Pesquisar este blog

terça-feira, 9 de junho de 2015

Os quebra-santos

Os quebra-santos
 



Na minha meninice, quando se queria chamar uma pessoa de louca ou amoral, dizia-se que ela era um quebra-santo. Salvo engano, tinha um louco que perambulava na cidade que tinha essa alcunha. Coisas do passado, de uma cidade provinciana, embebida pela religiosidade predominantemente católica. Os tempos mudaram, mas o que era apenas uma referência nominal, transformou-se em atos concretos de cunho propagandístico, com os evangélicos quebrando estátuas de santo na frente das câmaras e nas passeatas gay, um festival de quebra-quebra de variadas estátuas santificadas, o que provocou um comentário curioso do amigo Zé do Mercado: "Amigo, o Coliseu voltou".

Esses comportamentos são, no mínimo, curiosos e instigantes. Quanto ao comportamento de algumas seitas evangélicas, a crença alienada, associada com interesses inconfessáveis, talvez explique esses comportamentos intolerantes e desrespeitosos para com os católicos brasileiros, transformando-os em mártires das feras da intolerância, no Coliseu da mídia. Enquanto patrocinam esse macabro festival, os "Bispos" universais e mundiais regalam-se no luxo, financiados por atos de estelionato social, fabricando "milagres" e outros enganos que visam subtrair o pouco dinheiro que resta de uma população de miseráveis.

No entanto, um grupo que sempre foi discriminado pela intolerância homofóbica não poderia patrocinar atos provocativos de intolerância, pois estariam reproduzindo os arquétipos intolerantes e retroalimentado as forças repressores de um passado, do qual foram uma das vítimas preferenciais. Uma contradição absurda! Os rapazes e moças "alegres", embebidos por uma ânsia compulsiva à provocação inconsequente, não conseguiram refletir sobre o exemplo da tolerância do Nazareno e atiraram-lhes pedras ou melhor: criaram uma pantomima de uma crucificação e em vez da lança romana que lhe perfurou o coração, beijos lascivos da intolerância.

Não sou religioso, porém sou um grande admirador de um homem que foi o maior profeta do amor solidário, da cumplicidade igual, da divindade dos atos humanos dignificados pelo fazer. Esse espetáculo lastimável entristeceu-me muito, pois se muitos os negaram ao longo do tempo, inclusive a Igreja Católica com as suas matanças de infiéis, não esperava isso de um grupo que sempre lutou pela tolerância e pela possibilidade de amar sem preconceitos. Foi um desses momentos que ficamos em dúvida pelo destino da humanidade.

Entretanto, deixando de lado os interesses políticos e econômicos do grupos que patrocinam tais atos, os ataques às diversas imagens de Maria, (as estátuas preferenciais dos evangélicos e homossexuais) podem oferecer um curioso perfil psicológico. Esse ódio a Maria, por parte dos evangélicos machistas, talvez explique-se pela pressão da persona feminina, que sempre lhe foi negado o direito à palavra no centro de facilitação do ego, em ocupar um local privilegiado de domínio. Em outras palavras, aqueles desejos secretos homossexuais que atormentam os pobres machistas e que os fazem resistir com violência desmedida. Não é sem propósito que são tão violentos e agressivos com homens que ostentam comportamentos femininos, pois ao contrário da imagem que querem passar, no fundo, eles temem a mulher, sentem a sua superioridade, ficam eternamente apavorados com a compulsão inconsciente dela. Para compensar essa tortura invasora, dizem que seus órgãos sexuais são cacetes, canhões, armas que tentam matar a mulher simbólica. Por isso eles cerram os dentes, gritam, ameaçam  e mesmo que a agridam até a morte, ela não morre, pois sua alma se instala no seu assassino. O que pode parecer como um ato de força e poder, na realidade não passa de um grito de pavor à invasão da mulher reprimida, pois o machismo é a negação do macho e a afirmação inconsciente da mulher.   Se a voz do povo é a voz de Deus, a sabedoria popular constata que esses temíveis machistas "para rebolar basta um um sopro".

Entretanto, se a mulher já está confortavelmente instalada no centro de facilitação do Ego do homossexual, exercendo um completo domínio autoritário, como se explica esse comportamento agressivo para com as mulheres, simbolizada nessa Passeata com a destruição raivosa da imagem de Maria? É simplório dizer que a mulher é a maior inimiga da mulher, portanto, deve haver uma explicação filosoficamente mais apropriada.

Arrisco uma hipótese que não tem a pretensão à verdade, mas que pode ser um bom material para a reflexão. Quando não temos certeza do que verdadeiramente somos, tememos estar confrontados com a imagem real daquilo que pensamos ser. Por mais que a persona feminina esteja exercendo forte domínio, ela é apenas uma, entre muitas que existem no imaginário, sendo importante para a vivência das fantasias, para indicar a multiplicidade do mundo, mas nunca para exercer um domínio monopolístico do Ego. Aliás, nenhuma persona deve exercê-lo, pois esse local é sempre vazio, de tráfego para todas as personas. Assim, é possível entender a angústia inconsciente que causa a  uma pessoa dominada pela persona feminina, quando confrontado com uma verdadeira mulher. Se fosse a vivência de uma fantasia, vir-se-ia espelhado na imagem da mulher, gerando uma imensa satisfação nessa miragem, elevando a mulher como centro de admiração e respeito. Entretanto, se essa vivência for incrustada no Real, esse confronto gera ódios e em casos mais graves, uma profunda psicose.

 Apesar de não ser afeito à psicanálise, reconheço a importância de citar  aquele que foi considerado o mais brilhante e controvertido pensador dessa vertente psicológica. Lacan referia-se ao Real como um não-todo, local de inúmeras multiplicidades de verdades não-verdadeiras do plano simbólico, local onde reside os imensos mistérios femininos, fora do alcance do simbólico, mas que pode ser sonhado pelo imaginário. Portanto, rapazes "alegres", deixem de pretensões e contentem-se com as fantasias do imaginário, exercendo suas escolhas frente a outras personas, fincando os pés no "querer ser", pois o "pensar que já é", é adentrar no pantanoso campo do Real, com consequências imprevistas e violentas. Não adianta quebrarem a imagem de Maria, pois nunca serão mulheres!

Ivan Bezerra de Sant Anna 





Publicado no site http://www.facebook.com/ibezerra52; http://ibezerra.xpg.com.br e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/