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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Aracaju em trânsito

Aracaju em trânsito






As mudanças em nosso trânsito são constantes, inovadoras, impacientes e muito criativas. De fato, o SMTT de Aracaju é o órgão disciplinador mais criativo do mundo! Em nome da verdade e da justiça não poderíamos deixar de reconhecer essa característica que o diferencia dos demais órgãos gestores existentes no Brasil, e quem sabe, no mundo. Com tantas inovações, impossível não haver uma remessa necessária a uma indagação: como vai indo a saúde do nosso trânsito? Deveria estar muito boa, pois não faltaram especialistas para tratá-la com muito carinho e zelo. Tivemos durante muito tempo um psicólogo especializado em saúde mental na direção desse importante órgão e em tempos recentes, um médico com especialidade em saúde publica, o Dr. Samarone.

Coincidência ou não, os dois homens da saúde são professores da UFS, nunca (ou quase nunca) passaram por perto de uma clínica e sempre apreciaram o termo Saúde como uma palavra metafórica, longa e extensiva, como a saudosa rodovia Transamazônica. Isso é uma critica? Não, longe disso! No caso do Dr. Samarone, nunca é pouco afirmar que é uma pessoa premiada pela inteligência, sagacidade e um argumentador felino e feroz. Satírico, mestre da ironia, o reverenciado filho da cidade de Itabaiana sempre foi implacável com seus adversários e desconhece-se quem saiu ileso de uma disputa com o Protágora serrano. O escrevente jura com a mão na Bíblia que foi testemunha visual e auditiva do desempenho impactante do camarada Samarone, quando o mesmo era integrante do Partido Comunista Brasileiro, o Partidão.

No entanto, mesmo com altas e criativas doses dos remédios administrados pelo Dr. Samarone, focos de infecções aparecem em algumas artérias importantes de nossa cidade, levando-nos à preocupação quanto a uma possível generalização infeciosa. As causas são inúmeras, no entanto, algumas são de maior importância, dentre elas, o traçado urbanístico e arterial da cidade, a proliferação de leucócitos automotores, o péssimo transporte público, o fraco desempenho da Policia de Trânsito, a falta de profissionalização dos analistas de trânsito e a quase ausência de normas disciplinadoras que desmotivem comportamentos individualistas e predatórios.

Quanto ao traçado urbanístico e arterial da cidade, muito pouco o Dr. Samarone pode fazer. A cidade " quadradinha" foi projetada para o trafego das carruagens dos poucos "bem sucedidos" e das carroças dos "bem fudidos", e para dar alguma curvatura nos quadrados na atualidade, somente um esforço concentrado de toda administração municipal com construções de novas artérias e viadutos. Mas pelo andar das carroças "companheiras", muito pouco se pode esperar.

Já a proliferação dos leucócitos automotores (a paixão dos brasileiros), a questão é grave e complexa. Se os brasileiros em geral adoram esse "bichinhos" que são também objetos de fetiche e de status, associados com o individualismo competitivo, imaginem a situação, quando um Presidente populista alarga irresponsavelmente o crédito financeiro para os compradores. Nos países desenvolvidos, os governos estão restringindo o crédito na tentativa de conter o crescimento exagerado dos automotores, mas no Brasil dos bolsistas, o importante é o sorriso de alegria estampado nos rostos dos potenciais eleitores, e com mais vivacidade alargada, nos rostos gentis dos donos das financeiras e montadoras de "bichinhos". Mas, o que o Dr. Samarone pode fazer? Criticar o "pai do povo"? Se o fizesse seria um ato inútil e perigoso para sua carreira política. Em verdade, o meu antigo colega do Partidão vem tentando desobstruir algumas artérias com medidas eficazes, como é o caso da proibição de estacionamento duplo, no entanto, encontrando pela frente fortes protestos dos usuários egocêntricos que se pudessem se casariam e dormiriam com seus amadas "criaturas". O que já fez é muito, levando-se em conta às imensas barreiras que encontra pela frente; entretanto é muito pouco para o combate eficaz do problema. É necessário desobstruir as artérias, mesmo que o remédio seja amargo, dolorido e arriscado. Acabar com estacionamentos nas ruas das artérias de grande fluxo é um deles.

Nenhuma regra ou fiscalização vai dar resultado se o transporte urbano não for uma real alternativa para a população. Enquanto não acabar a férrea predominância do Sindicato dos Transportes Urbanos sobre os interesses da coletividade, não teremos um transporte publico que seja alternativa para os automóveis. Esses senhores proprietários das empresas de transportes financiam as campanhas políticas de alguns vereadores (custo acreditar nessa maledicência popular) e em decorrência dessa contribuição, fazem o que querem, inclusive não cumprindo os contratos administrativos. Querem uma prova? É só contar o número de ônibus em operação diária (velhos e caindo aos pedaços) e verificar no contrato quantos teriam de operar. E a SMTT? Tanto os fiscais, como o Dr. Samarone nada sabem, e se sabem, nada dizem. Afinal, quem exerce o verdadeiro comando? O sr. Adrielson, o sr. Laurinho ou o Dr. Samarone? Claro que é o velho companheiro de lutas, o Dr. Samarone! Pelo menos é nisso que tento acreditar com todas as minhas forças para honrar o passado que vivenciamos juntos. No entanto, sempre me indago: por que o velho companheiro nunca propôs a criação de uma empresa municipal de transporte urbano, para competir e servir de cunha estratégica, elevando a qualidade dos Serviços de Transportes para a população? Em vez da SMTT utilizar o fundo financeiro para renovação da frota dando dinheiro para as empresas, o o BANESE financiar compra de ônibus a "fundo perdidíssimo", deveria canalizar esses recursos financeiros para a criação da Empresa Municipal de Transporte Urbano. Fico a me perguntar: onde estão os verdadeiros neo-liberais?

Os engarrafamentos no trânsito estão crescendo constantemente, afirmação facilmente comprovada, sem maiores esforços. Será que o crescimento exponencial da frota de veículos é o causador desse fenômeno? O que dizem os técnicos e analistas do SMTT? Qual o remédio imediato para essa crescente infecção que ameaça se alastrar, Dr. Samarone? Vou reformular a pergunta. Existem profissionais competentes e sérios que possam estudar e projetar melhorias no trânsito, ou existem meia dúzia de engenheiros civis que se "escondem" em busca de "sombra e água fresca"? Se existe um corpo técnico especializado, como se explica o milagre da proliferação de semáforos (aqui e ali) aumentando os pontos de estrangulamento? Semáforos onde não deviam existir são contraproducentes, como é o caso da "nova e criativa" saída do Shopping Riomar, sem falar nos implantados nas Rótulas, que tantas confusões causam. Existem alguns que fogem de qualquer raciocínio técnico e somente encontrando explicações para suas existências, no campo dos interesses bem pessoais dos ricos, poderosos e amigos. Que tal suavizar a "quadratura" da cidade, dando maior fluência ao trânsito da Av. Beira Mar, Av. Contorno e outras que circulam a cidade, em vez de encher as referidas artérias de semáforos de três tempos, visando tão somente atender interesses de construtores, shoppings, supermercados e escolas? Comodidades para alguns, sofrimento para a maioria.
Essa semana, entrevistado por um Radio da nossa capital, o Dr. Samarone com frases irônicas que lhe é peculiar, declarou que os pedestres não poderiam estar reclamando, pois a culpa das péssimas calçadas era dos proprietários das residências que construíam de forma irregular e não iria construir passarelas porque os velhinhos, os deficientes e as gestantes não poderiam usar. Confesso que estou desconhecendo o velho Samarone! Que falta de coragem! Deveria ter dito, até para honrar o seu bravo passado, que a culpa é da EMURB e da Secretaria de Obras que não fiscalizam as construções das calçadas, em vez de forma oblíqua transferir a culpa para os pedestres. Que coisa! Nunca pensei que iria viver para ouvir o Dr. Samarone falar uma asneira como essa! Imitar o Lula tem limites e não fica bem em um homem com uma inteligência privilegiada. Segundo o Dr. Samarone, Aracaju é a única cidade no Brasil e no mundo que não pode ter passarelas, pois a maioria da população é formada de velhos, grávidas e deficientes! É possível que o número de mulheres grávidas tenha aumentado devido ao implemento da bolsa família, no entanto, convém não exagerar. Quanto aos deficientes, o Dr. Samarone com sua ironia de caminhoneiro foi longe demais. Claro que para um bom entendedor, o Doutor não estava somente se referindo aos deficientes físicos, mas a um novo tipo de deficiente: a maioria da população aracajuana que se cansou da incompetência petista, "pcdobista" e de seus aliados, como por exemplo, do PDT do Dr. Samarone.




