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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Que presente!

Que presente!



A vitória da Seleção francesa sobre a Croácia é um belo presente para comemorar o aniversário da queda da Bastilha, um sinistro símbolo de opressão do autoritarismo.

Existe quem afirme que acusar a Croácia de neo-nazista é Fake - está muito em moda essa palavra -, e depois de descrever o caminho que leva a esse país, desata em elogios à cultura democrática milenar croata.

Será que é Fake? 

O Jornal Estado de São Paulo publicou  que as “músicas racistas e saudações fascistas passaram a fazer parte da rotina em estádios e, pior, incentivada por jogadores. Ainda hoje cantam a canção de ode ao nacionalismo, como Bojna Cavoglave (da banda de hard rock, Thompson), diz Gabriel Santos do site Esquerda Online”. Para quem não sabe, essa musiquinha que os jogadores cantam, dentre ele, o Lovren e o Vrsaljko, é considerada pró-fascista, porque "Bojna Cavoglave" começa com a saudação "Za dom, spremni!" ("Pela pátria, prontos!"), em uma tradução livre. Esse grito era usado pela Ustache, o grupo nacionalista que tomou o poder na Croácia durante a Segunda Guerra Mundial após a invasão da Alemanha nazista na Iugoslávia.

Apoiada por Adolf Hitler, a Ustache liderou repressão severa aos sérvios ortodoxos — os croatas são, na maioria, católicos — entre os anos 1930 e 1940. Além disso, o grupo manteve o campo de concentração de Jasenovac, onde cerca de 100 mil pessoas. A Croácia foi um Estado fantoche criado pelos nazistas após invadirem a Iugoslávia. O Ustase esteve à frente da Croácia até 1945 e, nesse período, espalhou o terror pelo país matando indiscriminadamente sérvios, judeus e ciganos.

Coisas do passado? 

Segundo a Revista Fórum, “No Ano passado o governo croata retirou estátuas do líder comunista iugoslavo Tito de diversas cidades, mudando nomes de ruas e praças que o homenageavam. O governo permitiu também que os veteranos da unidade paramilitar, HOS, que combateu na guerra de independência, colocassem, em homenagem aos soldados mortos, uma placa com um lema fascista a algumas centenas de metros de um antigo campo de concentração, onde foram assassinados sérvios e judeus na Segunda Guerra”.

Em 2015, a UEFA sancionou a própria Federação Croata de Futebol com um jogo de portas fechadas e 50 mil euros de multa por insultos racistas dos seus adeptos. O site Brasil-247 noticiou que “a vitória da Croácia sobre a Inglaterra em uma das semifinais da Copa da Rússia, nesta quarta-feira (11), foi manchada pelas seguidas manifestações xenófobas e de caráter neonazista dos jogadores e membros da comissão técnica da seleção. O jornalista brasileiro Juca Kfouri republicou em seu blog artigo do espanhol La República sobre o assunto com o título  ‘Croatas seguem enaltecendo o nazismo na Rússia’".

Para certas pessoas pode ser agradável - um colírio para os olhos - ver as belas mulheres branquinhas de olhos claros na torcida, e verificar a inexistência de jogadores “de cor” na Seleção Croata. Entretanto, afirmar a existência de uma fabulosa Democracia liberal na Croácia é um tanto demais, a não ser que se entenda por Democracia o supremo direito de xingar, espancar negros, mulheres e homossexuais.

Parece que a saudação nazista de Luka Modrić feita algum tempo atrás (https://youtu.be/ntFD30IDZVs), também processado por corrupção e falso testemunho, não surtiu efeito, mesmo tendo sido ele escolhido injustamente como o melhor jogador do mundial. Seu time tomou uma sapecada de 4X2 com requinte de crueldade: os negros Kylian Mbappé, N'Golo Kanté e Paul Pogba jantaram a “supremacia branca” croata sem piedade.

Ivan Bezerra de Sant’ Anna

Publicado no site http://www.facebook.com/ibezerra52; http://ibezerra.xpg.com.br e no Blog http://terradonunca-ibezerra.blogspot.com/

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Eles sabiam....

Eles sabiam...



Eles sabiam que o Des. Favreto era petista, devia grandes favores ao Dirceu, um militante sem brilho, um homem-bomba para um explosão estrelar.

Eles sabiam que a decisão do crente da Meca lulista era manifestadamente nula, irresponsável, ausente de competência funcional, uma afronta aos valores da hierarquia estrutural do Judiciário, pois uma decisão monocrática não pode subjugar uma decisão de um colegiado.

Eles sabiam da existência do velho arquétipo do “você sabe com quem está falando?”, elitista, autoritário, individualista, que permeia as mentes da maioria dos juízes, demonstrado por inúmeras decisões judiciais que constroem “legislações” que afrontam a Constituição e o sistema normativo, exemplificado nas declarações canhestras dos senhores Marco Aurélio e Gilmar Mendes de que tudo podem e são supremos. Assim, mesmo cheio das boas intenções, mas ainda impregnado pela vaidade do juiz-rei, o Sr. Moro morderia a isca.

