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quarta-feira, 22 de junho de 2011

A linguagem do amor

A linguagem do amor


Um amigo, uma pessoa muito afável, aparentemente muito comedido, quando deparou comigo no Shopping, desabafou: "Estou arrasado. A minha mulher me deixou". Perguntando-lhe as razões de tal infortúnio, acrescentou: "Sei lá. Tivemos várias conversas com o objetivo de acertarmos as coisas. Vejo, porém, que foram inúteis. Para quem queria conversar racionalmente, insistindo que devíamos ser adultos, o seu comportamento final foi totalmente irracional. Que loucura!".

Se o conheço bem e se o que me contava do seu relacionamento tinha razoável veracidade, acho que seu sofrimento é honesto e pungente. Vinte anos de relacionamento e de repente, sem mais nem menos, acabou! Pelo que sei ele é "um dos amantes à moda antiga que ainda manda flores"; gosta de advinhar os desejos da amada e estar sempre pronto para satisfaze-los. Pode-se dizer: um homem quase perfeito.

No entanto, conhecendo-o bem e me atrevendo dizer que conheço um pouquinho as divinas cabeças femininas, acho que meu amigo está longe de ser um homem quase perfeito. O problema é que o amigão é engenheiro e tentou estabelecer limites às funções derivadas, com finalidade de calcular com razoável precisão os anseios e comportamentos da amada, esquecendo-se que as fantasias e anseios secretos estouram quaisquer limites impostos e tendem ao infinito. Para piorar a situação, meu pobre amigo era totalmente previsível aos olhos da sua amada. Como uma pessoa previsível pode mexer, incitar, provocar desejos e fantasias em outra? Uma amiga me disse certa vez que ao sentir que um homem está totalmente em suas mãos, ela perde o tesão por ele. Isso é uma regra geral? Pode não ser, mas convém ficar atento. Por que os homens se sentem fascinados pela "outra"? Uma das minhas personas me diz: é porque a "outra" é imprevisível, livre, sem escritura de propriedade, o que provoca nos homens a irresistível vontade de conquista-la. E quando acontece a posse definitiva e permanente, desaparece a "outra", com todo o seu fascínio. Se essa observação possui algum indicio de verdade, ela vale também para as mulheres. Tenho uma pequena desconfiança que os casais deviam rasgar todos os pactos de domínio, ficando, no máximo, com o de posse precária, alertando, porém, que a melhor posse é nenhuma, para não ficar com cara de manga pêca, igualzinha a do amigão, quando lhe perguntei como estavam as fantasias e o tesão.

Entretanto, o que me causou interesse e curiosidade não foram as causas que implementaram o infortúnio do amigão, mas, um simples detalhe, uma particularidade que, para muitas pessoas não passaria de algo de pequena monta, insignificante e irrelevante. Uma frase. Uma pequena frase usada, abusada e quase sempre, banalizada. Se uma outra palavra é inserida por emoções desesperadas, inesperada se torna sua musicalidade, pincelada com as cores fortes do crepúsculo. E na noite irrevogável, o vôo branco, o pio estridente da coruja traz presságios, nem sempre tão bons.

Quando uma mulher deseja falar sobre o relacionamento do casal, disparando, "fulano, vamos conversar racionalmente?", o fim se avizinha, mesmo que venha em módicas prestações. Se o "fulano" tivesse um pouco de sensibilidade auditiva, nesse momento, já ouviria os sinos dobrando para uma morte anunciada, restando-lhe preparar os procedimentos fúnebres, condições necessárias para uma possível ressurreição.

Falar racionalmente sobre o amor, isso existe? Vamos imaginar uma pessoa profundamente impressionada por outra que em um determinado momento resolve despejar seus sentimentos guardados. Será que ele vai dizer, "fulana vamos conversar racionalmente sobre o nosso possível namoro"? Vai elencar uma serie de pontos a serem discutidos sob o prisma da boa lógica formal ou com uma serie de argumentos quase-lógicos? Vocês imaginam essa cena? Pode ser, mas em uma comedia muito divertida, tendo um panaca como principal personagem! Em verdade, o que ele vai fazer para conseguir um possível êxito comunicativo? Vai usar uma linguagem diferente. Uma linguagem indireta com fraseados visuais, auditivos e sensitivos, pontuada pela poética, por ritmos e musicalidades, usando os artifícios, os instrumentos e os valores culturais que aprendeu. No mínimo, vai estufar o peito, abrir suas asas, eriçar as penas, como fazem algumas aves para o deleite da fêmea, com cara manhosa e disfarçadamente diminuta.

O mesmo deveria acontecer entre os casais quando o assunto for o relacionamento afetivo, sexual e amoroso. A linguagem persuasiva, poética, norteando o futuro, cheia de promessas, de sonhos, de fantasias, é a verdadeira linguagem do amor. Se comunica melhor do que a fria linguagem racional, pois as densas informações que traz em seu bojo são fraseadas por ritmos e musicalidade que tocam o coração, sem impedir que a razão se faça presente como um moderador democrático e facilitador. Alias, um tônico para uma nova razão: uma razão ampliada, com limites que tendem processualmente ao infinito.