Se conheço bem o Dr. Samarone, possivelmente vai assumir uma postura galhofeira, e com sua farta inteligência vai tentar desconhecer ou ridicularizar esse escrito. Em resumo: vai tentar dizer com palavras virulentas, colocadas com talento, que estou falando besteira, pois nada entendo do assunto. Mas, ao que parece, nascemos para ser companheiros em decorrência da nossa militância no Partidão glorioso. Companheiros, sempre companheiros. Como especialistas em Trânsito, empatamos em 0x0. Em nossa mania delirante, ele faz besteiras e eu falo outras tantas.


Ivan Bezerra de Sant Anna - advogado dos anônimos usuários do Transporte Púbico. (ONG virtual que não usa dinheiro público)



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domingo, 7 de agosto de 2011

Casamento ou divórcio?

Casamento ou divórcio?





Os nossos ministros do Supremo Tribunal Federal estão virando estrelas que se rivalizam com outros astros do mundo futebolístico. A mídia está aí para ajudar e já existe o programa televisivo que transmite o "show Judice" ao vivo e a cores para todo território nacional. Poderia ser novelas ou seriados, mas os rostos nada joviais dos nossos ministros não ajudam muito, apesar do bom desempenho dramático de alguns deles. Um jogo de futebol é o show que mais se assemelha com o que é diariamente apresentado por nossos ministros, precisando acrescentar alguns importantes detalhes, como por exemplo, um narrador do tipo Galvão Bueno para distribuir graciosos apelidos às estrelas, distinguindo-as por seus talentos individuais. Resta saber quem vai ser "o fenômeno", "o imperador", "o fabuloso", etc.

Como o Brasil só é Brasil calçando as chuteiras e como a seleção anda mal das pernas, os nossos ministros para preservar a República brasileira resolveram assumir a importante operação de salvamento nacional intitulada "A Pátria de chuteiras". Há quem afirme que estou errado, pois os nossos ministros mais se assemelham aos os políticos que aos jogadores de futebol. Mesmo possivelmente em minoria, continuo achando maior semelhança dos ministros com jogadores de futebol pela simples razão que os políticos são representantes eleitos dos cidadãos, usando a mídia para prestar contas aos eleitores. E os nossos ministros com que finalidade usam a mídia televisiva? Para prestar contas é impossível, pois os cidadãos não podem retirá-los dos cargos. Em busca de legitimidade? Bom, nesse caso torna-se necessário repensar a questão, pois o Judiciário ostentou o ultimo lugar na última pesquisa divulgada pelos órgãos de pesquisas de opinião pública.

Por falar em pesquisa de opinião, o Ibope acaba de publicar uma, muito interessante. Segundo essa empresa de pesquisa de opinião pública, a maioria dos brasileiros e brasileiras desaprovam a união de casais do mesmo sexo, aprovada pelo STF. Que fazer se os doutos ministros são vitalícios e não são eleitos? Parece que os mirabolantes dribles, as jogadas de efeitos interpretativos não foram bem recebidas pela população brasileira. Não será um bom momento para os nossos Gansos, Patos da arte Jurídica descalçarem suas chuteiras para assumirem uma postura humilde e sacerdotal, como fazem os juízes dos tribunais constitucionais do continente europeu, defendendo a Constituição em vez de patrocinarem um de festival deformação e mutilação constitucional?

Eles se defendem declarando que apenas utilizam os princípios constitucionais que albergam direitos das minorias esquecidas. Os senhores ministros confundem alho com bugalho! O espaço representativos das minorias ou qualquer segmento social é o Parlamento eleito e não um órgão técnico composto por membros vitalícios. O cidadão não precisa de um órgão composto de "sábios juízes platônicos" para conquistar e assegurar seus direitos. Essa conquista se dá com organização, tenacidade e muita luta, tanto no seio da sociedade civil, através de entidades civis, como na sociedade política, implementada pelos representantes eleitos. Em uma Democracia os direitos são conquistados e não ofertados por uma elite burocrática, que, exercitando o livre arbítrio, também pode negá-los. Em uma cesta de palavras genéricas ou de búzios, tudo pode ser visto. Os cartomantes possuem as cartas ou búzios; os senhores ministros, os princípios programáticos.

Devo deixar bem claro que não sou contra o casamento entre as pessoas do mesmo sexo. Acho que a sexualidade, a união entre as pessoas é uma questão de escolha e na medida do possível deve ser garantida a fruição desse direito pelo ordenamento jurídico, sem, é claro, lesar e violar a Constituição Federal.

Nesse triste episódio, uma insofismável constatação: os nossos sapientes ministros do STF foram longe demais! Eles derrogaram (ou ampliaram) o Art. 226 da Constituição Federal através de uma mirabolante interpretação de princípios constitucionais abstratos, vagos e imprecisos. Princípios derrogarem uma norma constitucional clara e determinada? Acho que nem o Otto Bachof, em seus escritos revolucionários, aconselha. No entanto, os nossos craques do Direito acham que podem. Pasmem! Veja o que eles fizeram! O Art. 226, § 3, originalmente diz:

"Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento."

Vejam a criação legislativa dos senhores ministros:

"Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher; homem com homem; mulher com mulher; como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento."

Agora, pergunto: isso é interpretar ou legislar? Se derrogar ou censurar uma lei tendo como base princípios vagos, é um atentado ao principio da legalidade, à separação dos poderes, o que dizer da subrogação dos senhores ministros em deputados constituintes? A palavra usurpação não traduz bem esse ato indigno contra o Estado Democrático de Direito. Talvez seja o caso de usar uma frase carnavalesca, risível e subversiva: os ministros calçaram as chuteiras!

Mesmo se não existisse o claro e cristalino artigo 226, a questão deveria ser resolvida pelos representantes eleitos, pois a eles foi dada a missão constituicional de criar direitos através de uma ampla prognose, embasados no principio democrático da maioria. Aliás, toda vez que esse grande princípio reitor da democracia foi subvertido, a invenção, a farsa transformaram-se em tragédia. Nunca é demais lembrar da "democracia" corporativista fascista.

É lamentável que colegas juristas tenham aplaudido essa usurpação dos poderes eleitos efetuado pelos ministros do STF. A questão não reside na justiça ou não da decisão colegiada, mas se eles tinham poderes constitucionais para fazê-lo. Sem essa reflexão crítica, possivelmente, de passo em passo, esses senhores de toga estarão administrando a Nação e, como advertiu Rui Barbosa, "a pior ditadura é a do judiciário". Se é que chegarão a tanto! É bem possível, como já se registrou na história, que no meio do caminho as elites dominantes, antevendo ou verificando uma crise de governabilidade, resolvam substituir esse colegiado delirante e vaidoso por algo mais determinado e eficiente. Assim, podemos repetir uma frase bem conhecida na Alemanha nazista: "Da ineficiência dos políticos corruptos e da confusa concepção de legalidade dos juízes, germinou a espada do Führer"

Por enquanto, no país do carnaval e do futebol, os nossos ministros "batem as suas bolinhas", ensaiando umas "embaixadas", umas jogadas de efeito, sob as luzes intensas dos holofotes e por câmaras de vídeo angulares. Lá fora o povo, sem entender "bulufas de nada", sente-se divorciado daqueles honorários "santos casamenteiros", que "volta e meia", pisam na bola.