Eles sabiam que Lula jamais seria solto - pelo menos, nesse momento eleitoral -, pois para o conglomerado de empresas e políticos de diversos partidos que saquearam a nação, o ex-presidente é carta fora do baralho, já deu o que tinha para dar.

Eles sabiam que não existe luta ideológica alguma, que as bandeiras são simulações enganosas, que não há esquerda ou direita, que aqui não existe a Democracia como valor universal centrada no cidadão e intermediada por Partidos fortes, mas, concretamente, uma representação corporativa-protofascista baseada em   bancadas evangélicas, ruralista e outras tantas. Uma constituição que desiguala eleitores por regiões, permite a censura da justiça eleitoral, cria ilhas de privilégios com foros privilegiados, não é uma Carta Magna de uma República, mas uma herança das Ordenações portuguesas imperiais, e isso eles sabiam.

Eles sabiam que o Lula, o Zé Dirceu, nunca foram os senhores, mas, no máximo, plantonistas das trevas. Os verdadeiros senhores fazem parte de um grupo muito seleto, denominado de Irmandade, um conglomerado de grandes empresas de variadas atividades, mas unidas com uma finalidade maior: dominar o Estado e usar o dinheiro público para o benefício do agrupamento criminoso.

Eles sabiam que a guerra que se desenvolve nas instituições judiciais não é ideológica, mas uma briga de quadrilha, e que o ex-presidente não é comunista nem preso político, mas um arguto e matreiro criminoso. No entanto, nada melhor do que acusá-lo de comunista, pois com uma cajadada só, ressurgem o velho anticomunismo e desmoralizam as autenticas bandeiras libertárias da esquerda.

Eles sabiam. Os “aiatolás” sempre souberam! E qual foi o verdadeiro objetivo a ser alcançado pelo teatrinho do “solta Lula”? Reflitam, leitores, pois os caminhos dos Senhores e adoradores do Bezerro de Ouro são encobertados pelo manto do mistério, desígnios que a vã consciência não alcança.

Ivan Bezerra de Sant’ Anna




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domingo, 8 de julho de 2018

Lições da Copa

Lições da Copa



O Brasil foi derrotado pela Bélgica, e uma parte da esquerda - a famosa esquerdinha inconsequente, a mesma que mergulhou no caudaloso rio da corrupção - comemora entusiasticamente a desclassificação da “pátria com chuteiras”, entendendo que o futebol é o ópio do povo. Nada mais patético! Mas para esses agrupamentos que se dizem de esquerda, existe o bom e o mal ópio futebolístico. Na Copa de 2014, por exemplo, o futebol era um bom ópio, um momento de grandeza nacional, como suas obras superfaturadas e um “7X1”, ainda não bem explicado. Na minha modesta opinião, apesar do mal uso que a política faz do futebol, vejo nessa modalidade desportiva um implemento de integridade nacional, possibilitando a emergência da convicção de que se somos bons no futebol, deveremos ser verdadeiramente republicanos e campeões nas políticas públicas.

Não culpem o Tite. Ele foi um bom comandante, um técnico psicólogo que deu autoconfiança aos jogadores, tentando passar para os jogadores um sentimento de companheirismo e cumplicidade, embora encontrando grandes obstáculos, devido ao estrelismo e individualismo de alguns jogadores, comportamentos reforçados por uma parte da mídia irresponsável, algumas vezes motivadas por ajudas financeiras de patrocinadores de alguns jogadores estrelares, e para ser mais preciso, do “menino” Neymar. O menino que não é tão menino - a não ser que essa palavra refira-se à imaturidade e não a sua idade - Neymar jogou abaixo das expectativas, e por mais que outros jogadores jogassem muito bem, como foi a caso do Coutinho, a mídia televisiva só observava o “menino prodígio” e as suas roladinhas teatrais no gramado. Quem sabe se a mídia o esquecesse um pouquinho, o “menino” não jogasse mais?

O nosso técnico que sempre seguiu a escola italiana de futebol do Sr.  Carlo Michelangelo Ancelotti que sempre primou pela cautela defensiva e os ensaios de jogadas. Mas no Brasil, ninguém é o que diz ser, e as concessões do Sr. Tite e o seu coração apaixonado, o levaram   a uma receita de uma pizza à brasileira de sabores agridoces: pizza à Guardiola e Ancelotti. Evidentemente, ser um seguidor do Sr. Ancelotti com toques à Guardiola pode ser extremamente eficaz, no entanto, mesmo com esse requinte, nenhum treinador por mais audaz que seja, ao perder seu cão de guarda Casemiro, enfrentando um excepcional setor ofensivo como o da Bélgica, jamais iria jogar com o medíocre lateral Fagner e com um meio campo formado por Paulinho, Fernandinho e Coutinho. Sem Casemiro, era o momento de ser mais Ancelotti, colocando Fred ao lado de Coutinho e Fernandinho, tornando o setor de meio campo mais consistente defensivamente. Se estivesse seguindo o Mestre, não usaria um falso camisa nove, principalmente para ser essa função  desempenhada por um garoto com menos de vinte anos, ainda sem o talento necessário para o desempenho ousado de um um primeiro atacante flutuante . Mesmo o Brasil sendo carente de  atacantes de referência, Firmino possuía  melhores características para o desempenho dessa função. Eleger Gabriel como um dos culpados pela derrota não homenageia a honestidade, assim como culpar Fernandinho por um lance infeliz e pelo seu posterior desempenho, é não enxergar os erros de comando nas opções pretéritas, consequentemente, o quanto é necessário mudar, tanto na concepção individualista dos nossos jogadores, quanto no trabalho estrutural e organizativo da Seleção brasileira.

