaurando o fluxo financeiro, com a consequente punição dos culpados. Se haviam desvios de recursos públicos para serviços e obras fantasmas, deveriam os técnicos auditores do TCE ter apontado tais irregularidades, para que fossem sanadas na época em que aconteceram. Fizeram isso? A resposta é óbvia, pois os casos dos desvios dos recursos públicos da merenda escolar é um claro exemplo dessa inatividade do TCE, recheado de técnicos, auditores e conselheiros. Afinal, para que serve o TCE com sua inchada estrutura administrativa? Um Tribunal de "faz de conta", como dizia o Sr. Jackson Barreto? 

Acredito que a indignação do Presidente seja justa, frente a imoral inadimplência dos administradores municipais, no tocante ao pagamento dos salários dos servidores da Educação. No entanto, sua decisão extrapola as suas atribuições constitucionais, subsumindo-se na figura do administrador para realizar opções administrativas. Uma vez que os gastos com a festa carnavalesca estava autorizada no orçamento público, com rubrica própria, e a nossa Constituição Federal não estabelece hierarquia dos pagamentos dos gastos públicos, não poderia o Presidente do TCE ordenar uma preferência subjetiva, por ser essa atribuição de intransferível competência do administrador, e se ao contrário for, a usurpação democrática se faz presente. 

Se não bastassem essas considerações, ainda tem o fato de ser uma decisão monocrática por via cautelar. Um verdadeiro absurdo lógico, pois toda verdadeira cautelar ao tentar preservar um interesse, por outro lado, garante a reversibilidade do outro interesse paralisado, para que o posterior julgamento colegiado não passe de uma mera farsa. Apesar do eufemismo, o Sr. Presidente efetuou um julgamento definitivo da questão - ou será que podemos fazer a festa de Carnaval em outro mês? - subsumindo-se em decisor  colegiado e sentando-se na cadeira do administrador municipal.

Boas intenções não bastam, Sr. Presidente, pois o inferno está cheio de pessoas de boas intenções, e os ditadores sempre percorreram esse caminho, como pais prestimosos que zelam pelo bem-estar dos seus filhotes revoltados. O secular problema desse País é a quase ausência dos valores republicanos, o vivenciamento  de um esquizofrênico conceito democrático, uma crença nefasta  que as demandas populares podem ser atendidas por pessoas esclarecidas de mãos cuidadosas, mas que, às vezes, ostentam o tacape disciplinador. Portanto, um pouco de humildade e cultura democrática não faz mal a ninguém, assim como um bom caldo de galinha. Sabe qual é a suprema ironia dessa história, Sr. Presidente? Se os moradores desses municípios não vão ter "o direito a uma alegria fugaz/ Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval", o TCE vive a plena euforia do Carnaval, em um bloco onde palhaços e Reis trocam de papéis

Ivan Bezerra de Sant' Anna


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domingo, 24 de janeiro de 2016

Democracia?

Democracia? 




Não consigo me afastar da perplexidade toda vez que leio algo publicado pela OAB. Incrível, mas é a pura verdade! Ausência de conhecimentos conceituais adequados ou puro oportunismo é uma escolha de difícil escolha, uma vez que essas teses são ponderáveis e razoáveis. Às vezes penso que esses Data Vênias sofrem de uma patologia bipolar, o que discorda veementemente o amigo Zé do Mercado, fuzilando: "É safadeza mesmo!"

Ouso discordar do amigo, pois acredito que a rigidez cognitiva, associada a um insuficiente depósito de conhecimentos são elementos explicativos para esses textos que beiram a uma idiotice delirante. Especificamente, posso afirmar: a quase total ausência de conhecimentos de conceitos específicos da sociologia política e das teorias democráticas, levam os nosso espertos advogados mergulharem em águas turvas dos princípios platônicos, esvaziados das concretas relações criadoras do Poder. Infelizmente, a maioria dos teóricos jurídicos atuais, centram-se na vertente do platonismo autoritário e elitista, levando às águas do esquecimento ou colocando sob parênteses, toda a teoria democrática da construção do Poder.

Quando o grupo de Gravatas Azuis, a tropa de elite do lulismo, diz que a obrigatoriedade da participação do advogado nas investigações policiais é uma conquista democrática, comete duas grandes heresias conceituais. A primeira é a confusão entre a Democracia, que é um processo de construção do Poder pela participação do cidadão, com as liberdades e direitos civis conquistados. Ora, as liberdades civis se originam das lutas e demandas das ruas que podem ser sancionadas por processos democráticos simbólicos-normativos ou por poderes oligárquicos esclarecidos. A Democracia é um processo construtor de demandas que pode estar nos confrontos livres das ruas ou nos processos institucionais existentes.   Apesar de estarem, na maioria das vezes, tencionadas dialeticamente, a Democracia e as liberdades civis são separadas de forma factual e conceitual, sendo conveniente não confundi-las. Não seria um exercício de um sofisma perigoso afirmar que os advogados representam a população em uma investigação policial? Pelo que sei, essa representação popular é dada ao Ministério Público, mediada pelo Estado, quando o meirinho anuncia: "O Estado contra fulano de tal". Será que estou equivocado?

Essa inovação, criada pelo paroxismo esquizofrênico "ser e não ser", é mais uma das criações centradas no individualismo elitista, visando criar obstáculos que impeçam  uma eficiente investigação policial, possibilitando inúmeros vazamentos de importantes informações policiais que deveriam estar encobertadas pelo sigilo até a fase judicial. Na Itália, para melhor eficácia das investigações contra grupos poderosos, o Juiz de Instrução pode declarar isolamento total, mantendo os policiais investidos na investigação em total isolamento, pois se assim não for, todo o processo de investigação será totalmente comprometido, e quem ganhará com isso, o indivíduo malfeitor ou a população? A resposta é óbvia, não acham?