Ivan Bezerra de Sant' Anna - Advogado minoritário.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Nêga Maluca

Nêga Maluca




Algumas pessoas contam e juram que é verdade que uma determinada senhora da nossa sociedade, em um determinado estabelecimento doceiro muito freqüentado pelos apreciadores de guloseimas adocicadas, fez um estranho pedido: "Por favor, quero um bolo afrodescendente com distúrbios psiquiátricos". A atendente, para lá de perplexa e tentando conter o riso moleque que teimava sair, disse: "Senhora, não temos tal bolo". "Que é aquilo, menina? Quer brincar comigo?", exclamou com indignação a jovem senhora, apontando para um bolo pretinho na prateleira. "Senhora, aquele bolo é conhecido como Nêga Maluca e não sabia que sua origem era africana".

Engraçado, já comi esse bolo e nunca soube da sua origem africana, bem como, jamais me senti ofendendo alguém que possuísse uma pele mais escura que a minha. Sempre escutei a música "Upa Neguinho" principalmente com a belíssima interpretação da Elis Regina que, em outra música, fraseava com talento: "Nêga do cabelo duro/qual é o pente que te penteia...". Nunca percebi nenhuma ênfase racista na divina interpretação da Pimentinha e por gostarmos dessas musicas nem eu, nem a talentosa artista, estaríamos enquadrados no rol dos racistas pecaminosos. Pelo menos naquela época....

Como naquela época era quase unanimidade que o escritor Monteiro Lobato estava entre os maiores escritores de literatura infantil do mundo e nenhum critico literário via nas referencias descritivas de Tia Nastácia, frases racistas, com intenções difamatórias à raça negra. Muito ao contrário, seus livros eram tidos como subversivos, com fortes conotações de sociabilidade, e impregnados de apelos à solidariedade que, segundo a Direita fascista, "eram livros que pregavam o comunismo para as indefesas crianças brasileiras". Coitado! Era sua sina ser perseguido pelas hostes fascistas, queimadoras de livros e protetoras das nossas criancinhas que, com o passar do tempo e com a influência do nosso brasileiríssimo camaleão, transmudaram-se de "camisas pardas" para "peles pardas".

E como aconteceu essa mágica transformação? De repente, o grande escritor revolucionário se transformou em um pecaminoso racista, tendo seus livros proibidos nas escolas publicas, segundo parecer expedido pelo Conselho Nacional de Educação, acolhendo uma reclamação do ministro da Secretaria de Igualdade Racial que considerou o conteúdo da obra de Lobato, "racista e perverso". E como um passe de mágica - e tudo é mágico nesse país - apareceram "sociólogos apardeados", "companheiros pesquisadores", todos raivosos, marchando, hasteando bandeiras e com feixes de lenha nas mãos para alimentar a grande fogueira da Inquisição Parda.

O que foi que desencadeou essa fúria "fogueiral" das elites pardas companheiras? Ao que parece, umas cartas pessoais de Lobato que contém algumas referencias racistas. Ora, e daí? Não se deve esquecer a grande lição de Otto Maria Carpeaux que, recorrendo ao auxilio prestimoso de Karl Marx, dizia que nunca se devia confundir a personalidade empírica, com a personalidade artística e criadora de um musico, escritor, pintor ou qualquer criador de artes. Deveríamos proibir a leitura das obras de Aristoteles, por ser ele defensor da escravidão? Lançar os grandes romances de Honoré de Balzac às fogueiras purificadoras, porque o referido escritor era um defensor da monarquia deposta e decadente? Proibir as apresentações públicas das óperas de Wagner, porque o mesmo era racista e sua obra foi usada na propaganda nazista? Proibir que sejam tocadas as brasileiríssimas musicas de Heitor Villa-Lobos, em decorrência do compositor ter sido propagandista da Ditadura Vargas? Riscar do mapa literário o livro Casa Grande e Senzala, do sociólogo Gilberto Freire, pela referencia de uma suposta conciliação das raças, danosa à consciência negra? Lançar no Índex dos livros proibidos, as poesias do poeta americano Ezra Pound; os romances magistrais do francês Louis-Ferdinand Céline, porque ambos eram defensores da idéias da supremacia racial branca? A lista desses artistas "reacionários e racistas" é longa e sempre vai existir algum critico "apardeado" que vai ler, escutar ou imaginar frases "racistas e perversas" nas obras desses ilustres artistas, influenciado por suas existências empíricas, ou, na maioria das vezes, pressionado por seu "ódio de classe", por seu complexo de "branquidade", como dizia o saudoso Darci Ribeiro. Consciência de classe e étnica é outra coisa, camaradas!

Não se combate o preconceito racial com marchas raivosas dos "peles pardas"; com fogueiras purificadoras; dando a medalha Marchado de Assis ao semi-analfabeto Ronaldinho Gaúcho; colocando Lázaro Ramos como galã de novelas; criando "bolsas raciais", pois tudo isso não passa de variadas mentiras populistas, tão ao gosto de nossas elites desonestas e reacionárias. O Sr. Lázaro Ramos não é galã nem aqui, nem na África, assim como o fabuloso ator branco, Procópio Ferreira, nunca o foi. O Sr. Lázaro é feio e não é a Rede Globo que vai tentar criar uma beleza "politicamente correta". Aliás, esse termo me provoca arrepios. O que é uma coisa politicamente correta? Na Alemanha nazista era tudo aquilo que o Partido Nazista não proibia, sendo a desobediência penalizada com a internação nos campos de concentração. No Brasil dos companheiros é tudo aquilo "que é e não é"; é o eufemismo em lugar do conceito; é a mentira velada, mascarada e deslavada.

Assim, em vez de pardo, moreno, mulato, temos que dizer "afrodescendente". Ué, não somos todos afrodescendentes? Existe algum brasileiro que não seja afrodescendente? E se somos, como criar um diferenciador para fins de indentificação e aplicar critérios para fazer jus às cotas raciais, por exemplo? Afrodescendente ("branquinho", "escurinho", "mulatinho")? E quando formos comprar feijão, aquele mais escuro que chamávamos inocentemente de mulatinho, vamos ter que pedir feijão afrodescendente? E o conceito da física ótica que diz que o negro não é cor, mas a ausência de todas as cores, deve perder a validade cientifica porque não é politicamente correto e se constitui numa afirmação "racista e perversa" à dignidade negra?

Perdoem-me a ironia, mas esse País é uma piada grotesca. Uma República de mentira. Nunca ouvimos os sons da Marselhesa, mas os sons marciais das fanfarras, misturados com os batuques dos tambores dos terreiros. Uma Republica que nasceu de uma cavalgada, sob o rufar dos tambores marciais e se mantém estribada em pilares autoritários, disfarçados num populismo nefasto. Enquanto o CNE proíbe que os livros do maior escritor de literatura infantil do Brasil sejam distribuídos nas escolas públicas, o Governo compra milhares de exemplares da Nova Gramática Companheira, obra escrita por companheiros cor-de-rosa, ensinando para as crianças brasileiras que escrever "nóis vai" é a melhor maneira de desenvolver uma nova língua democrática. E que democracia!! A democracia da liberdade de opinião vigiada, ora pelo Judiciário, ora pelas hostes fascistas dos "peles pardas", encastelados nos órgãos governamentais. Uma democracia que os governantes não respeitam os tratados que assinam, deixando em liberdade um assassino que atentou contra o Estado Democrático de Direto Italiano e os senhores ministros do STF lavaram as mãos, emitindo um acórdão conivente: "Isso não é conosco". Entretanto, quando se tratou de gerar despesas estatais para para custear os casamentos homossexuais, os nossos ministros legislaram e desrespeitaram a Constituição Federal, afrontando o principio da separação dos poderes. Que coisa!! Que República!!