Querem culpados? Por que não começar por uma mídia televisiva, recheada de analistas de “meia tigela”, alguns fazendo a famosa jabá em troca de alguns dólares, e outros tantos distribuindo conselhos que reproduzem a cultura macunaímica do individualismo possessivo, a ressuscitada “lei de Gerson”? Um certo analista da FOX, ao examinar o lance que deu origem ao segundo gol belga, declarou que o jogador brasileiro foi um incompetente por não derrubar Romelu Lukaku, o que ele denominou de falta tática. Parece um Fake absurdo, mas não é! Esse “analista” aconselha que os jogadores cometam uma atitude antidespotiva, um comportamento que viola as regras futebolistas para levar vantagem, com a desculpa que outros jogadores fazem. Com o uso dessa teoria do ilícito justificado, o nosso ilustre jornalista, por conseguinte, deve também defender a compra de votos justificada ou o roubo tático do erário público por parte da maioria dos políticos brasileiros. Afinal, ao que parece a esse jornalista - muitos outros concordam com ele - só deve existir ilícito ou crime se não for justificado, e como tudo pode ser justificado sob o ângulo dos nossos interesses, então, como afirmava Paulo de Tarso, a lei existe para ser transgredida.

Mesmo com erros e acertos, a Seleção brasileira poderia ser campeã mundial com todos os méritos. A Bélgica não foi mais organizada ou mais talentosa que a nossa Seleção. Infelizmente, um jogo infeliz pode determinar a sorte de uma grande Seleção, como se passou com a Seleção espanhola e tantas outras. Um campeonato que pode ser resolvido em um jogo não avalia quem é o melhor, mas apenas é um torneio festivo que, no máximo, avalia a organização tática e a estabilidade emocional dos jogadores em um confronto de “mata-mata”, que se desenvolve sob forte tensão emocional. Em 1950, perdemos para a fraca e aguerrida Seleção uruguaia. Em 1954, a melhor seleção do mundial, a poderosa Hungria,  perdeu para a fraca e organizada Alemanha. Em 1974, a maravilhosa Seleção que encantou o mundo, a Holanda, perde o mundial para a disciplinada Alemanha. Em 1982, a Seleção brasileira encantava ao mundo com seu talento, mas, em um jogo infeliz, foi eliminada pela seleção italiana.  Em 1998, a Seleção brasileira era considerada a melhor equipe do Mundial, mas perdeu a final para a França, em um jogo onde a “infelicidade” não foi devidamente esclarecida. No entanto, uma indagação deve ser feita: quais as seleções que a história dignificou e os torcedores se lembram? Do Uruguai, Alemanha, Itália e França ou das monumentais seleções brasileiras, húngara  e holandesa? Como não sou um colecionador de bugingangas, prefiro a gloriosa lembrança da história do que um mísero caneco sem honra e merecimento. 

Que Tite continue com o seu trabalho, mesmo pressionado pela corrupção e de tantos interesses escusos, pois, afinal, o Brasil nunca foi uma república séria. No entanto, espero que o Tite ensine aos seus jogadores que, apesar das suas diferenças, a Seleção deve ser um espaço de diálogos, um templo onde se dá as mãos para o alcance de objetivos não são somente do grupo, mas de toda a nação brasileira. Quando uma seleção é um espaço simbólico de cidadania republicana, um território onde os egos são diluídos pelo companheirismo cúmplice, pode até não conquistar o Caneco, mas, com certeza, será sempre lembrada pela arte coletiva dos seus talentos, exemplificado pela Seleção brasileira de 1982, ou pela força coletiva dos guerreiros vikings da Seleção da Islândia. Assim, mesmo que ainda seja uma pequena ilha rodeada pelas confusas dissonância sociais, torna-se um importante momento de sinalização pedagógica para a nação.

Ivan Bezerra de Sant’ Anna


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sábado, 16 de junho de 2018

Minha namorada



Os anos passam e repassam as nossa vidas, levando muitas coisas e trazendo outras tantas. Muitas vezes só observamos as que foram, mergulhados  em um saudosismo de uma época,  de egos de ilimitados brilhos, dos Aquiles sem calcanhares feridos, que nem o céu era limite do limite. E por incrível que pareça, a seta dos anos que alvejaram o meu calcanhar, uma dor lá e outra cá, me dizem: agora você é mais livre, agora pode voar nas asas do sonho,  flanando, flutuando, vendo a beleza passante, chutando os baldes da hipocrisia, mostrando aos jovens a sua juventude destemida, encardida pelas lágrimas negras dos sonhos ufanistas que foram desfeitos pelo vendaval da vida vivida. No meu corpo, as marcas do tempo, limita o andar orgulhoso de um semideus, mas a humildade que me faz olhar as estrelas, desamara o meu baú dos sonhos e liberta as palavras sufocadas por amarras que pensava por ingenuidade não ter.