Enquanto isso, no País do Carnaval, onde malandros e heróis se confundem, os dados da corrupção do BNDES estão mantidos em sigilo, sob a alegação de segredo de Estado, enquanto os Gravatas Azuis da OAB inexplicavelmente se calam. Parece que para esses Data-Vênias, o que é democrático deve ser algo conveniente para os seus clientes. São como pássaros: por vezes, um avestruz com a cabeça enfiada em um buraco; por outras, um pombo correio dos seus clientes de comportamentos inconfessáveis.

E como ficam a população e a Democracia? Esquecidas, roubadas, vilipendiadas, humilhadas por elites protegidas por Data-Vênias "democráticos".

Ivan Bezerra de Sant Anna


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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Os Tamoios nunca morrem

Os Tamoios nunca morrem 




Ah, filha, quantos sonhos ficaram ao longo do caminho, pisoteados pelo egoísmo intolerante, pela mistificação enganosa, por crenças que nada crêem, onde os seus altares são os seus próprios umbigos. As palavras vibrantes de entusiasmos mudancistas, o sangue derramado, punhos corajosos altaneiros, são lembranças desfeitas, perdidas ao longo da linha do tempo, tais como folhas murchas de uma Palmeira sobrevivente que sobrevoam um manancial de areias infinitas.

Era ainda criança quando as forças do egoísmo e da intolerância, pisotearam a frágil e esquizofrênica Democracia que nascera após o longo reinado do ditador de São Borgia, tutelado por militares reacionários. A época dos militares irmanados com o povo, os que ajudaram na proclamação da independência, na posterior deposição de D. Pedro I, do Tenentismo popular, tinha cessado. Começara o tempo das espadas juramentadas a serviço dos dos sacerdotes do egoísmo, dos populistas autoritários e do voraz Capital que engole os seus criadores, transformado-os em mercadorias recicladas.

Era uma época sombria onde o medo reinava imperial, e que o manto negro da noite, com seus ruídos sinistros, encobria os gritos lancinante dos torturados e os lamentos dos mortos sem tumba. Tempos de Partidos e de homens partidos, disse profeticamente o poeta Drummond. No entanto, apesar dos sabres e das baionetas ensanguentadas, avançávamos com determinação, fazendo dos nossos medos, um aconchegante estofo para a hermética Caixa de Pandora, onde depositávamos a preciosa esmeralda da esperança. Muitos dos nossos morreram com um sorriso congelado nos lábios ensanguentados, como se os seus últimos pensamentos fossem povoados pelo sonho de um novo amanhã.

Ah, filha, se eles soubessem o que estaria por vir... Mesmo sem crer, rezo todos os dias para que não existam espíritos, e mesmo que eles existam, espero que sejam bafejados pela cegueira, pela surdez, impedindo-os assistir a horrenda tragédia da traição, perpetrada por aqueles que outrora lutaram pela Democracia e pelos grandes ideais da honestidade, decência e dignidade. Os que morreram pela Democracia não merecem ser punidos duas vezes. A primeira, por mãos assassinas, armadas com fuzis, que retiram-lhes o brilho viçoso dos seus olhos; e a segunda, por mãos macias de presteza gatuna, empunhando canetas que transformaram as instituições republicanas em prostíbulos a serviço das grandes empresas da construção civil e prestadoras de serviço estatal, ajudadas por políticos indecentes, encobertos por mantos de vermelho pálido, como se sentissem vergonha das suas pérfidas traições. 

Os nossos bravos e inesquecíveis camaradas morreram, minha filha, pela conquista de um Estado democrático que realizasse os altos ideais de justiça e de fraternidade, onde a dama da Democracia honrasse um governo "do povo e pelo povo", e jamais sonharam, nem no mais tenebroso pesadelo, a possibilidade de existir uma Democracia prostituida pelo aliciamento econômico, onde treze pessoas que juraram proteger a Constituição, são, na realidade, lacaios de luxo de políticos inescrupulosos, populistas enganadores, corruptos e ladrões da esperança popular, todos prestimosos  serviçais de uma poderosa máfia de empresários, que faz da famosa Gamora italiana uma impotente anã.

Se aqui estivessem, minha filha, com seus brios de outrora, mesmo indignados por esse lamaçal fétido da corrupção, eles jamais pediriam o auxílio das baionetas anticomunista e autoritárias, mas sim, o retorno do ideário do Tenentismo popular, uma filosofia que fazia de um soldado, um cidadão responsável pelo destino de toda a coletividade. Eles jamais iriam exigir que os militares se desculpassem pelos perversos erros do passado, pois, afinal, o que são meras palavras? Eles exigiram, isto sim, uma brasileira Revolução dos Cravos, onde soldados e trabalhadores marchassem pelas ruas para a construção de uma verdadeira Democracia, semeando os sonhos e a esperança, pois esse é o verdadeiro pedido de desculpa militar, a redenção  do seu passado inglório.

Ah, filha, os velhos camaradas que foram chacinados pelos militares autoritários são como os Tamoios que vagam desencarnados pelas ruas e campos, locais onde se refugia a Democracia, banida dos palácios institucionais. Vez por outra, eles tentam gritar, soprar o hálito das mudanças para uma multidão que trafega olhando para o chão. Às vezes, uma mulher, um velho, um menino, um maltratado cachorro, param subitamente, como se ouvissem a voz de uma mãe tamoio, tão bem poetizada pelo genial Gonçalves Dias:

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

(...)

Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

(...)

Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.

E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

Ivan Bezerra de Sant' Anna


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