Enquanto isso, aquela senhora politicamente correta que fez o estranho pedido na casa de doces, já com seu bolo afrodescendente nas mãos, dirige-se para o seu belo e luxuoso apartamento. Ao chegar, a senhora que ostenta um discreto broche do Partido Cor-de-rosa, entrega seu precioso bolo pretinho para sua empregada afrodescendente que prontamente se dirige para o elevador de serviço. A regra do condomínio que proíbe a empregada afrodescendente fazer uso do elevador social, bem como o uso da piscina, não ofende à dignidade da raça negra, pois é uma simples questão de classe social - cada um em seu lugar. O problema racial não está em um salário irrisório, nas restrições impostas por regras condominiais, ou na atenção exagerada que a policia dedica a esses servidores pardos, morenos ou pretos. O problema se encontra no Sítio do Picapau Amarelo com Tia Nastácia e seu vocabulário debochado; no Saci Pererê andando em uma só perna; na engraçada boneca Emília e na Tia Benta. Mas não se preocupem: os "peles pardas" em constante marcha cívica vão jogar todos esses personagens na fogueira da Santa Inquisição, protegendo, dessa maneira, os nossos indefesos Pedrinhos e Narizinhos. No entanto, quem os protegerá das Cucas se os personagens do Lobato virarem carvão? Olha que as Cucas não moram somente no campo da ficção do Sítio do Picapau Amarelo. Eles são demasiadamente reais e de vez em quando atendem pelos nomes de Antonio Gomes da Costa Neto, Eloi Ferreira de Araújo e outros que integram o Conselho Nacional de Educação.

Ivan Bezerra de Sant' Anna - Afrodescendente branco.





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quarta-feira, 22 de junho de 2011

A linguagem do amor

A linguagem do amor


Um amigo, uma pessoa muito afável, aparentemente muito comedido, quando deparou comigo no Shopping, desabafou: "Estou arrasado. A minha mulher me deixou". Perguntando-lhe as razões de tal infortúnio, acrescentou: "Sei lá. Tivemos várias conversas com o objetivo de acertarmos as coisas. Vejo, porém, que foram inúteis. Para quem queria conversar racionalmente, insistindo que devíamos ser adultos, o seu comportamento final foi totalmente irracional. Que loucura!".

Se o conheço bem e se o que me contava do seu relacionamento tinha razoável veracidade, acho que seu sofrimento é honesto e pungente. Vinte anos de relacionamento e de repente, sem mais nem menos, acabou! Pelo que sei ele é "um dos amantes à moda antiga que ainda manda flores"; gosta de advinhar os desejos da amada e estar sempre pronto para satisfaze-los. Pode-se dizer: um homem quase perfeito.

No entanto, conhecendo-o bem e me atrevendo dizer que conheço um pouquinho as divinas cabeças femininas, acho que meu amigo está longe de ser um homem quase perfeito. O problema é que o amigão é engenheiro e tentou estabelecer limites às funções derivadas, com finalidade de calcular com razoável precisão os anseios e comportamentos da amada, esquecendo-se que as fantasias e anseios secretos estouram quaisquer limites impostos e tendem ao infinito. Para piorar a situação, meu pobre amigo era totalmente previsível aos olhos da sua amada. Como uma pessoa previsível pode mexer, incitar, provocar desejos e fantasias em outra? Uma amiga me disse certa vez que ao sentir que um homem está totalmente em suas mãos, ela perde o tesão por ele. Isso é uma regra geral? Pode não ser, mas convém ficar atento. Por que os homens se sentem fascinados pela "outra"? Uma das minhas personas me diz: é porque a "outra" é imprevisível, livre, sem escritura de propriedade, o que provoca nos homens a irresistível vontade de conquista-la. E quando acontece a posse definitiva e permanente, desaparece a "outra", com todo o seu fascínio. Se essa observação possui algum indicio de verdade, ela vale também para as mulheres. Tenho uma pequena desconfiança que os casais deviam rasgar todos os pactos de domínio, ficando, no máximo, com o de posse precária, alertando, porém, que a melhor posse é nenhuma, para não ficar com cara de manga pêca, igualzinha a do amigão, quando lhe perguntei como estavam as fantasias e o tesão.

Entretanto, o que me causou interesse e curiosidade não foram as causas que implementaram o infortúnio do amigão, mas, um simples detalhe, uma particularidade que, para muitas pessoas não passaria de algo de pequena monta, insignificante e irrelevante. Uma frase. Uma pequena frase usada, abusada e quase sempre, banalizada. Se uma outra palavra é inserida por emoções desesperadas, inesperada se torna sua musicalidade, pincelada com as cores fortes do crepúsculo. E na noite irrevogável, o vôo branco, o pio estridente da coruja traz presságios, nem sempre tão bons.

Quando uma mulher deseja falar sobre o relacionamento do casal, disparando, "fulano, vamos conversar racionalmente?", o fim se avizinha, mesmo que venha em módicas prestações. Se o "fulano" tivesse um pouco de sensibilidade auditiva, nesse momento, já ouviria os sinos dobrando para uma morte anunciada, restando-lhe preparar os procedimentos fúnebres, condições necessárias para uma possível ressurreição.

Falar racionalmente sobre o amor, isso existe? Vamos imaginar uma pessoa profundamente impressionada por outra que em um determinado momento resolve despejar seus sentimentos guardados. Será que ele vai dizer, "fulana vamos conversar racionalmente sobre o nosso possível namoro"? Vai elencar uma serie de pontos a serem discutidos sob o prisma da boa lógica formal ou com uma serie de argumentos quase-lógicos? Vocês imaginam essa cena? Pode ser, mas em uma comedia muito divertida, tendo um panaca como principal personagem! Em verdade, o que ele vai fazer para conseguir um possível êxito comunicativo? Vai usar uma linguagem diferente. Uma linguagem indireta com fraseados visuais, auditivos e sensitivos, pontuada pela poética, por ritmos e musicalidades, usando os artifícios, os instrumentos e os valores culturais que aprendeu. No mínimo, vai estufar o peito, abrir suas asas, eriçar as penas, como fazem algumas aves para o deleite da fêmea, com cara manhosa e disfarçadamente diminuta.

O mesmo deveria acontecer entre os casais quando o assunto for o relacionamento afetivo, sexual e amoroso. A linguagem persuasiva, poética, norteando o futuro, cheia de promessas, de sonhos, de fantasias, é a verdadeira linguagem do amor. Se comunica melhor do que a fria linguagem racional, pois as densas informações que traz em seu bojo são fraseadas por ritmos e musicalidade que tocam o coração, sem impedir que a razão se faça presente como um moderador democrático e facilitador. Alias, um tônico para uma nova razão: uma razão ampliada, com limites que tendem processualmente ao infinito.

Vamos imaginar um cenário onde um homem cego que pretende namorar uma determinada mulher. Ele pode dizer: "sou cego de nascença e pretendo namorar você para ser feliz" ou, alternativamente, pode dizer: "você é como a primavera que não posso ver; mas fico feliz com a brisa suave que emana de ti". Qual das duas tem mais informações? Quais delas levariam uma mulher a refletir?