Sabem de uma coisa, amigos? Mesmo sabendo que o dia dos namorados é uma invenção comercial, uma boa dose de ritualização e simbolismo não faz mal a ninguém. Precisamos de rituais, e acho o ser humano é um bicho ritualizado por essência. Entretanto, como a minha coleção de anos não é nada atrativa para as ninfas e sereias do pedaço, e também para purgar uma compulsão irresistível por mulheres mais novas, resolvi namorar uma anciã de idade indefinida, mas de um fascínio exuberante. Por favor, não se apressem no pensar que estou apaixonado pela morte, pois apesar do seu insistente flerte e dos mistérios fascinantes que me oferece, desde que pisquei os olhos para o mundo lhe disse, reiteradas vezes, que sou ainda muito irresponsável para  assumir um matrimônio de tamanha grandeza.

A minha namorada é Brasileira, uma morena com mais de 500 anos registrados, e uma infinidade de séculos sem alguma notação. Já lhe deram o nome de Santa Cruz, Brasil, mas como a vejo como uma linda mulher, chamo-a de Brasileira, um nome que faz jus à sua sensualidade agridoce. Não lhe chamo de mãe-pátria, pois não sou e nunca serei seu filho, contentando-me deliciosamente em ser seu namorado, flanando com meu olhar às suas curvas lindamente sinuosas, sem algum sentimento de propriedade ou posse, mesmo que precária. Que corpo lindo você tem, Brasileira! Que pés formosos que pousam suavemente no Atlântico, recebendo as águas dos seus caudalosos rios que brotam do verdor das suas coxas, do seu umbigo, dos seus seios atrevidos, e das suas volumosas nádegas,  enxertadas pela contribuição dos seus filhos da África, compulsoriamente anexados pela nefasta escravidão.

Não é por ciúmes, pois sabe que não alimento esse sentimento de insegurança, uma vez que considero a liberdade da mulher para o prazer, na exata proporção do seu grande amor, mas desconfie daqueles que lhe chamam de mãezinha amada, pátria adorada, porque essas palavras escondem as relações incestuosas que eles sempre tiveram com você. Está esquecida da triste referência da sua cidade-umbigo, a cidade de Salvador, que fez Gregório de Matos declarar que “de dois efes se compõe está cidade, a meu ver: um furtar, outro foder”? Me desculpe por lhe falar isso, mas seus “filhinhos” que foram acolhidos por você só queriam seu dote e lhe foder. E para realizarem essa proeza, ao longo do tempo, criaram representações políticas sem representados, leis e juízes sem justiça, e por fim, como papagaios imitadores das vozes do além mar, criaram uma República sem republicanos.

E com o passar dos séculos, minha querida, a coisa só piorou. O tacape e a tapeação se alternam nesse teatro de falsidades, encenado por seus “filhinhos” edipianos, narcisistas egocêntricos, que a única medida de sociabilidade conhecida é reflexo distorcido dos seus rostos espelhados. Para isso, eles criaram Constituições cidadãs sem assembleias constituintes, verdadeiras cochas de retalhos que albergam interesses escusos, e um Judiciário de juízes que não obedecem à lei, ou pior, nem a eles mesmos, que escudam interesses de possessividade corrupta e partidária. E seus outros filhos, amada, aqueles que são verdadeiramente seus filhos, vivem morrendo nas filas dos hospitais, comendo os restos que sobram dos faustos banquetes dos seus incestuosos “filhinhos”.

Ah, namorada minha, não me peça para participar de um sistema eleitoral vigiado por censores judiciais, com Partidos que nada representam, um jogo de cartas marcadas que trocamos seis por meia dúzia, onde a compra de votos e um processo eletrônico já antecipam o resultado. O meu lugar é nas suas ruas, espaço  dos seus poetas apaixonados com seus versos pungentes de dores e esperanças, homenageiam sua essência de mulher, mãe, e a deusa Afrodite da humanidade. Sei que as suas ruas acolhem as dissonâncias das ideias divergentes, as lutas ferozes pela sobrevivência dos interesses, mas o que fazer se um ministro judicial diz que nada obedece, a não ser a sua consciência? Nesse caso, minha querida, só nos resta vivenciarmos a face genética, indomável, indefinida, da sua filha maior, a Democracia das ruas. 

Quem sabe, meu amor, em um certo dia, seus “filhinhos” incestuosos e corruptos sejam apenas uma triste lembrança, e que suas ruas sejam povoadas por pessoas, todas com inúmeras diferenças, mas, ao mesmo tempo, buscando acordos que harmonizem as necessárias dissonâncias, construindo, dessa maneira, um espaço de convivência pública, digna de uma verdadeira República.