Vamos imaginar um cenário onde um homem cego que pretende namorar uma determinada mulher. Ele pode dizer: "sou cego de nascença e pretendo namorar você para ser feliz" ou, alternativamente, pode dizer: "você é como a primavera que não posso ver; mas fico feliz com a brisa suave que emana de ti". Qual das duas tem mais informações? Quais delas levariam uma mulher a refletir?

Uma mulher se prepara para ir ao Shopping e se depara com o marido fantasiado com a camisa do Flamengo. Contrariada, ela diz: "não vou sair com você parecendo um mendigo, um urubu". Possivelmente, ele já tungado por umas cervejinhas, dirá: "vou como quero, sua porra". No entanto, ela pode dizer: "amor, que bom que não está usando aquela camisa azul celeste que você tem. Você fica lindo demais com ela e eu fico com ciúmes". Nesse caso, com certeza, o nosso Zicão pensará demoradamente no assunto, principalmente se for torcedor do Confiança.


O mais importante é que a linguagem do amor se adapta com qualquer vocabulário, tanto expressando-se na língua culta, como no catinguês, de acordo com a Nova Gramática Companheiro. O importante é poetizar com as palavras, frases e parágrafos. Vamos imaginar um dialogo entre uma mulher inculta chamada Mariza e o seu marido Luiz, homem arredio à riqueza das palavras, mas muito apaixonado pela riqueza dos pastos bovinos. Ela em estado de carência, como a maior parte das mulheres casadas, pode dizer: "oxente, home. Não me procura mais? Fica só tomando cachaça e falando com vereador. Tô mesmo que lagatixa". Ele, provavelmente, responderá: "se queta, muier. Que muier veia mais sibite. Vá tomar banho de agua fria". Ao passo que se nossa hipotética Mariza resolver deixar que suas pobres palavras tomem o rumo na trilha da fantasia poética, poderá dizer: "meu touro, tô com saudade de ti. Sua vaquinha está doidinha pra ser coberta. Naum existe boi reprodutor igual a vosmece". Com essa mentira piedosa na última frase é bem provável que o nosso Luiz comece a pensar em enrijecer o seu desejo.

Um alerta se torna necessário. Nunca confundir a linguagem do amor com a linguagem irônica, indireta e sarcástica. Ambas utilizam metáforas, alusões, metomínias e quase sempre são provocativas. A primeira é uma provocação convidativa, um chamamento ao diálogo desejoso às fantasias que unem e congregam. A segunda é um convite às dissonâncias destrutivas e desagregadoras, como, por exemplo, se observa nesse diálogo: "amor, vamos brincar de médico e paciente?", diz a mulher, provocando-o suavemente. "Isso é brincadeira de criança. Na minha infância brinquei muito com as meninas vizinhas. Somos adultos agora e isso não tem graça", responde o marido. Aí, ela tasca a ironia: "você devia ter sido médico do SUDS; a fila de meninas crescia e você nada fazia".

O leitor poderá estar pensando que a linguagem do amor é um instrumento estratégico que se utiliza de frases bem construídas poeticamente, mexendo com as emoções das pessoas, visando retirar delas o que se deseja. Uma espécie de peça publicitaria, objetivando levar as pessoas irrefletidamente ao consumo de bens e serviços. Longe disso! A linguagem do amor é uma forma de escrever ou de falar que se utiliza de palavras, frases e parágrafos construídos com métrica poética, com melodia e ritmo, dando prazer as pessoas no saboreio das belas frases, provocando emoções e levando-as à reflexão. Um exemplo é um livro bem escrito. Por acaso as pessoas que se deixam levar pelo prazer das frases poéticas e melódicas, esquecem de refletir sobre o seu conteúdo? Uma poesia de grande beleza estética, com ritmos e melodias evocativos, perde sua expressão significativa e sua grandeza imaginativa?

A linguagem do amor é a poética da vida em andamento. Se manejada com maestria, criatividade e de maneira multilateral pode inserir os amantes num dialogo poderoso de emoções, devastando os preconceitos, dando voz as personas reprimidas que existem em nosso psiquismo, abolindo pecados e ampliando o prazer. Entretanto, se "as cartas forem para a mesa", em uma atitude racionalista centrada em valores sedimentados, então será inevitável o aparecimento do grande fosso que os separa. Pode-se manter o relacionamento, o acordo de convivência territorial, mas o castelo protegido pelo fosso estará sempre sitiado. No máximo, restará uma amizade ressentida; uma nostálgica lembrança evocada por uma pálida fotografia; uma pontada de tristeza de que tudo podia ter sido diferente.

Ivan Bezerra de Sant Anna



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