Uma mulher se prepara para ir ao Shopping e se depara com o marido fantasiado com a camisa do Flamengo. Contrariada, ela diz: "não vou sair com você parecendo um mendigo, um urubu". Possivelmente, ele já tungado por umas cervejinhas, dirá: "vou como quero, sua porra". No entanto, ela pode dizer: "amor, que bom que não está usando aquela camisa azul celeste que você tem. Você fica lindo demais com ela e eu fico com ciúmes". Nesse caso, com certeza, o nosso Zicão pensará demoradamente no assunto, principalmente se for torcedor do Confiança.


O mais importante é que a linguagem do amor se adapta com qualquer vocabulário, tanto expressando-se na língua culta, como no catinguês, de acordo com a Nova Gramática Companheiro. O importante é poetizar com as palavras, frases e parágrafos. Vamos imaginar um dialogo entre uma mulher inculta chamada Mariza e o seu marido Luiz, homem arredio à riqueza das palavras, mas muito apaixonado pela riqueza dos pastos bovinos. Ela em estado de carência, como a maior parte das mulheres casadas, pode dizer: "oxente, home. Não me procura mais? Fica só tomando cachaça e falando com vereador. Tô mesmo que lagatixa". Ele, provavelmente, responderá: "se queta, muier. Que muier veia mais sibite. Vá tomar banho de agua fria". Ao passo que se nossa hipotética Mariza resolver deixar que suas pobres palavras tomem o rumo na trilha da fantasia poética, poderá dizer: "meu touro, tô com saudade de ti. Sua vaquinha está doidinha pra ser coberta. Naum existe boi reprodutor igual a vosmece". Com essa mentira piedosa na última frase é bem provável que o nosso Luiz comece a pensar em enrijecer o seu desejo.

Um alerta se torna necessário. Nunca confundir a linguagem do amor com a linguagem irônica, indireta e sarcástica. Ambas utilizam metáforas, alusões, metomínias e quase sempre são provocativas. A primeira é uma provocação convidativa, um chamamento ao diálogo desejoso às fantasias que unem e congregam. A segunda é um convite às dissonâncias destrutivas e desagregadoras, como, por exemplo, se observa nesse diálogo: "amor, vamos brincar de médico e paciente?", diz a mulher, provocando-o suavemente. "Isso é brincadeira de criança. Na minha infância brinquei muito com as meninas vizinhas. Somos adultos agora e isso não tem graça", responde o marido. Aí, ela tasca a ironia: "você devia ter sido médico do SUDS; a fila de meninas crescia e você nada fazia".

O leitor poderá estar pensando que a linguagem do amor é um instrumento estratégico que se utiliza de frases bem construídas poeticamente, mexendo com as emoções das pessoas, visando retirar delas o que se deseja. Uma espécie de peça publicitaria, objetivando levar as pessoas irrefletidamente ao consumo de bens e serviços. Longe disso! A linguagem do amor é uma forma de escrever ou de falar que se utiliza de palavras, frases e parágrafos construídos com métrica poética, com melodia e ritmo, dando prazer as pessoas no saboreio das belas frases, provocando emoções e levando-as à reflexão. Um exemplo é um livro bem escrito. Por acaso as pessoas que se deixam levar pelo prazer das frases poéticas e melódicas, esquecem de refletir sobre o seu conteúdo? Uma poesia de grande beleza estética, com ritmos e melodias evocativos, perde sua expressão significativa e sua grandeza imaginativa?

A linguagem do amor é a poética da vida em andamento. Se manejada com maestria, criatividade e de maneira multilateral pode inserir os amantes num dialogo poderoso de emoções, devastando os preconceitos, dando voz as personas reprimidas que existem em nosso psiquismo, abolindo pecados e ampliando o prazer. Entretanto, se "as cartas forem para a mesa", em uma atitude racionalista centrada em valores sedimentados, então será inevitável o aparecimento do grande fosso que os separa. Pode-se manter o relacionamento, o acordo de convivência territorial, mas o castelo protegido pelo fosso estará sempre sitiado. No máximo, restará uma amizade ressentida; uma nostálgica lembrança evocada por uma pálida fotografia; uma pontada de tristeza de que tudo podia ter sido diferente.

Ivan Bezerra de Sant Anna



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domingo, 12 de junho de 2011

Luz, Câmara e Ação

Luz, câmera e ação!


As luzes são ajustadas, cada ponto medido por fotômetros sensíveis que analisam a luz incidente e refletida. Os operadores de câmeras se posicionam em locais estratégicos para as capturas de melhores imagens, orientados por um diretor de vídeo que se prepara para a comutação e cortes precisos, pontuados por ritmos e musicalidade das frases visuais. Enquanto se dá essa preparação técnica, maquiadores preparam cuidadosamente os rostos dos personagens principais, corrigindo imperfeições, retocando-os de maneira personalizada e criativa.

A ópera Tristão e Isolda será transmitida ao vivo? Um debate político entre candidatos majoritários? Faustão e seus convidados se preparam para o começo do programa televisivo? Tiririca e seus "assessores educacionais" na preparação do cômico show diário? O Sr. Rogério Carvalho, Zequinha da Silva (o lulinha), o eminente ex-ministro da Casa Civil e mais alguns mensalícios ilustres, festejando entre as câmeras televisivas o lançamento do livro de autoria coletiva intitulado "Como enriquecer em oito anos sem fazer esforço", prefaciado por Lula se expressando no autêntico dialeto catinguês?

Acho que todos os leitores, ou a maioria deles, se derem possibilidade à imaginação reflexiva só encontrarão uma resposta: Uma sessão de julgamento do Supremo Tribunal Federal transmitida ao vivo! Esse sim, um verdadeiro show de vaidades e com conotações populistas transmitida para todo o Brasil. Tem de tudo: olhares lânguidos insinuantes, posses cuidadosamente estudadas, frases empoladas, vozes impostadas, frases poéticas de efeito, e, algumas vezes, essa harmonia já intitulada de "show judice" é quebrada por ásperas dissonâncias de qualidade discutível. As línguas afiadas e ferinas são implacáveis quando alardeiam que nesse "show judice" tem de tudo, menos o bom Direito e o respeito pela separação dos poderes da Republica. Será?

Apesar de ter absorvido o paradigma construtivista da Suprema Corte dos EUA, esta jamais permitiu televisionamento das suas sessões de julgamento, bem como outros tribunais superiores dos países europeus desenvolvidos e com grande história de cultura Juridica. Dessa afirmação não pode decorrer a idéia que as democracias desse países sejam inferiores ao da nossa Pátria amada. Ao contrário, a Câmara dos Lordes, por exemplo, jamais permitiu televisionamento das suas sessões e nem por isso perdeu a legitimidade, mantendo-se constantemente em primeiro lugar nas pesquisas de opinião publica. Já o nosso Judiciário com televisionamento, briga acirradamente pelo último lugar com a instituição policial. Interessante, não?

Uma certa vez indaguei a um amigo advogado sobre esse fato e ele me deu uma resposta inteligente e curiosa. "Quer saber a verdade", disse-me ele, "não se pode confundir publicidade de atos judiciais, direito à audiência publica, com shows televisivos, pois esses são apropriados para os políticos eleitos que devem prestar contas e serem fiscalizados em suas atividades pelas pessoas que representam". Finalizando, arrematou com uma analogia interessante: "Um bom juiz é como um bom árbitro de futebol; quanto menos ele aparece, melhor é o jogo". Pensando bem, acho que o colega tem razão. Se um árbitro aplica a regra sem invenções construtivistas, sem recorrer a princípios norteadores abstratos e vagos, como, por exemplo, o do "gol justo", o da "infração razoável ou proporcional", possivelmente suas decisões legitimadas pelas regras não serão notadas e o jogo fluirá sem maiores problemas. Mas se o referido árbitro resolver que deve fazer parte do espetáculo de maneira proeminente, rivalizando-se com os jogadores em busca de aplausos, ou em alguns casos, interpretando as normas para atender interesses de um determinado clube, quase sempre a discórdia ruidosa acontecerá, vaias serão ouvidas e sua notoriedade se instaurará com aclamações não muito dignas, tais como, "juiz ladrão", "filho da puta", dentre outras mais picantes.