Ivan Bezerra de Sant’ Anna


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segunda-feira, 23 de maio de 2016

A Segunda Pátria

A Segunda Pátria 

Caiu em minhas mãos, o livro do Sr. Miguel Sanches Neto, A Segunda Pátria, um texto despretensioso quanto ao estilo, às construções criativas das frases e parágrafos, entretanto, de uma pretenciosidade ímpar em relação ao seu conteúdo ficcional que envolve, arrebata e produz dissensões provocativas.

Evidentemente, não se trata de uma obra de refinamentos linguísticos, baseada em uma escola do mestre Machado de Assis, ou de rebuscadas construções metafóricas na esteira de um Vladimir Nabokov, por exemplo. É uma obra singela, construída em capítulos curtos, parágrafos pequenos e períodos reduzidos, quase telegráficos. O autor  tenta ser impactante e criativo no metralhar dos períodos reduzidos, mas falta-lhe a o toque genial das alternâncias sincopadas e das variações dialogais entre diversificadas frases, algumas curtas e de impacto emocional, outras, porém, longas e com muita densidade poética. Esse preceito, no entanto, o autor não aplica em seu livro, ao contrário, foi econômico e parece ter usado uma fita métrica para a construção dos parágrafos, períodos e frases.

É uma ficção inquietante e desaconselhada àqueles que cultuam a imagem do Sr. Getulio Vargas. O autor, em sua ficção estonteante,  não é nem um pouquinho benevolente com o Ditador do Estado Novo, pintando-o com as cores dramáticas do nazismo, um político subalterno e obediente ao Estado do Social Nacionalismo alemão. É insofismável que o anão dos pampas era um positivista autoritário, eterno namorado do Estado corporativista fascista, do aparelhamento dos sindicatos pelo Estado e gostava de saber que o Sr. Filinto Muller pendurava os comunista em "paus de arara", isso quando não lhes davam uma passagem de ida sem volta para a "cidade dos pés juntos".  

Entretanto, o seu tamanho físico era desproporcional com sua imensa ambição pelo Poder, impulsionado por um ego inflado por paranóias e manias de tintura psicótica. Assim sendo, o minúsculo Aquiles das plagas rio-grandense jamais seria um subalterno de um Hitler ou de qualquer outro, assemelhando-se com mais realismo ao Generalíssimo Franco ou a Salazar, diferenciando-se, porém, por seu populismo de manhosidade arteira, um pragmatismo astucioso que gerava desconfianças e tensões constante com os militares e aliados. Se o Sr. Vargas não era um nazista sintomático como tenta insinuar o autor, também não era nenhum Pai dos trabalhadores como querem os falsos esquerdistas de agora, pois o seu maior presente aos trabalhadores foi a CLT, uma cópia da Carta di Lavoro do  Estado fascista italiano.

O texto ficcional denuncia - apesar de ser um relato historicamente impossível - a omissão do Sr. Getulio Vargas quanto a tentativa pré-guerra de germanização do Sul do País por grupos ligados ao Nazismo alemão. Os historiadores brasileiros, na sua grande maioria, devem aos brasileiros maiores esclarecimentos sobre essa época dramática, onde os grupos paramilitares nazistas praticavam abertamente o racismo, insultavam e cuspiam negros, chegando a situações extremas com o confinamento e a morte. 

Pode-se afirmar que o livro do Sr. Miguel Sanches é uma denúncia contra o racismo e um alerta para que as pessoas estejam atentas para que todas as sementes de processos de desumanização sejam esterilizadas antes das suas germinações. Uma brincadeira preconceituosa pode ser apenas um pequeno sarro, um inocente divertimento, mas quando inseridas em contextos de grandes crises sociais e econômicas, podem ser fermentos ou referências ideológicas para o desencadeamento das trágicas ideias de intolerância e desumanização das diferenças. As épocas críticas precisam de bodes expiatórios, e desta forma, caça-se bruxas, mata-se negros e comunistas, elevando-se todas as diferenças culturais e sociais no altar da demonização.

Não sei se inspirou o autor, mas essa história de um homem negro germanófilo, lembra a trajetória de Tobias Barreto que foi um grande admirador da cultura germânica, chegando a criar um jornal totalmente escrito em alemão, predicados que não impressionaram Eugênia Câmara, dando preferência aos versos pungentes de Castro Alves aos poemas melosos do Sr. Tobias, metrificados, organizados, tal como as homogêneas e ordenadas florestas germânicas.   Há quem afirme que o mulato sergipano era um tímido  e nutria um enorme complexo de inferioridade, apegando-se de forma maníaca à cultura alemã, uma negação inconsciente à sua origem negra, uma tentativa de reconhecimento social em época de grande preconceito racial. Tobias poderia ser um Trajano - personagem chave do romance - se vivesse  na época da efervescência fascista, e possivelmente levaria cusparadas dos nazistas, mesmo sendo um negro culto e idólatra da cultura germânica. 

Cuspir, segundo o autor, era matar simbolicamente o inimigo que mesmo já estando morto, ainda sobrevivia em sua dignidade simbólica. Os alemães cuspiam nos cadáveres para retirar-lhes a dignidade, transformado-os em lixo, numa escória.  Quando Julius Meister, o Cuspidor, lançava sua insidiosa saliva nos negros, matava as suas existências simbólicas, transformando-os em zumbis, mortos-vivos que andavam errantes pelo mundo,  à procura de um sentido inexistente, à espera da morte física libertadora.

O autor alerta aos cuspidores: uma cusparada pode ferir mais que um punhal, pois essa seiva venenosa fere mortalmente a alma, e por ser um ato de desprezo pela diversificada existência humana, ele não mata somente a vida simbólica de uma pessoa, mas escarra veneno no rosto da humanidade.   


   Ivan Bezerra de Sant Anna 


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Indignação Suprema

Indignação Suprema

Não me canso de alertar sobre os perigos para a Democracia que esse simulacro de corte constitucional, o STF, propicia através de seus julgados políticos, pragmáticos e com suspeição de parcialidade. Isso não é uma corte constitucional, mas um balcão de negócios e, quase sempre, de transações suspeitas cobertas pelo manto da indignidade inconfessa.

Posso afirmar que o Poder Judiciário é o maior inimigo da Democracia e da moralidade pública, com exceção de uns poucos juízes que trafegam entre erros e acertos, como é o caso do Sr. Sérgio Moro. Não se alveja o Estado Democrático de Direito apenas  com atos comissivos, mas com os omissivos. Não cumprir a lei contra as elites poderosas - uma prática muito comum em nossa triste história - com práticas diversificadas e de manhas matreiras, é um lugar comum onde vicejam os atos de procrastinações malandras, "engavetamentos" e arquivamentos manhosos. O mais grave é que não se pode dizer que os nossos juízes não motivam os seus atos  violadores, pois eles sempre buscam um princípio "disso e daquilo", um preceito abstrato onde tudo cabe, um jogo de palavras vazias a serem preenchidas por conteúdos ideológicos, e, muitas vezes, para o atendimento de demandas encobertas pelas sombras da indignidade, uma escuridão onde pode voar a coruja de Minerva, mas também os morcegos vampiros. Por esse motivo, a Democracia viceja com a luz solar, e o Direito germina e cresce com a luz translúcida das manhãs.

 O Direito e a Democracia precisam das manhãs ensolaradas, da clareza das normas construídas pela vontade popular e não das meditações soturnas dos "Reis filósofos", ansiosos pelo sol platônico das essências puras, mas que não passa de uma luz tênue de uma lua minguante que por sua penumbra protetora, encobre suas vontades individuais, arbitrárias e possessivas. Se os nossos juízes dráculas voam, o fazem porque a nossa "cocha de retalhos" - denominada por ironia hipócrita de Constituição Cidadã - permite e garante esses voos usurpativos. Não se conhece nada parecido em outros Países de Democracia consolidada, uma vez que nesses Estados democráticos é proibido aos juízes censurar, modificar, inovar, uma norma estabelecida pela vontade popular. E mesmo em caso de interpretação de normas constitucionais em processo difuso,  essa tarefa é privativa das Cortes Constitucionais, e o máximo que um juiz pode fazer tendo que julgar um pedido de exceção de inconstitucionalidade é suspender o processo, efetuando remessa necessária dos autos para a Corte Constitucional, como faz o juiz alemão.
 
Se é de necessidade imperiosa uma revisão na Constituição para que o Judiciário seja o grande árbitro democrático, mantendo e garantindo as regras do jogo democrático, o que falar desse simulacro de Corte constitucional, denominada de Supremo Tribunal Federal? Como pode uma Corte constitucional possuir competência para julgar de forma ordinária, matérias que não são constitucionais? Como pode um tribunal que se diz constitucional, atender demandas individuais, suprimindo instâncias judiciais, utilizando-se de um poder arbitrário e ilimitado de cunho avocatório? Nos países de democracia avançada, os tribunais constitucionais são órgãos da República, com os membros escolhidos pelos Poderes republicanos e como mandatos temporais, transformando-os em agentes políticos de segundo grau com especialização técnica, estando, desta maneira, sob o controle indireto dos cidadãos.

Se usarmos de toda a lucidez possível, perceberemos que o STF não passa de um balcão de negócios, um agrupamentos de pessoas de competência duvidosa e ligados por interesses inconfessáveis. As últimas decisões dessa confraria são verdadeiras agressões à Constituição, demonstrando que esses "juízes" constitucionais vestiram sem nenhum pudor a camisa partidária do PT, ou pior: de um grupo de delinquentes que governa o País. Nem se pode dizer que essa "corte" é bolivariana, fazendo-se uma comparação com o Tribunal venezuelano. É muito pior, pois  o tribunal venezuelano aparelhado pelo chavismo, até o presente momento não existe investigações judiciais que apontem que o governo é formado por criminosos, conspiradores insidiosos contra o erário público.