Os nossos juízes precisam entender de uma vez por todas, que os astros de um jogo democrático são os representantes políticos que são escolhidos e fiscalizados pelo povo que possuiu a verdadeira soberania popular. As câmeras, as luzes devem estar apontadas para eles e não para os juízes que possuem a grandiosa missão de zelar pela legalidade e pela ordem democrática com isenção e imparcialidade. Infelizmente, essa Constituição contraditória, esquizofrênica produzida por um "congresso constituinte" espúrio, sem legitimidade, dá sustentáculo ao esquecimento desse importante principio. Mesmo assim, se os magistrados observassem com zelo o Art. 1º, parágrafo único da "Colcha de retalhos cidadã", veriam a diferença entre o verdadeiro poder, conceituado nesse parágrafo e o poder formal instrumental, disposto no Art. 2º. Claro se não existisse a vaidade, a vontade de usurpação, o desejo inconsciente de ser político, a vivência de valores platônicos centrada na supremacia dos reis filósofos governantes, o nosso Supremo Tribunal Federal já teria declarado a supremacia dos poderes eleitos, como assim fez a Câmara dos Lordes em pleno território da commom law, por influencia de Blackstone e recentemente reafirmada por Lord Bingham no julgamento do caso Jackson versus Procuradoria (2005).

Ė antiga essa luta pelo poder por parte dos juristas em todo o mundo e em vários momentos históricos. O referencial sempre é o judicial review, instrumento de criação jurisprudencial da Suprema corte do EUA, influenciada pela doutrina jusnaturalista de Sir. Edward Coke. No entanto, mesmo na terra do Tio Sam, essa doutrina da supremacia do Judiciário foi moderada devido a crise constitucional estabelecida no governo Roosevelt, com a afirmação da razoabilidade presumida das leis econômicas e sociais. No Brasil, em vez do comedimento estratégico, do respeito pelo legislador, mesmo sob as vestes da hipocrisia, assistimos uma saraivada de censuras ao legislador, construções de legislações, e, o que é pior: a volta da censura por um difuso órgão censor, encastelado sorrateiramente no judiciário. Se o principal pilar de uma democracia é a liberdade de opinião publica, como entender que num debate político os juízes fiquem censurando e penalizando os debatedores, embasados em critérios vagos e subjetivos? No EUA, terra do construtivismo judicial, a imprensa ou candidatos podem aventar quaisquer hipóteses comportamentais, sem que o judiciário interfira. Aliás, tanto lá, como em outros países desenvolvidos, não existe Justiça Eleitoral. O que ofensivo num debate político, senhores juízes? Será que é a Democracia, a ofensa aos seus anseios oligárquicos?

Os senhores juízes se defenderão alegando que estão lastreados em uma boa doutrina e que devem conhecer a realidade fenomenal, através de exames acurados emitidos por especialistas, confrontando varias opiniões alternativas para efetuar testes na legislação existente, em busca do grau máximo de justiça. Em outras palavras, o que o legislador faz, a ampla prognose investigativa autorizado pela Constituição, os senhores juízes vão refazer para verificarem o seu enquadramento nos seus critérios particulares do justo, razoável e proporcional. Isso é o não é poder moderador? "Não", dizem os ilustres magistrados, "isso é interpretação conforme os princípios constitucionais". Pode parecer piada essa argumentação, mas, infelizmente, não é. Isso e outras coisas fazem parte de um show televisivo intitulado "quero minha ditadura de volta" ou "como era doce o meu general", que alguns órgãos de comunicação se empenham na divulgação ampla e constante. O Parlamento que é o centro de ressonância da sociedade em uma democracia decente, onde se encontram as variadas classes sociais, no Brasil encontra-se em processo de continua desmoralização, motivo de constantes chacotas e piadas, tudo isso por culpa exclusiva dos seus integrantes que não honram a representatividade recebida. Mas será que a culpa é somente dos senhores representantes? Será que podemos esquecer a imensa legião formada por pessoas que votam por um tijolo ou por uma bolsa "disso ou daquilo"?

Enquanto isso, o STF continua com o seu show televisivo demostrando para as pessoas que pode ser um Parlamento concentrado, ou, no mínimo, um poder moderador. As câmeras filmam, os juízes sorriem, argumentam, discursam, fazem gestos eloqüentes, saltitam de alegria. Não é para menos: estão quase governando a nação! Os seus colegas italianos, franceses, portugueses e germânicos devem estar morrendo de inveja. Coitados, não são vitalícios e se limitam muito na arte maravilhosa de governar. Claro que oitos anos de governo de um pingunço analfabeto facilitou muito a escalada de usurpação, ou melhor, de conquista do poder, mas não se pode retirar os méritos dos senhores juízes. Se não fossem eles - com o medo cúmplice dos políticos corruptos - como os juízes de instâncias ordinárias poderiam estar mandando fazer escolas, distribuindo medicamentos - mesmo sem a devida previsão orçamentaria -, perdoando as multas de trânsito, julgando indevidos impostos devidos por contribuintes astutos, anulando inquéritos administrativos de policiais truculentos e corruptos, arquivando ou julgando inocente por insuficiência de provas, os corruptos de colarinho branco?

Só me preocupa uma coisa. Examinando a nossa história política, verifico que foram poucos os anos de democracia, mesmo assim, claudicante. Acham que estou exagerando? É só contar. E durante todo esse tempo, o Judiciário desempenhou um papel lastimável em defesa dos valores democráticos, quase sempre domesticado pelos ditadores, e algumas vezes horrorizando a nação, como foi no caso da extradição de Olga Benario para a Alemanha nazista, ou colocando o Partido Comunista Brasileiro na ilegalidade, em 1948. Durante a longa ditadura militar nunca se viu ou ouviu o protesto do STF contra a ilegitimidade dos ditadores. Não se diga que os princípios de justiça e de direitos civis - que atualmente são usados para censurar a legislação democrática - não existiam na época. Existiam e o medo também. Enquanto as mortes, as torturas, as sedições aconteciam, onde estavam os juízes guardiões das liberdades civis e democráticas? Quem lutava nesse pais contra esse estado terrorista e autoritário? Os políticos! Esses mesmos que os senhores juízes censuram e tentam desmoralizar. Com todos os defeitos são eles que lutam, que tentam mudar o pais. E essa regra vale para o Brasil e para todos os países. A tão elogiada Suprema Corte dos EUA sempre foi um forte obstáculo para as mudanças sociais, passando centenas de anos declarando que a escravidão era um direito natural do proprietário e censurando todas as legislações que ampliavam os direitos dos trabalhadores. Quem efetuou as verdadeiras mudanças em plagas americanas? O Congresso e o Executivo, capitaneado pelos Presidentes LIncoln Roosevelt, os poderes eleitos.