A decisão do Sr. Teori Zavascki e confirmada pelo Pleno, foi leviana, conspiratória, ferindo o Estado Democrático de Direito, pois não se pode afastar liminarmente um Presidente da Câmara de Deputados, mesmo o mesmo estando investigado, sob a frágil e maliciosa desculpa da excepcionalidade, uma vez que investigações sobre corrupção dos parlamentares nada é de excepcional, existindo um grande número de parlamentares investigados, dentre eles, o Senador Renan Calheiros e o Deputado Waldir Maranhão, o último, beneficiado por essa "inocente" decisão. Poder de cautela para a prevenção de atos da Presidência em relação ao processo de impeachment, depois de ter decorrido cinco meses desse pedido ao STF e com os fatos já consumados? Isso não é uma chicana dos conceitos jurídicos e um aviso apavorante que não mais existe segurança jurídica? Não é outra à conclusão do jurista Lenio Luiz Streck, em seu excelente artigo publicado na Conjur. (http://www.conjur.com.br/2016-mai-08/streck-supremo-usar-excepcionalidade-julgar-cunha)

O golpe dado pela "falsa corte" foi finalmente elucidado com a decisão do precário Presidente da Câmara, anulando o processo de impeachment. Alguém de bom senso pode ter dúvidas dessa armação efetuada pelos sicários do Sr. lula? Com exceção dos petistas corruptos e os clínicos que estão comemorando com o bordão "não vai ter golpe", acho que ninguém. A tentativa de golpe é clara e sob os auspícios de um arremedo tenebroso de Tribunal Constitucional. Resta saber se o Congresso Nacional vai se curvar perante esses "capachos de toga" que não possuem nenhuma legitimidade democrática, ou vai dar uma dura resposta, desconhecendo essas decisões que usurpam a vontade popular, advertido-os que podem responder por crime de responsabilidade, com a consequente perda dos seus cargos.

Entretanto, não se tomem como surpresa se o STF, impelido por pressões negociáveis, mantenha o procedimento de impeachment, uma vez que existem outros lances no tabuleiro de xadrez, como, por exemplo, a anulação da eleição da chapa Dilma/Temer pelo TSE. Assim sendo, quem será o Presidente? Ora, como ainda não decorreu o tempo para efetuar a eleição indireta pelo Congresso, o novo Presidente temporário será o Sr. Waldir Maranhão! No entanto, mesmo havendo um acidente de percurso e o Sr. Waldir não assumir, a linha sucessória é muito animadora para o lulismo, pois o Sr. Renan Calheiros  e o Ricardo Lewandowski compõem  um banco de reserva muito confiável. Transcorridos os noventas dias, uma nova eleição presidencial com urnas muito traquinas, vocês não imaginam que será o novo Presidente?

Quanto a mim, não vou mais perder meu precioso tempo argumentado sobre essas questões jurídicas, uma vez que não mais existe Estado Democrático de Direito, mas um convite para a luta nas ruas, um embate fático, local onde a democracia se refugia para ser a mãe da Revolução, da desobediência civil, da irmandade de todos que querem um Brasil melhor, sejam eles civis ou militares.

Não vamos deixar passar a hora de avançar, pois contra o crime, quando falecem as instituições, só existe o recurso da autodefesa. Bandido é bandido, e é assim que devemos tratá-los. 

Vamos à ruas por nossos ideais suprimidos, honrando às nossas lutas pretéritas, por toda a população sofrida do nosso País, e para para quem acredita em Deus, que Ele nos abençoe em nossa luta.



Ivan Bezerra de Sant Anna 


terça-feira, 3 de maio de 2016

Alucinadamente feliz

"Uma das melhores coisas que acontecem com os pais é perceber quanto os filhos são ao mesmo tempo nada parecidos conosco e completamente iguais".

Jenny Lawson

Talvez essa frase traduza o grande dilema não somente dos pais em relação aos filhos, mas de toda humanidade. Somos tão diferentes, mas, ao mesmo tempo, iguais nos preceitos maiores que nos permitem afirmar com convicção a nossa existência em-si-e-para-si.

A autora, uma bipolar assumida, sofrendo constantemente os influxos de uma ansiedade profunda, assume as suas dores das descidas profundas e as alegrias alucinadas dos voos vertiginosos da mania. Em meio a esse badalar de um pêndulo de polaridades extremas, ela consegue uma lucidez ímpar, típica dos filhos de Lúcifer, o deus dionisíaco dos hebreus, posteriormente alcunhado injustamente como o Senhor das Trevas. 

Poucos se interrogam porque a palavra "lucidez" vem derivada de Lúcifer e fazem uma confusão danada com a palavra "conformismo", quando usualmente dizem: "amigo, vivo no real, sou lúcido, e sonho é para os loucos e sonhadores". Mal sabem eles que viver no Real é uma tarefa para poucos "malucos beleza" que conseguem enxergar a crueza contraditória da vida, a ausência de sentido e de transcendência, o ciclo da vida e a morte, o ato de viver como um milagre, a ser festejado nas festas dionisíacas.

E é isso que a autora faz: festeja as dores da vida com a efusa alegria mundana de Lúcifer, Dionísio e Oxum, três deuses de religiões dualistas ou politeístas que representam o Real. No entanto, essa vivência, mesmo festejada, é um perigoso convite à psicose, o aparecimento de um super-homem amoral, um Gita que é "a vela que acende e o dente do tubarão", um anjo vingador que saboreia as dores dos pequeninos. Talvez por isso é que certas doutrinas, professadas por  líderes salvacionistas, são embasadoras de genocídios grandiosos.