O show televisivo judicial do STF, divulgando suas investidas legislativas, censurando ou sub-rogando o legislador me preocupa muito. Enfraquecer o Poder Legislativo é enfraquecer a democracia, mesmo sob a desculpa de omissão do referido poder. O povo não precisa curadores especiais, nem da proteção paternalista do Poder Judiciário. A Democracia é sempre jovem, mas não é uma menor relativamente incapaz. A história registra que a desmoralização continua do Poder Legislativo desestrutura os pontos de equilíbrio sistêmicos, aumenta as dissonâncias sociais e políticas, causando uma crise de governabilidade e um vácuo de poder. Alguém irá ocupar esse lugar e só não será o Poder Judiciário. Quem sabe, o tacape ou a tapeação; os tanques nas ruas ou os mensalões no Congresso; um militar sisudo com a espada em riste ou ou um populista com uma garrafa de cachaça na mão. Tudo vai depender das circunstâncias.

Ivan Bezerra de Sant Anna







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terça-feira, 31 de maio de 2011

A gente somos inútil


A gente somos inútil...

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A música do Ultraje a Rigor, que gozava das mazelas brasileiras, agora é coisa séria. Os vários erros de concordância que povoam a letra da música "Inútil" não são mais erros, segundo um livro adotado pelo MEC para ser usado pelos alunos da rede pública de ensino. A garotada pobre pode escolher se fala na linguagem culta ou na chula, pois ambas deverão ser consideradas corretas, de acordo com o livro intitulado "Por uma vida melhor". Um belo título!

Esse livro, que pretende revolucionar o ensino da língua portuguesa, foi escrito por muitas pessoas, dentre elas, possivelmente, muitos companheiros e ovacionadores do Luiz Inácio. Evidentemente, não deixa de ser um tributo ao Lula e ao seu repertório de palavras pitorescas, apelidado por alguns de "catinguês" (o dialeto da caatinga), e por outros, a linguagem revolucionária das mudanças. Falam que um certo professor universitário, que usa um chapéu de Tom Jobim, vive de canto-em-canto, trovejando palavras engasgadas, discordantes e quando lhe perguntam se vai a reunião do Partido, ele prontamente, diz: "Nóis vai, companheiro". E os companheiros, emocionados, dizem: "Que intelectual! Ele fala como o povo".

Tudo está pós-moderno em nosso País depois da "marcha para Brasília" dos camisas rosas petistas. As invenções revolucionárias são inúmeras e solenemente proclamadas como redentoras da dignidade do povo brasileiro. Bolsa "disso e daquilo", socialismo terceirizado, desmatamento amazônico ecológico e por fim, "Minha gente: a nova gramática popular". E o que mais causa espanto é a adesão de inúmeros intelectuais ao novo projeto de gramática dos petistas! Alguns dizem que se deve escrever como se fala, pois isso é o máximo de democracia. Outros, porém, são mais rebuscados quando afirmam que os chamados erros de concordâncias, em vez de se constituírem em erros banais são, quase sempre, conceitos filosóficos populares de cunho regionais. Ou seja: para esses intelectuais quando um companheiro do campo fala "nóis vai" está expressando um maior sentimento de solidariedade que a frase "nós vamos" não conseguiria.

Ė bem possível que podem existir erros rurais e urbanos, cada qual apresentando caracteres e abrangências significativas diferenciadas. Por exemplo, a frase "nois vai" é mais comum ser ouvida em zonas rurais onde predomina maiores laços de solidariedade - o plural "nois" em unidade "vai" -, enquanto "a gente vamos" é comumente ouvida em regiões urbanas, pois denota um maior grau de individualidade, com o "vamos" denotando um conjunto de pessoas e não uma unidade. Mas ambas estão erradas! São erros com significações diferenciados, mas erros. Por que soam mal ou são convencionados como erros? Bem, imaginem que alguns Prefeitos interioranos perdessem o medo e resolvessem em conjunto, através de um Prefeito líder, redigirem um documento para responderem às acusações de corrupção e no final do texto colocassem a seguinte frase: "Nois rouba, mas faz". Apesar da dissonância auditiva, possivelmente entenderíamos que aqueles prefeitos "roubam, mas fazem". No entanto, imaginem esse documento ser lido séculos após, ou servindo de peça acusatória para o Ministério Público, com as palavras chaves se digladiando entre si. Seria um banquete interpretativo, bem ao gosto dos pragmáticos. Uns diriam que devido às discordâncias das palavras haveria uma dúvida razoável quanto à autoria dos roubos; outros afirmariam que devido a predominância do singular das palavras "rouba" e "faz", a autoria declarativa dos roubos seria do Prefeito líder e escritor. E tudo isso porque o escrevente Prefeito resolveu colocar o plural e o singular numa rinha de galos!

Vamos ainda imaginar para descargo de consciência que o Prefeito escrivão fosse uma pessoa cultuadora da filosofia Yogue e não se contentasse com as estreitas significações das frases "nós roubamos" ou "a gente rouba" e quisesse uma frase que a pluralidade de prefeitos roubassem em unidade. Nesse caso, o encadeamento da palavra "nós"(pluralidade) com a palavra "rouba"(unidade) daria a significação semântica desejada. Mas para evitar dissonâncias semânticas posteriores deveria fazer como os germânicos fazem, criando uma palavra-conceito com a junção das palavras "nós" e "rouba" que resultaria na palavra "nósrouba", um tanto estranha, no momento, mas plenamente eficaz na sua extensa significação e sem ter que recorrer à gramática proposta por essa nau de gramáticos populistas e insensatos.


Que "vida melhor" essas propostas gramaticais trazem para a população pobre brasileira? A melhoria da inclusão social, como dizem os teóricos petistas quando se referem às bolsas "disso e daquilo", às quotas "unipobres" e o Prouni? Acho melhor analisar cada uma delas para que se possa entender melhor "A Nova Gramática Companheira".

A bolsa "disso e daquilo", instrumento que tinha como meta a inclusão econômica e social da "minha gente", não tem o poder de transformar uma pessoa afastada - à margem (ou marginal) - do sistema produtivo em um cidadão laborativo que produz valores econômicos. Transforma, isso sim, um desvalido num assistido custeado pelo Estado, um viciado em ócio. Essa advertência não é minha, mas de um conterrâneo sertanejo do Lula, que canta: "Ô doutor uma esmola/para um homem que é são/ou lhe mata de vergonha/ou vicia o cidadão".

As quotas "unipobres" produz um estudante de segunda classe, despreparado e humilhado por outros alunos de primeira classe. Sem falar que essas quotas causam uma gradual perda de qualidade no ensino público universitário. Já o Prouni não passa de uma gradual privatização do ensino público, operado de forma oblíqua, transferindo recursos financeiros para o setor privado da educação. Duas pérolas do populismo lulista.

Agora fica fácil entender os verdadeiros propósitos da "Nova Gramática Companheira". Ela, conjuntamente com os outros instrumentos acima citados, objetiva uma estratificação social virtual, no campo do simbólico, passando a falsa idéia para a população de um crescimento econômico, social e cultural. E o pobre coitado, embriagado por um individualismo do tipo "tudo posso", torna-se mais urbanizado, deixando de lado o "nois vai", para assumir o triunfalista "a gente vamos". Vive o carnaval 365 dias por ano, assumindo um personagem deslocado, trôpego, hilariante, um Tiririca entre muitos, sem ter a consciência que é um trágico-cômico personagem cada vez mais distanciado das elites que o manipulam e proprietárias da gramática culta e oficial. Essa é a diferença de "a gente podemos" para "nós podemos".

Quanto a você, Lula, vou lhe mandar uma mensagem com base nas novas regras da "Nova Gramática Companheira":

"Cumpaeiro, nois num deve afanar santo do palácio. Nois pode ir pô inferno. O santo se vinga e faz nois comer bosta com o Coisa Ruim. Diga a D. Mariza pra devolver as pinturas, as facas que ela surupiou da casa feia. Padim Ciço deve tá avexado com vosmiçe. Que é isso, Cumpaeiro!!!