A autora percebe esse perigo e choca, desdenha, ironiza as verdades "normais" das pessoas "saudáveis", brincando com os paradoxos existenciais, cutucado-as com o agulhão da arraia socrática, como se dissesse a elas, "sejam malucas! Somente os loucos vivem a intensidade da vida. Não tenham medo! Ridículas são pessoas com medos ridículos".

A autora consegue captar o verdadeiro humor que provém da alegria e da dor, um riso maduro e pleno, uma fruta que cai ao acolhimento de um generoso solo, e não aquele riso verde, lacônico, enganoso e destrutivo, do qual falou Píndaro: "É precocemente, antes que esteja maduro, que, com o doce fruto do riso, eles despertam o idiota".

Entretanto, na minha modesta opinião, não concordo com a autora quanto a leve aceitação das suas idas e vindas das situações extremamente polares, movimento pendular disparado por gatilhos de condicionamentos inconscientes, como uma situação de cunho predominantemente  orgânico, a ser minimizado por medicamentos que não curam. Como filho de Prometeu, luto contra o determinismo , recusando-me aceitar os caprichos dos deuses, movidos por prepotências lúdicas. 

Estou consciente que algumas pessoas possuam uma sensibilidade muito maior que as demais, portanto estando sujeitas ao enfrentamento do dramatismo do Real. Mas não é somente a elevação  para o cume das alegrias maníacas - uma situação efêmera porque as tensões contraditórias  do Real sempre atrai para as raízes - que vai resolver satisfatoriamente esse ciclo doloroso, pelo qual o corpo sente e ressente.

Ouso dizer que a autora esqueceu de Apolo e seus sonhos. Para os gregos não era possível conviver com Dioníso sem uma  mão estendida para Apolo, pois como dizia Shakespeare, "os sonhos são os estofos da vida". Ante a crueza do Real, a vida precisa de um sentido e ele somente os sonhos performáticos podem dar. Talvez a verdade existencial seja a resultante dialética, sempre provisória, do confronto do Real com as construções performáticas. Assim, aplaudo  a heróica disposição da autora em ser alucinadamente feliz, tentando sair da extrema dor da lucidez depressiva com atitudes corajosas e contundentes das manias exuberantes. No entanto, as mudanças não podem ser somente carnavalescas, mas rotações  profundas de valores, muitos dos quais não foram questionados pela autora, por se encontrarem em sua constelação ideológica do individualismo possessivo e voluntarista.

Cultivo a suspeita que a saúde mental não é manter-se longe dos sonhos e fantasias, mas, ao contrário, vivencia-las com intensidade e prudência, com prazer e cuidado, descendo e subindo os degraus que ligam a impactante lucidez da depressão com os devaneios da mania criativa. Uma grande árvore onde a copa roça as paredes do céu deve possuir raízes profundas, diz, repetidamente em seus escritos, o psicólogo arquétipo James Hillman. Não se deve ter medo da depressão ou da euforia maníaca, pois são ciclos constantes do conhecimento e crescimento existencial. As fantasias sexuais mais contundentes não devem ser percebidas como taras, pecados, impurezas, mas como desejos de alguma persona interna que devem ser avaliadas com sensibilidade e prudência, levando-se em conta o texto e contexto, o desejo e o possível, o arrojo e a prudência, afinal, talvez "no escurinho do cinema" seja mais prazeroso e seguro. 

Em resumo, nos meus devaneios de psicólogo frustrado, tenho a impressão que "não existe pecado do lado do Equador", existe, isto sim, muitos valores arcaicos a serem banidos, muitas culpas sem purgação, pecados sem lastros, e nos casos de bipolaridade sem controle, a ausência central da persona facilitadora, arbitral, prognóstica e performática que é determinante para a manutenção desse determinismo cíclico. Mesmo ela existindo, mas enfraquecida, as associações, os condicionamentos, oriundos de registros passados mal compreendidos serão determinantes para acionar os terríveis gatilhos de uma depressão endógena. 

Resta uma pergunta: mesmo compreendendo tudo isso, como evitar os gatilhos? Que tal um bom psicólogo, que em vez das longas escutas e interpretações dos divãs, seja um dialogador democrático, um facilitar estratégico que não veja apenas um objeto de pesquisa a ser entendido e manipulado, mas uma pessoa falível  e frágil como ele? Tenho uma suspeita que a elaboração de ciclos bipolares controlados, o estímulo das fantasias criativas, com o tempo vão amortecendo os gatilhos inconscientes, da mesma maneira que olhamos nos olhos dos nossos fantasmas, sorrimos, sonhamos, eles acabam progressivamente desaparecendo. O que não mais assusta ou controla, sai de fininho do Pretérito Imperfeito, escorrega macio no Pretérito Perfeito e acaba bem guardadinho no Pretérito-Mais-Que-perfeito. Afinal, no começo tudo não é o Verbo?


Ivan Bezerra de Sant Anna


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