IVAN BEZERRA DE SANT ANNA



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domingo, 22 de maio de 2011

O pastor dos idosos

O pastor dos idosos




As trombetas celestes ressoam grandiosamente em saudação ao novo Pastor dos pobres, velhos e desamparados. O sr. Laércio Oliveira, novo deputado federal, eleito pelo Estado de Sergipe, faz sua estréia em grande estilo, apresentando um projeto de lei que incentiva as empresas privadas contratarem pessoas que entraram na faixa da terceira idade. Anjos e querubins estão em festa e já avisaram ao ditoso deputado que a via expressa para o Paraíso se encontra totalmente liberada, sem parada no purgatório para um lanchinho obrigatório. Afinal, uma recompensa merecida para um seguidor de Calvino, para quem o lucro é elemento essencial à candidatura para o posto de santo sênior, cargo tão almejado em terras divinas. E de candidatura ele entende, ou melhor, seu "padrinho" entende, segundo as más línguas.

O nosso bom evangélico que também é empresário do setor de serviços de limpeza é um homem carismático e envolto em uma áurea azulada. Sua empresa cresce em linha exponencial, prestando serviços para o setor privado, e, principalmente, para o setor publico em todas suas áreas, sendo conhecida jocosamente como a "empresa que limpa os três poderes estatais". Uma verdadeira Empresa da Republica!

Pessoal, o homem é uma fera! Que talento! Ele devia escrever um livro de auto-ajuda do tipo, "Socialismo terceirizado, sim; neo-liberalismo, não". Seria um sucesso e uma grande contribuição à todas as pessoas desejosas de saber como o pastor deputado conseguiu convencer ao meu amigo Edvaldo Nogueira que a melhor maneira de ser socialista era a contratação de "meninas multiservice" para o atendimento público nos postos de saúde. A bela lógica do empresário se baseou em uma premissa implacável: ceder espaço da máquina pública para o setor privado é socialismo terceirizado; vender empresa pública é neo-liberalismo. Em resumo: para o empresário divino, o neo-liberalismo não é uma questão conceitual, mas uma investidura pessoal que se dá preferencialmente nas pessoas opositoras, adversárias dos petistas coloridos e seus aliados. Aliás, essa lógica teve origem nas palavras tortuosas de Lula quando acusava Fernando Henrique de neo-liberal e ao mesmo tempo distribuía e abastecia os empresários das escolas privadas com verbas públicas, através do Prouni. Isso não é obliquamente uma tática progressiva de privatização do ensino público, encoberta sob o manto do populismo? "Não!!! Isso é socialismo terceirizado, companheiros e companheiras", diz o coro desafinado de vozes dissonantes, ritmado pela zabumba vermelha do nosso Alcaide.

Em nossos postos de saúde do município existe uma apreensão assustadora que viaja nas cabeças dos funcionários, enfermeiras e médicos: "Será que em um futuro próximo, os médicos e enfermeiros serão contratados e fornecidos pela empresa do Evangélico Empresário?" Bom, o futuro ao PT(C do B) pertence e quem viver, verá. No entanto, outras pessoas mais irônicas afirmam que tudo depende do ressoar do couro: os dos quadros artísticos de Bosco Rolemberg ou o da zabumba apaixonada do Edvaldo Nogueira. Em nossa modesta opinião essas diversas lógicas se comungam em uma somente: a lógica da safadeza, da corrupção e do oportunismo populista.

Vocês votariam em nosso Evangélico Empresário para o cargo de Santo do paraíso? Eu soube que ele se contentaria com algo mais modesto, como, por exemplo, ser o sucessor do amigo Edvaldo Nogueira no trono municipal. Segundo alguns analistas sociais isso seria uma vantagem, pois as as quatros primeiras letras do nome do atual Prefeito seriam mantidas, mudando apenas o sobrenome, e, o que seria mais importante, acabaria de uma vez por todas essa horrível duplicidade entre o público e o privado, aparecendo um novo emblema e um novo nome para o ente político: Multiservice Municipal de Aracaju.

Se o evangélico empresário não conseguir, não vai se dizer que foi por falta de empenho. Padrinho poderoso ele tem. E segundo alguns entendidos da política local, esse fato de ser "afilhado" foi fator importante para a conquista do atual cargo de deputado federal. Dizem que até o sr. Jackson Barreto já se rendeu ao fascínio do seu "Padrinho", beijando-lhe a mão em uma cerimonia de iniciação. Acho que o Governador Marcelo Deda deveria ter algumas aulas com o "Padrinho" de como administrar o poder político, evitando, dessa maneira, que certas lideranças decadentes interfiram, como é o caso do Senador Valadares, mas sem a ocupação do cargo de eminência parda. Confesso que fico imensamente chateado quando ouço algumas vozes dizendo que o verdadeiro governador atual é o "Padrinho", afinal, ele nunca foi eleito para nada. Se isso serve de consolo, o Lula era o Presidente, mas quem mandava era Sarney, Meirelles e outros. A voz engasgada e trôpega parecia ser dele, mas os ventríloquos eram outros. No entanto, Lula é um obtuso, apreciador constante de uma cachaça em horários impróprios e um analfabeto declarado. O nosso Governador é um homem culto, bem falante e vaidoso o bastante para não querer sombra do nosso Mazarin de Sergipe. Mas, repetia constantemente o Cardeal francês "que os vaidosos cabiam em suas mãos", o meu ex-colega de movimento estudantil deve-se se cuidar para não descobrir depois que suas mãos tinham fios invisíveis ligados a uma outra mão, bem no alto dos bastidores.

Vocês podem estar se perguntando porque estou fazendo uma critica ácida contra um político que está apresentando um projeto de lei de alto alcance social. Confesso que a intenção explicita do deputado evangélico é das mais nobres, pois ajudar a empregar pessoas que se encontram na terceira idade, dando-lhes uma renda é um ato digno de aplausos. Deputado, por que agora? O senhor sempre foi um homem público e nunca demostrou essa preocupação com as pessoas idosas. Por que nunca fez isso em sua empresa? Os milagres, as caridades começam em casa, Deputado. Ou o senhor estava esperando ser subsidiado pelo Estado para ser caridoso? O senhor está realmente preocupado com os idosos ou com os subsídios fiscais que o seu projeto de lei cria? O seu projeto de lei é, no mínimo, peculiar. O governo paga indiretamente os salários dos idosos através de subsídios fiscais, financiando as folhas de pagamento dos empregados idosos. Isso não beneficia a ninguém, a não ser os empresários "mamadores das tetas públicas", como sempre foi sua pratica, por exemplo. Sabe como vai terminar essa historia, Deputado? A maioria das empresas vão encher seus quadro funcionais de "idosos" para que o Estado pague as folhas; os jovens que estão entrando no mercado de trabalho ficam desempregados, e, consequentemente, vão engordar as listas de marginais econômicos e de delinqüentes. O senhor não está protegendo os idosos, Deputado. O senhor está querendo aumentar os seus lucros e dos seus colegas, usando as pessoas idosas como "iscas" populistas. Se suas intenções fossem puras e dignas poderia propor uma aposentadoria para os idosos sem renda, ou uma suplementarão de aposentadoria para os de baixa renda, pagas diretamente pelo Estado.

O senhor não vai para o Paraíso com um projeto de lei indigno e hipócrita. A não ser o paraíso de Calvino onde o ingresso é comprado por altas somas. Que tal se colocar no lugar de um idoso, empregado em decorrência da sua tão almejada lei? O senhor estaria trabalhando para um empresário que não paga os seus salários e ao chegar em casa constataria, com muita tristeza, que seus filhos e netos estão desempregados em decorrência de você estar "empregado". Como iria se sentir, Deputado?


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